quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Duas ou três coisas sobre os anos 80

Foto de Juca Martins

Não sei de onde veio essa mania de dividir o tempo em décadas. Como ele se tornasse mais compreensível e suportável assim organizadinho, disposto em prateleiras. Penso então que a gente quase sempre dá nome às coisas para perder o medo delas. Não sei se conseguimos. Mas sei que se eu falar anos 40 ou 50 ou 60 ou 70, imediatamente você monta uma colagem-painel na cabeça, onde cabem de Humphrey Bogart a Martha Rocha, de Crush a Aída Curi, Patricia Hearst e Sid Vicious, Chevrolet Impala e flower-power. Arbitrária ou não, a divisão funciona. Pelo menos para dar uma certa ilusão de disciplina ao caos.

Mas se eu falar anos-80, você pensa o quê? Tenho pensado duas ou três coisas sobre isso. Com a autoridade talvez apenas de estar dentro deles, em pleno centro vertiginoso e assustador da exata metade deles (junho, 85), perdido entre os 10 milhões de habitantes desta cada vez mais dura Sampa. E se adjetivo “vertiginoso & assustador” já estou dizendo senão três, pelo menos duas coisas sobre este tempo. Sinto muito: conto só com o que sinto e os meus sentidos captam.

Anda tudo muito triste. Engolimos a negação das diretas, aceitamos a meia-sola Tancredo Neves, devoramos a orgia fúnebre via Rede Globo. Órfãos, caímos nos braços de José Sarney. Que não escolhemos, mas tudo bem, cara: trata-se da “Nova República” anunciada pelas centenas de pombos que Fafá de Belém soltou por aí. Uma mágica: Fafá solta a pomba e, plim-plim!, a Nova República cai do céu como um maná, solucionando as secas, enchentes, inflação, fome, desemprego e solidão. Só que não aconteceu nada. Não só em relação a isso, mas a muito mais, tenho me perguntado assim: a face dos anos-80 não estará sendo esse indisfarçável furo na cartola de onde deveria ter saído um coelho?

Não quero falar de Podres Poderes. Há coisas mais graves no ar. São Paulo atualmente é uma cidade tomada pela paranoia do Aids. Pelo menos na faixa de gente-como-a-gente: essa parcela mínima e privilegiada da população que não só come e mora (coisa rara), como ainda por cima ainda lê, vai ao cinema, essas coisas. Conheço pessoas que não se tocam mais. O que é que se faz quando aquilo que era possibilidade de prazer – o toque, o beijo, o mergulho no corpo alheio capaz de nos livrar da sensação de finitude e incomunicabilidade – começa a se tornar possibilidade de horror? Quando o amor vira risco de contaminação. Pouco importa se entre homens e mulheres, entre homens e homens ou mulheres e mulheres. Os médicos acham importante desvincular a ideia da Aids da homossexualidade, sabia? E pouco importa também não saber ao certo de onde veio o vírus maldito. As hipóteses não atenuam o fato: a coisa existe. E mata. Pior ainda: estimula a níveis dementes o preconceito contra a mais castigada das minorias. Há qualquer coisa de nazismo no ar. Qualquer coisa de fogueiras medievais para queimar os feiticeiros. Lenha é que não falta.

Então, para nos distrairmos, há o pós. Pós-punk, pós-new wave, pós-moderno, pós-tudo, pós-pós. E há o new: new catolicismo, new-jovem-guarda, new puritanismo. Ninguém falou ainda no pré. Pré-qualquer-coisa. Anos-80 como pré cara a cara com a nossa perdição de micróbios doentes na costa frágil de um planetinha insignificante? Anda, sim, tudo muito triste. Tudo foi questionado, experimentado, negado, superado: a moda caiu de moda. O vazio e a involução tornam-se dolorosamente nítidos se a gente colocar lado a lado, por exemplo e ao acaso, Beatles e Menudos. Embora eu até possa concordar que a abobrinha seja uma saudável saída para the horror... the horror... Os fins de semana paulistanos têm sido pródigos em abobrinhas para os mais variados gostos, de amantes profissionais a rapazes com problemas por usarem óculos. Mas a gente não é hiena, certo?


Mas a lesão mais feia, mais feia que a ferida na perna do mendigo da esquina aqui de casa, corroendo por trás dos modelinhos Company ou Fiorucci é essa medonha suspeita de que de tanto pestear a natureza, o homem finalmente conseguiu tornar-se, ele mesmo, a própria peste. Daí, eu também ando muito triste. E sem entender quase nada.

                                 Revista Domingo, Jornal do Brasil, 2 de junho de 1985
Atenção: A coluna de Caio F. no Caderno 2 do Estadão começou em 1986. Essa crônica pro JB é de antes disso

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Torturas de Natal

Os irmãos Cláudio e Caio (o mais alto)

Cada vez que olho esta fotografia tenho uma espécie de susto, e penso obviedades do tipo: "Meu Deus, o tempo existe!". Tirada no Natal de 1956, ela tem – cruzes! – 34 anos.

Todo Natal, era sagrado, minha mãe emperiquitava a mim e a meu irmão Cláudio com modelinhos de linho branco e odiosas meias soquete, com elásticos eternamente frouxos, que acabavam escorregando patéticos pelas canelas finas – e chamava o fotógrafo. Não era nada simples chamar um fotógrafo naquele tempo, ainda mais o "Seo Fininho".

"Seo Fininho" era magro como um aspargo, branco como a polpa das peras que começavam a amadurecer no quintal. Além disso, tinha a alma delicada e era o único fotógrafo de Santiago do Boqueirão. Tão requisitado que, dizem, às vezes era chamado até para fazer fotos na Argentina, do outro lado do rio Uruguai. Por isso mesmo, era preciso chamá-lo às três da tarde para que aparecesse lá pelas cinco ou seis. Durante todo esse tempo, interminável para Gremlins de sete, oito anos de idade como nós – eu e Cláudio ficávamos enfatiotados e absolutamente proibidos de tocar nos brinquedos colocados ao pé da árvore. Era horrível. Sim, porque no 25 de dezembro à tarde simplesmente toda a molecada estava deitando e rolando pelas ruas da cidade com os brinquedos ganhos na véspera. E nós ali, presos naquelas armaduras de linho branco, com golas abotoadas até o pescoço.

Embora – ou por isso mesmo – tivesse apenas sete ou oito anos de idade, eu já era capaz de ódios profundos. O suor escorria por baixo do paletó (a gente dizia trajo), as meias escorregavam canelas abaixo e o ódio pelo pobre "Seo Fininho" fervia n'alma, assim mesmo com apóstrofe. Só que, fazer malcriação, nem pensar: éramos filhos de Dona Nair, a primeira das dez mais elegantes da cidade, do seu Zaél, orador oficial do Clube União Santiaguense e, como se não bastasse, netos do ex-prefeito Manuel Abreu e de Dona Zaira, diretora do Grupo Escolar Apolinário Alegre, leitora voraz de Machado de Assis. Ou seja, para nossa desgraça, tínhamos que ser finíssimos, exemplo de educação, elegância e bom-comportamento para toda a cidade. Não entendo como, mas ninguém suspeitava de nossa bandidagem, capaz de loucuras como soltar uma galinha do mezanino no Cine Imperial, em pleno suspense do seriado na matinê de domingo. O mocinho amarrado nos trilhos do trem e aquele cá-cá-cá de penas voando em todas as direções, enquanto nosso primo Beto gritava "Fogo! Fogo!'.

Nesse Natal – e olhando a foto, percebo que a árvore não era dessas de plástico de hoje, mas de pinheiro autêntico –, quando "Seo Fininho" chegou, nem eu nem Cláudio aguentávamos mais esperar. Hirtos, obedecendo às ordens de "olha o passarinho! agora, sem se mexer! não pisca, guri!” o jeito que encontrei de expressar o mau- humor foi arregalar os olhos. Meu irmão deixou cair os ombros de tanto rir. Tarde demais: "Seo Fininho" já tinha nos gravado para a posteridade.

Fico olhando os brinquedos a nossos pés. Engraçado, não lembro de quase nada, à exceção do carrinho de madeira com que transportei muita terra, fazendo cidades de areia no fundo do quintal e bonecos de barro que rachavam irremediavelmente quando colocados ao sol para secar. Na verdade, eu nem ligava muito para brinquedos. Já andava escrevendo algumas histórias, lendo Érico Veríssimo escondido, e tenho certeza que lembrava ainda do acontecido impressionante de dois anos antes. Foi no dia em que Getúlio Vargas suicidou-se, e eu perguntei a vovó, que chorava sem parar: "Vovó, o que é mesmo um presidente?" Ela respondeu: "É assim como uma espécie de pai de todo mundo”.  Até hoje, fiquei com isso na cabeça. A sensação de traição, naturalmente, tem sido medonha nos últimos 36 anos...

Mas, por trás das desilusões políticas, ficaram as fotos dos Natais, o presépio com casinha de papel, os galhos verdadeiros dos pinheiros, a certeza de que, naquela tarde, havia sol lá fora, e uma pergunta inquietante: o que será que a vida fez com o pobre do "Seo Fininho"?
                                                             
                                            Revista AZ – dezembro de 1990

   *Gracias, Lara! 

Feliz, feliz Natal. Merecemos


Amanhã à meia-noite volto a nascer. Você também. Que seja suave, perfumado nosso parto entre ervas na manjedoura. Que sejamos doces com nossa mãe Gaia, que anda morrendo de morte matada por nós. Façamos um brinde a todas as coisas que o Senhor pôs na terra para nosso deleite e terror. Brindemos à vida – talvez seja esse o nome daquele cara, e não o que você imaginou. Embora sejam iguais. Sinônimos, indissociáveis. Feliz, feliz Natal. Merecemos.

Páragrafo final de Mais Uma Carta Para Além dos Muros, publicada no Caderno 2 do Estado de S. Paulo na véspera do Natal de 1995, o último Natal de Caio Fernando Abreu por aqui. Está no livro Pequenas Epifanias. Sim, o blog é para escritos do Caio F. inéditos em livro, mas esse texto pediu, implorou para ser publicado. “Feliz, feliz Natal. Merecemos”: Caio F.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Ângela e Cauby: para roubar uma lágrima furtiva



Tenho uma tia chamada Vilma. A Vilminha, como a chamam até hoje as freguesas de costura, ou Pavima para nós, seus 500 sobrinhos. Solteirona, romântica, alucinada, tia Vilma amava no ar. Nunca se soube de um namorado seu. Tia Vilma lia pilhas de fotonovelas, e cantava. Ah, como cantava, derramando vezenquando uma lágrima furtiva. Me ninava nas noites frias, com seu repertório heavy: Dalva de Oliveira, Nora Ney, Linda Batista. Ao invés de Bicho Papão, dê-lhe Risque; e tome Vingaça, ao invés de Boi da Cara Preta. Com dois, três anos, eu dormia no colo virginal Pavima, ouvindo Ninguém me Ama. Com cinco ou seis, cantava com ela obras completas de Lupicínio Rodrigues. Essas coisas marcam fundo, vocês sabem. Podem marcar para sempre, gravemente até: fazem a fortuna dos psicanalistas quando a gente fica taludinho...

E Angela e Cauby, Pavima cantava. De Angela, muito Cinderela. Cauby, puro descorno, ela adorava. Lembro de uma porta interna de guarda-roupa – lembro mais, do mosquiteiro suspenso, de filó branco, sobre a colcha de renda também branca (quarto de moça), da janela aberta sobre o pátio cheio de begônias – e daquela porta interna do guarda-roupa com fotos de Cauby e Sandro Moretti. Cauby de bigodinho, orelhas meio de abano. Fino, sóbrio. Usasse faca, tia Vilma puxaria a dela, bem afiada, se alguém ousasse chamar Cauby de “maricão”. E como chamavam!

Tivesse eu Pavima por perto – e não lá nos ermos de Itaqui – hoje à noite a levaria para assistir Cauby e Angela em As Vozes. Talvez, suprema perversão, conseguisse fazê-la beber pelo menos uma vodka. Não, não me atrevo a imaginar tanto. Um singelo copo de vinho, branco naturalmente – quem sabe? Eu ficaria de porre total, lógico, e falaríamos de todo esse tempo que se foi, e dos que morreram, e dos que descaminharam, dos que a vida feriu fundo, talvez a velha – muito velha – e boa – boa no sentido vasto da generosidade – Pavima revelasse então seu grande segredo indizível. Que deve haver um, fatal. Sobre uma história que não houve. Homem casado, talvez? Um cunhado, um oficial do exército, um estudante pobre? Que vil sedutor, meu Deus?

Ao som das vozes de Angela e Cauby, eu e Pavima. Eu ficaria pensando qualquer coisa meio longa e complicada, como esta, assim: amar de paixão tresloucada ou detestar com as mais recônditas fibras do self, achar breguíssimo ou tão brega, mas tão brega que (como o princípio zen do yin e do yang) chega a ficar requintadamente chique, qualquer destas atitudes, intelectuais ou emocionais, em relação a Cauby e Angela não tem nada a ver. Se eu pudesse ver, do outro lado da mesa, os olhos muito cansados e quase azuis de tia Vilma por trás dos óculos de lentes grossas, teria ainda mais certeza que Cauby e Angela pairam infinitamente acima dos nossos pobres e preconceituosos padrões críticos.

Mas claro que, se eu quiser, posso colocar imediatamente o disco dos Inocentes e acabar com esse clima. Mas é este clima que não acaba como não acabam Angela e Cauby, as vozes que só por soarem, independente do que dizem, trazem de volta o passado de um país inteiro. Fico remexendo à toa em fotos e recortes antigos. Anoto os nomes dos oito irmãos da ex-operária Abelim Maria da Cunha (Angela): Abdmar, Abiezer, Ablair, Abiail, Abdiel, Abmael e Abedil. Parece uma oração. Encontro um elogio de Louis Armstrong, outro de Elis, à voz de Sapoti (e aquele agudo?). Vou mais fundo, até encontrar – juro – o registro de uma dança inteiramente dark de Cauby, em 1962. Detalhes não posso dar. Mas é forte. Aliás, com suas antenas mutantes, o Supla pegou esse lado do Cauby. E Elis, quando gravou com ele o infernal Bolero de Satã: “Agora me assalta a aflição de chorar louco e só de manhã”.

Tia Vilma/Pavima/Vilminha teria hoje talvez uma das mais belas noites de sua vida em sépia. Ficaríamos numa mesa ao fundo, cúmplices. Tenho certeza que ela cantaria junto Vida de Bailarina, bem baixinho. E fingindo limpar os óculos, enxugaria muito dissimuladamente – mas não tanto que eu não percebesse – outra daquelas furtivas lágrimas.

                             OESP – Caderno 2, Sexta-feira, 6 de junho de 1986





quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Carlos chega ao céu


                                             
                                               E, olhando aquele nuvenzal
                                               todo, comenta: “Gente, não é
                                               que virei mesmo eterno?”

Lá no céu, Cecília Meireles acorda cedinho. Mais cedo ainda do que de costume, que ela gosta de espiar os querubins tontinhos de sono. Mas hoje é dia especial. Cecília prende os cabelos, depois toma sua homeopatia (será Dulcamara? Daqui não dá pra ver – pode até ser Stramonium) e lava devagar o rosto na água do arco-íris. Bebe seu chazinho de pétalas de rosa branca – amarela não, que dá azia. Escova devagar as asas, pluma por pluma. Só depois de bem bonita é que bate de leve na porta da nuvem ao lado. Dentro, um resmungo mal-humorado.

É Vinicius de Moraes, que virou a noite com o arcanjo Gabriel, conhecendo as bocas da zona da Ursa Maior, aquela louca pirada. Mesmo de ressaca, o poetinha acorda. “È hoje”- sussurra Cecíliam na janela que Vinicius abre, ainda de pijama, as asas desgrenhadas, um bafo de estrelas cadentes que Cecília até disfarça, vira o rosto. Vinícius se espreguiça: Ô, xará, não é que é mesmo hoje?”. E vai correndo se aprontar.

De braços dados, os dois vão bater à porta da nuvem de Manuel Bandeira. Mas nem era preciso. Manuel já está aceso, debruçado na janela, o nariz um pouco vermelho, fungando e tomando o café quente que Irene acabou de preparar. “È hoje” – dizem Cecília e Vinicius. Manuel funga: “E eu não sei, gente? Daqui a pouquinho”. Os três ficam em silêncio, o coração deles começa a bater no mesmo compasso (dodecassílabo? daqui não dá pra ouvir direito). Então eles olham para baixo, em direção ao planeta Terra, que gira e gira, meio bobo de tão azul.

Aí uma nuvem dourada lá embaixo começa a ficar cada vez mais dourada, a chegar cada vez mais perto. Brilha tanto que os três quase se assustam, até reconhecerem São Pedro na direção. Que pena, não dá mais tempo de chamar Pedro Nava. A nuvem aterrisa, São Pedro abre a porta. Um pouco encabulado, atrapalhado com as asas, cabeça baixa. Carlos Drummond de Andrade desce e põe os pés no céu. “Não é que virei mesmo eterno?” – comenta, olhando aquele nuvenzal todo. Então vê os três. Tanto tempo, pois é, tanto tempo, pensei que nem vinha mais. Cecília, você não mudou nada, e essa barriga, Poetinha? não toma jeito, curou a tosse, Bandeira? tá mais magro, Carlos, e a Dolores? Vai bem, mandou lembrança, qualquer dia chega por aqui. Irene traz mais café, bem preto, bem forte. Vinicius dá um jeitinho de virar no café uma talagada de uísque da garrafinha que carrega sempre, disfarçada sobre a asa esquerda. Os quatro brindam, olhos molhados de saudade satisfeita.

Depois olham pro mundo aqui de baixo, que gira e gira, todo azul, assim de longe, e esperam um pouquinho, enquanto bebem o café, até conseguem localizar, entre as nuvens, a América do Sul. Custa um pouco para encontrarem, quase no extremo sul dessa América, um pontinho luminoso chamado Porto Alegre e, bem no centro do coração dessa cidade, um velhinho de cara sapeca, parado em frente a um porta-retratos com a foto de Bruna Lombardi. É o Mário Quintana – eles sabem -, ou será o Anjo Malaquias (isso nunca ninguém soube)?. Cecília, Vinícius, Manuel e Carlos sorriem mansinho, espiando Mário lá do céu, lá de cima.

Mas à terra – tão azul assim, vista de longe, vista de cima – eles olham com pena. Sabem que pelo menos metade deste azul todo, depois que eles se foram, brota dali, do quartinho do Mário. Aí suspiram, tadinho, que barra! Um anjo torto vem pedir autógrafo de Carlos. “Desguia” – avisa Vinícius. – “Um chato, maior aluguel.” Carlos pergunta de Maria Julieta. Manuel diz que leva ele até lá. Cecília tem um almoço com Clarice e Ana Cristina. Vinícius não sabe se dorme mais um pouco ou se pega o Leon Eliachar para irem até a cada da Elis – será que já acordou, a diaba? -, tá com samba novo na cabeça, precisa cruzar com a Clementina.

Cá embaixo, no centro do coração gelado do pontinho luminoso chamado Porto Alegre, pleno agosto, Mario Quintana abre a janela, olha para cima e dá uma piscadinha.

Danados, pensa, que danadinhos. O dia parece tão cinzento que não resiste à tentação de escrever um poema. Bem curtinho, bem feliz. Entre lá e cá, girando e girando sem parar, feito louca. A Terra também não resiste. De puro gosto, fica ainda mais azul – você viu?
         
                                       OESP - Caderno 2, Quarta-feira, 26 de agosto de 1987



*O blog traz escritos de Caio Fernando Abreu inéditos em livros. Esse não é. Está no livro Pequenas Epifanias e posto aqui para comemorar: Hoje faz 110 anos que Carlos Drummond de Andrade nasceu e essa crônica é tão linda. Depois de um tempo longe das livrarias, Pequenas Epifanias foi relançado pela Editora Agir (capa ao lado). É uma seleção (organizada por Gil França Veloso) das crônicas que Caio F. escreveu no Caderno 2. É daqueles livros pra ter, ler e reler, sempre com o prazer das descobertas.



terça-feira, 16 de outubro de 2012

Eu quero biografar o humano do meu tempo


O autor falou de outos escritores e da produção literária em entrevista que nunca foi publicada


Kil Abreu

Em seus últimos anos, o escritor Caio Fernando de Abreu dizia estar em busca de um texto mais “solar”, mais aproximado da linguagem poética. Foi o que ele revelou nesta entrevista inédita, à época do lançamento do romance Onde Andará Dulce Veiga, em setembro de 1990.
Caio Fernando Abreu falou ainda dos autores que o influenciaram, sobre as condições da crítica e a atual produção literária brasileira.

Seus personagens estão sempre enrolados em uma temática urbana e atual. Como você avalia a preocupação do escritor com a contemporaneidade?
Penso no escritor sempre como fotógrafo do seu tempo, embora não tenha essa preocupação deliberada com a contemporaneidade do texto. Acho que qualquer preocupação em dirigir a obra para o contemporâneo é extra-literária. Por outro lado, sinto-me extremamente comprometido com as coisas que minha geração conheceu. Vivi os anos 50, o existencialismo, o movimento beatnik. Mas vivi também, graças a Deus, o movimento hippie, profunda e sonhadoramente. Então, no momento em que minha literatura tem uma marca forte de contracultura, é porque ela fatalmente está definida por essas experiências.

Alguns críticos identificaram em sua obra uma influência decisiva herdada de Clarice Lispector. Você assume tal influência?
Concordo, mas acho que essa análise é redutora. Sofri, sem dúvida, grande influência de Clarice Lispector, mas também de Érico Verissimo, Graciliano Ramos, Virginia Woolf e, mais recentemente, de John Fante. À maneira de Bob Dylan, minhas influências são todo o meu ato de estar vivo. Tudo que eu vi e vivi pelas estradas, todas as pessoas que cruzaram o meu caminho e, ainda, coisas como o jazz, a pintura de Van Gogh, a dança de Pina Bausch.

Em seus contos há sempre muitas citações que apontam para o misticismo. De onde vêm essas referências?
Certa vez pedi ao Paulo Coelho uma definição de magia, e ele respondeu dizendo que magia é o mistério. Acredito em Deus e em muitas formas do mistério. Sou astrólogo, embora não profissional, há 20 anos. Tenho uma curiosidade imensa de saber por que estou vivo, o que significa o céu, o que significa morrer. Portanto, é natural que em meu trabalho estejam presentes todas essas ânsias filosóficas exaltadas. Muitas vezes o que torna digna a vida de um homem é o fato de ele olhar para o céu e dizer: “Meu Deus, que coisa imensa...” E perguntar: Por que estou aqui?” Toda forma de criação artística é uma maneira de procurar essas respostas. Nesse sentido, minha literatura busca um caminho cada vez mais “solar”, o caminho da clareza, da concisão, da beleza. É vaidoso dizer isso, porque acho que a poesia é a linguagem mais nobre, mas eu gostaria que o meu trabalho se aproximasse da linguagem poética.

Com Morangos Mofados você assumiu um dos maiores sucessos editoriais da década de 80, a exemplo de outros escritores cujos livros permanecem entre os mais vendidos. Isso define uma valorização da literatura criada no Brasil?
Em geral, existe um grande preconceito contra o escritor brasileiro, que começa com o editor, passa pelo livreiro e chega inevitavelmente ao leitor. Uma outra coisa muito característica do Brasil é que o povo tem vergonha de ser brasileiro. Então, tudo aquilo que reflete sua face ele rejeita. Os suecos detestam o cinema de Bergman, que é a alma sueca. Aqui, o autor tem de se multifacetar e, para ver seu livro editado, tem de trabalhar muito. Acho que qualidade existe. Falta respeito pelo escritor.

A recorrência a determinado universo temático levou muitas pessoas a identificarem em seu trabalho as características que definiriam uma “escrita gay”. Você concorda com a existência dela?
Não existe literatura gay. A literatura ou é boa ou má literatura. Naturalmente que os escritores homossexuais têm algumas características, como as autoras mulheres. Mas considero toda essa discussão muito perigosa, porque é uma tentativa de colocar as coisas em prateleiras, para que elas não sejam perturbadoras. O meu trabalho é sobre a condição humana e absolutamente tudo cabe dentro da condição humana. Eu gostaria que uma pessoa, ao ler um livro meu, percebesse a dimensão disso, e não ficasse procurando classificações.

E a crítica, como se comporta em relação ao seu trabalho?
Como disse Oscar Wilde, quando os críticos divergem, o criador está de acordo consigo mesmo. Tenho experiências malucas em relação à crítica. Quando lancei Triângulo das Águas, por exemplo, no mesmo sábado saiu na Veja uma crítica demolindo o livro e na revista Isto É uma crítica dizendo que era o melhor livro brasileiro da década. O problema é que a crítica, principalmente a jornalística, é feita às vezes por pessoas incompletas. Isso a torna menor. A maioria dos bons críticos está no circuito universitário, como Luiz Costa Lima, Flora Sussekind, Silviano Santiago, Heloisa Buarque de Holanda.

Além dos contos, você também escreveu algumas peças para teatro. Como pensa a criação dramatúrgica?
Eu fui ator, em Porto Alegre, durante algum tempo. Então, tenho uma paixão antiga por teatro, mas atualmente não me sinto à vontade, acho chatíssimo. Não consigo ver nada, além de Antunes Filho e Gerald Thomas, que adoro. Muitas vezes parece que a forma teatral está um pouco gasta. Penso em um teatro simples, sem excessiva dramaticidade.

Em sua opinião, quem são os escritores brasileiros mais originais de nossa época?
Para mim, o mais importante, o mais original, o mais maluco e incendiado de todos é a Hilda Hilst. Eu nunca conheci uma escritora tão tomada pela paixão da palavra como a Hilda. Ela é bárbara. Gosto imensamente de João Ubaldo Ribeiro, Sergio Sant’Anna e Lya Luft, que escreve uns livros densos, misteriosos, uma espécie de gótico da realidade brasileira. Acho também que a poesia que se faz no Brasil, neste momento, conta com nomes da melhor qualidade, como Rubens Rodrigues Torres Filho, Armando Freitas Filho, Antonio de Francheschi. Vendo essa gente toda, às vezes me pergunto se escrever não é inútil, porque tenho a impressão de que não estou colaborando socialmente. Aí lembro de uma coisa que meu terapeuta falou, certa vez. Ele me disse que os escritores são biógrafos da emoção. E se daqui a 50 anos alguém quiser saber o que as pessoas sentiam nos anos 90 pode encontrar algumas respostas, talvez na literatura. Então, eu quero biografar o humano do meu tempo. Se conseguir fazer isso de uma forma que enobreça o homem, vou me sentir feliz, sereno. Acho que serenidade é uma coisa importante.

                                             OESP - Caderno 2, Terça-feira, 27 de agosto de 1996