| Limite Branco. Expressão e Cultura, Rio, 1970 |
Blog dedicado a textos de Caio Fernando Abreu. São crônicas, críticas, entrevistas, tudo escrito por ELE e a maioria inéditos em livros.
terça-feira, 11 de agosto de 2015
segunda-feira, 10 de agosto de 2015
Oração à paranóia
Oração à paranóia, como foi publicado no Nicolau, Jornal literário de Curitiba, nos anos 70
E aqui, a transcrição do texto e foto do filme Romance
http://caiofcaio.blogspot.com.br/2014/10/oracao-paranoia.html
E aqui, a transcrição do texto e foto do filme Romance
http://caiofcaio.blogspot.com.br/2014/10/oracao-paranoia.html
segunda-feira, 9 de março de 2015
Bonjour Shirlei
Algumas vidas, sim, podem caber perfeitamente nos trilhos de um bonde. São essas arrumadas, temerosas e tão tolas que supõem que os bondes chegarão em segurança a seu destino. Mas outras (sempre as mais interessantes) não cabem em trilho algum. Têm um preço, essas vidas que correm desgovernadas, à procura não de ilusórias seguranças materiais, mas daquele "ver a face de Deus" de que falava Cazuza. O preço? A rejeição social, a maldição, a marginalidade. O prêmio? Quem sabe apenas a intensidade. Chegar mais perto de Deus. E também do Diabo.
Fora dos trilhos corre a vida do travesti Shirlei, devolvido ao Brasil direto do aeroporto em Paris. A navalha que corta seus sonhos (e talvez sua vida) tem estúpidas razões. Ela/ele ousou revoltar-se contra o mais rigidamente estabelecido dos papéis - a própria sexualidade. O curta-metragem de Gilberto Perin, com roteiro dele e Alice Urbim, em secos oito minutos nos confronta com uma pergunta delicada. Por que, caralho, Shirlei deve ser punida e impedida de viver seu sonho?
A resposta é simples. Nossa sociedade não admite que alguém escolha viver sua vida fora dos trilhos rígidos de um bonde. Quase sem palavras, com atores extraordinariamente expressivos (em especial a protagonista Rebecca McDonald), nos joga na cara outra questão ainda mais assustadora. Que espécie de País tornou-se esse miserável Brasil de fim de século em que, para viver com certa dignidade, é preciso abandoná-lo? No caso patético de Shirlei, ser proibida até de executar o triste ato do abandono.
O filme - curto, preciso, comovente - é belíssimo. Depois de vê-lo fiquei pensando assim: ah, como eu gostaria um dia de assistir outro filme exatamente como este, mas com happy end. Um filme em que todas as Shirleis do mundo - e todas as vidas que correm fora e longe dos trilhos de um bonde - dessem "certo". Então, em vez de AU REVOIR SHIRLEI poderia chamar-se BONJOU SHIRLEI. E nele, como nos velhos contos de fadas, todos os malditos viveriam felizes para sempre.
No cartaz do curta Au Revoir Shirlei, 1991
domingo, 9 de novembro de 2014
Me leva pro céu, Luni!
Depois de 12 anos, o grupo
Luni fez show no sábado passado no Auditório Ibirapuera, em São Paulo. Aqui, de
volta a 1987, quando a banda tinha um ano de carreira e Caio F. decreta,
definitivo,é “a melhor banda da cidade".
Oito pessoas lindas, com um
som irresistível: é o Luni,
a melhor banda da cidade
som irresistível: é o Luni,
a melhor banda da cidade
Assumi, definitivo. Venci
minha monolítica timidez: sou tiete do grupo Luni. Aquele que está em todos os
shows, na primeira fila, grita bis, grita bravô! (com acento francês, em
homenagem aos dois saxofonistas), dança, sua, aplaude em pé, depois vai aos
camarins dar beijinhos arfantes de prazer. Cada nova vez, confirmo: o Luni é o
melhor grupo da cidade, do estado, do País. Calma, Caio F., vamos por partes.
No último sábado, a lua
cheia, e naquele lugar cada vez melhor que é o Espaço Mambembe, o show do Luni
deixou claro que todo este deslumbramento é mais que justificado. Por exemplo:
o Luni, graças a Deus, não é (mais) um grupo de rock. A gatíssima expressão
pós-tudo nunca se encaixou tão bem quanto aqui. O Luni incorpora blues, ritmos
afros, caribenhos, new-age, samba e tudo mais que você lembrar, passa por
dentro e por cima das influências para desembocar num trabalho que, por lembrar
tudo, não lembra nada parecido. São originalíssimos e cheios de clichês
sarcásticos, bem humorados.
Não, o Luni não gravou nem
tem gravadora. Sem citar nomes, um dos integrantes contou que um famoso
produtor disse que o som deles era “eclético demais”. Pode? Outro argumentou
que tinha medo que o Luni virasse uma Cult-band. Sem sacar que o Luni já é uma Cult-band
– ou seja, uma banda para os adoradores dispostos a perseguí-los pelo circuito
alternativo da cidade (Off, Satã, Mambembe, o bem-vindo Bodega Bay). Eles não
aparecem na Globo, não estão programados para Canecão nem à venda na Hi-Fi. Porque
este país é burro, mas isso é outra história.
O Luni não tem estrelas, é
uma banda comunitária, aquariana. Eles são oito: os franceses Giles Eduard e
Lloyd Bonne Maison (que, acreditem, nasceu em Java, viveu na Etiópia e estudou
em Berkeley, o artista plástico Theo Werneck (capaz de receber James Brown ou
Louis Armstrong, em vocalizes arrepiantes de soul e negritude), a guitarrista
Lelena, o trio-fundador Fernando, André e Natália, a bela (que faz parte do
grupo de bonecos XPTO, também o melhor da cidade) -, mais uma special guest
star, a mulher maravilha Marisa Orth (quem a viu atuando em Criança Enterrada,
de Sam Shepard, ou Prepare Seus Pés Para o Verão, de Marta Góes, sabe do que
ela é capaz. Se Marisona, a deusa, enlouquece a plateia cantando A Melhor (“eu
sou a melhor/ eu sempre fui a melhor”) ou gemendo versos de Boris Vian na pele
de uma francesa sadomasô (“me machuca, Johnny, me leva pro céu/ eu gosto de
amor que dói”), de repente pode dividir um backing com Natália e tocar
modestamente sua maracá, enquanto chega a voz de Fernando ou Theo ou qualquer
outro brilhar. E como brilham!
O Luni é elegante sem ser
afetado, culto sem ser pedante, engraçado sem ser bobo, bonito sem ser vaidoso,
ensaiado à perfeição sem ser mecânico, chique sem ser esnobe, brega sem ser
cafona. E principalmente música, naturalmente música. Porque é um som que você
pode dançar, o ritmo é irresistível, cantar (seja em iorubá, espanhol,
português, inglês, francês) (Pour Quoi, Monsieur? é uma miniobra prima) e
também ver: eles são teatrais, performáticos. Marinheiros, prostitutas,
mariachis, astronautas, brazilianistas, robôs, crianças: fazem número. Passam
alegria (que raro), saúde (oba!), vontade de viver (wow!). Quer maior luxo?
Por tudo isso repito: o Luni
é o melhor grupo da cidade, do estado, do País. Dou o toque às WEA, Polyrgrams,
CBSs, RCAs da vida: ô, gravadoras, cêis tão de bobeira, gente! Por falar nisso,
prestem atenção também em Os Mulheres Negras e no Nouvelle Cuisine: depois
disso, quem disser que a música brasileira tá em crise, eu grito. Como vou
gritar neste fim de semana, no Circo Voador, quando o Luni, as Harpias, Marcelo
Mansfield, o Mazzipan, e outras gentes vão mostrar aos cariocas o que é que São
Paulo tem. Muito além de Jânio ou Quércia, tenho dito.
OESP, Caderno 2, 15 julho
1987
Aqui, Johnny, que Caio F. cita na crônica. Vídeo de Ruth Slinger, extraído de especial do Luni, realizado para tv manchete, no Rio de Janeiro
Aqui, Johnny, que Caio F. cita na crônica. Vídeo de Ruth Slinger, extraído de especial do Luni, realizado para tv manchete, no Rio de Janeiro
terça-feira, 14 de outubro de 2014
Oração à paranoia
Oração à paranoia
Glória a ti, Paranoia nossa de cada dia!
Teu nome é sonoro e poderoso como o de uma
deusa. Deusa do medo irracional, persecutório, megalômano, incapaz de decifrar
o limite entre a suspeita gelada e esse muro áspero que chamamos de “real”.
Deusa paranóia, senhora dos esquizofrênicos, rainha soberana destes tempos de
névoa e de nojo, destes tempos de trevas e de vírus, destes tempos de fuga e
suicídios. Deusa necessária para localizar a lâmina do punhal escondido no
bolso do que se diz amigo, só tu és capaz de desmascarar a dança assassina por
trás de cada gesto de carinho falso. Deusa solitária acuada feito bicho no
covil mais imundo do teu cérebro, deusa doentia, fugitiva da luz, temerosa do
bem, deusa vampira de todos os terrores, geradora de enganos salvadores.
Oh rainha suprema!
Ama nossa solidão e nosso medo com dentes
de metal para que possamos lutar sem esperança contra a matilha faminta de
lobos que nos cercam ontem, hoje, amanhã e sempre.
Ave, Paranoia!
Nós, que ainda não morremos, te saudamos. E
arrojados a teus pés, em coro uníssono suplicamos: Ave, Ave Paranoia nossa de
cada dia! Não nos abandones, até que a morte nos destrua, amém.
Nicolau nº 27, 1989
Fragmento do filme Romance, de Sérgio
Bianchi. Texto dito pelo personagem Antonio César, interpretado por Rodrigo
Santiago (foto ao lado) e não aproveitado na montagem final.
Caio F. foi um dos roteiristas de Romance, lançando nos cinemas em 1988 e disponível em DVD
segunda-feira, 29 de setembro de 2014
Abolerados blues ou Para Sempre Teu
A crônica abaixo veio do facebook da Paula Dip e foi publicada na revista Lira Paulistana. Eis o post da Paula: "Procurei muito, e encontrei ontem, perdido entre meus arquivos, esse texto de Caio, "Abolerados blues, ou Para sempre teu", publicado nos anos 80 na extinta revista Lira Paulistana. Esse texto me inspirou quando dei titulo ao meu livro, e nele Caio fala de uma de suas grandes paixões: a cidade de São Paulo, que ele amou e odiou com igual fervor". E Para Sempre Teu Caio F., o livro de Paula Dip, lançado em 2009, breve estará com uma nova edição (a quinta) nas livrarias. Abaixo, Abolerados Blues ou Para Sempre Teu:
Meu
dia em Sampa começa sempre na Avenida Rebouças, saindo da vila escondida onde
habito para batalhar ônibus ou táxi (quando há grana, claro). Não é muito
agradável. Tem barulho demais, monóxido de carbono demais, tem um astral de
tensão que me faz chegar no trabalho como se tivesse um mármore na nuca.
Atrasado, correndo, pelas manhãs, maldigo muito a vida e a cidade, assobiando “deu
pra ti, baixo-astral/ vou pra Porto Alegre, tchau/ quando ando assim meio down/
vou pra Porto e bah trilegal”. Mas não vou pra Porto, a não ser para pegar um
colo rápido, vezenquandemente. É só um inofensivo consolo escapista. Nem deu
pra Sampa, ainda. Vou ficando por aqui, que Oxalá e Tupã me alumiem.
A
noite costuma aliviar, principalmente quando chove e tem aqueles luminosos
todos refletidos nas poças d’água da Consolação. Ou uns crepúsculos, uns
laranjas, uns vermelhos intensos pras bandas do Ibirapuera. Uma chuva fininha,
daquelas que dá vontade de ficar o dia todo em casa tomando chás, ouvindo Erik
Satie e lendo Proust, bem tia. Nessas horas, Sampa revela seus venenos
escondidos, suas seduções tão secretas e tão sutis que você mal percebe até que
ponto está envolvido. Aí você grita chega! e sai correndo pro Rio de Janeiro.
Que nada. Um dia, dois, três no máximo, aquela exuberância toda começa a gastar
e o de dentro da gente vai ficando meio sem paradeiro no meio da dispersão, dos
baixos leblons a sóis ipanemas da vida. Haja Ponte Aérea.
Deve
ser lugar-comum, mas Sampa é definitivamente um caso de amor mal resolvido,
sabe como? Você já amaldiçoou mil vezes a vez em que a conheceu, você já deu na
cara dela, ela já deu na tua cara (vezenquando ficam feias marcas, roxuras,
inchaços, cicatrizes), você já bateu forte a porta de casa jurando vingança e
nunca mais voltar. Perfídia, injúria: abolerados blues. Mas voltou sempre. E
teve também aquelas noites com vinho branco, luz de velas, depois lençóis de
cetim, suspiros, ah aquela tarde no Ibirapuera quando, olhando as carpas
coloridas, de repente tudo ficou mágico! E os planos, tantos planos em comum,
tantos encontros inesperados, tantas mãos se tocando mornas, fazendo tudo parecer
um grande e único corpo, com um só coração batendo sístole-diástole, todo
sangue e paixão. Como sobreviver à ausência disso?
Depois, tem pessoas. Só aqui existiria, por exemplo, Augusto de Campos. Ou Rita Lee. Ou Lygia Fagundes Telles. Ou Telmo Martino. Ou Cida Moreira. Ou J.C. Violla. Ou Bruna Lombardi. Ou José Márcio Penido. Ou se começo a enumerar, não paro. Então mesmo naqueles sábados à noite, quando a última possibilidade é discar 130 para ouvir uma voz humana, você sabe que em algum ponto da babylon city deve haver uma pessoa bonita, senão fazendo algo bonito pelo menos sendo, bonitamente, ela mesma. Ajuda? Pode ser. Ainda que ultimamente a cidade ande mais pro escândalo da Ro-Ro do que pra saúde de Lee Jones. Ou sou eu quem anda assim? Porque também não sei se sei mais separar o que é de dentro e o que é de fora de mim, o que me faz pensar – com ou sem zen-budismos, pouco importa – se a cidade não seria eu o tempo todo, ou vice e versa, tanto faz. Também tenho essas zonas lestes, esses jardins, moocas e morumbis esquizoidemente divididos sobre a pele asfaltada.
Depois, tem pessoas. Só aqui existiria, por exemplo, Augusto de Campos. Ou Rita Lee. Ou Lygia Fagundes Telles. Ou Telmo Martino. Ou Cida Moreira. Ou J.C. Violla. Ou Bruna Lombardi. Ou José Márcio Penido. Ou se começo a enumerar, não paro. Então mesmo naqueles sábados à noite, quando a última possibilidade é discar 130 para ouvir uma voz humana, você sabe que em algum ponto da babylon city deve haver uma pessoa bonita, senão fazendo algo bonito pelo menos sendo, bonitamente, ela mesma. Ajuda? Pode ser. Ainda que ultimamente a cidade ande mais pro escândalo da Ro-Ro do que pra saúde de Lee Jones. Ou sou eu quem anda assim? Porque também não sei se sei mais separar o que é de dentro e o que é de fora de mim, o que me faz pensar – com ou sem zen-budismos, pouco importa – se a cidade não seria eu o tempo todo, ou vice e versa, tanto faz. Também tenho essas zonas lestes, esses jardins, moocas e morumbis esquizoidemente divididos sobre a pele asfaltada.
E é
então que a paisagem vista através da janela se transforma subitamente num
espelho. No primeiro olhar, você rejeita, vidro vagabundo, espelho deformante
como aqueles de parque de diversões. Depois, aos pouquinhos, você começa a
encarar e vai aceitando. Não é simpático esse arranha-céu de vidro ali no olho
esquerdo? E o que me diz da praça larga sobre a boca? Da quaresmeira toda
florida entre os cabelos? Aquele tietê na testa cheira um pouco mal, é verdade,
e os shppingcenters no nariz incomodam bastante. Mas tanto gás neon cintila em
tuas pupulas desbotadas, baby, que você de repente fica tonto e gira e gira
todo vivo ao som de mil buzinas, sem saber nunca se de desespero ou de alegria.
Diz
que até o ano 2000 abre uma fenda embaixo de Sampa e engole tudo. Deus, preciso
dar um jeito de acabar com este caso! Devolva logo minhas cartas e minhas
fotografias, diaba. Apesar de tudo, para sempre teu
Caio Fernando de Abreu
Revista Lira Paulistana, começo dos anos 1980
segunda-feira, 22 de setembro de 2014
Prefácio à Esta Valsa é Minha
Está de volta às livrarias Esta Valsa
é Minha, o romance autobiográfico de Zelda Fitzgerald. A caprichada edição da
Companhia das Letras fez a fineza de incluir o prefácio que Caio F. escreveu em
1986, quando o livro saiu por aqui. Está na capa, bem destacado: “prefácio
original de caio fernando abreu”. Ele iria adorar. A partir da próxima linha, tudo é do Caio.
Sempre imagino assim: um dia, um
daqueles dias longos, chapados e doloridos da clínica psiquiátrica, Zelda
sentou e escreveu, como se fosse a voz de outra pessoa, uma frase assim: “Essas
garotas pensam que podem fazer qualquer coisa e ficar impunes”. Porque provavelmente
era isso que diziam todos em volta dela. Ou só pensavam, nem é preciso dizer.
Estava escrito nos olhos e no comportamento dos médicos, das enfermeiras, dos
poucos amigos que a visitavam, e quem sabe até no rosto do marido Francis
Scott, obrigado agora a escrever e vender ficção como se fossem salsichas para
poder sustentá-la na clínica. Linda, jovem, talentosa, com um marido e uma
filha lindos – e louca. Pode?
Podia. Tanto que ela estava ali.
Depois de escrita aquela frase – imagino sempre –, o resto veio naturalmente:
em apenas seis semanas, ela terminou Esta Valsa é Minha. Escrito, como se pode
perceber por seu volume e pelo pouquissimo tempo, de um jato só. Zelda escrevia
para se justificar, para se compreender, para se salvar. Para orientar a si
própria dentro daquele poço onde tinha caído e que, até hoje, por falta de
outra palavra mais adequada, chamamos de “loucura”. Nesse sentido, conheço
apenas um outro livro assimm autoterapêutico: The Bell Jar (A Redoma de Vidro), o único romance
escrito pela poeta Sylvia Plath, pouco antes de suicidar-se, aos trinta e um
anos. Ela não conseguiu salvar-se através da literatura. Zelda também não: a
loucura voltaria em ondas, com pequenos intervalos, até o incêndio no hospital
psiquiátrico que a matou acidentalmente, em 1947, sete anos depois da morte de
Scott.
A autobiografia é nítida em Esta Valsa
é Minha. De certa forma, parece a versão pessoal de Zelda a tudo que Scott
contaria em Suave é a Noite, onde ela própria aparece com o nome de Nicole.
Aqui, ela se chama Alabama, uma garota ousada do sul dos Estados Unidos que, em
plenos anos 20, emerge de sua vida provinciana para casar-se com o artista
David Knight: “David Knight e srta. Alabama Ninguém” – ele grava com a ponta de
uma faca na madeira da porta, pouco depois de se conhecerem. E a vida, a
seguir, por trás dos prazeres, viagens e bebedeiras monumentais, parece ter
sido sempre a luta de Alabama para deixar de ser a “srta. Ninguém”. Ou a luta
de Zelda para deixar de ser a sombra, embora fascinante, do escritor mais
mimado e talentoso de seu tempo.
![]() |
| Capa da 1ª edição |
Alabama/Zelda tem uma filha (Bonnie,
no romance; Scottie, na vida real), um caso com um aviador francês (Jacques, no
romance; Edouard Josanne, na vida real). À procura da própria face, apaixona-se
pela dança: faz aulas alucinadamente, como se fosse possível tornar-se uma
grande bailarina. Zelda desistiu: Alabama, não. Persegue seu sonho até a
Itália, e é aqui que a loucura aparece sobre a forma de metáfora: Alabama quase
precisa amputar um pé, de tanto dançar. O pé salva-se, mas ela nunca mais pode
voltar a dançar. Para Alabama, a dança está perdida. Para Zelda, a sanidade
mental. O único jeito de prosseguir, então, é tentar compreender o que se
passou. Como diz Alabama, no final: “Junto tudo num grande monte que rotulo de “o
passado” em depois de esvaziar dessa maneira esse profundo reservatório que foi
um dia meu ser, estou pronta para continuar”.
Esta Valsa é Minha é principalmente
isto: a tentativa, apesar das mutilações, de continuar a vida. Com seus cortes
bruscos, seus diálogos derramados e técnica às vezes desconjuntada, mas
encharcado de emoção e entrega, o livro flui – para usar a imagem da própria
Zelda – “como a corrente clara e fria de um riacho de trutas”. Depois dele, é
possível compreender melhor aquela velha história de Zelda chamando os
bombeiros, trancada num quarto de hotel em Paris. Quando eles arrombaram a
porta, perguntando onde era o fogo, ela bateu no próprio peito e disse: “Aqui”.
E é então, também que se pode compreender aqueles versos de Ana Cristina Cesar:
“Chamem os bombeiros, gritou Zelda./ Alegria! Algoz inesperado”. Não, essas
garotas não podiam mesmo ficar impunes – dizem todos. E veja só: Sylvia Plath,
Ana Cristina Cesar, Zelda Fitzgerald e Alabama Knight – para ficarmos so nessas
quatro – não ficaram. Mas deixaram versos, histórias. E lendas. Que talvez não existissem,
se elas – bravas garotas – não tivessem ousado ir muito além do mediocramente
permitido.
Aqui, uma resenha de Pedaços do Paraíso, coletânea de contos do casal Zelda/ Scott http://caiofcaio.blogspot.com.br/2013/03/desesperados.html
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