segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Oração à paranóia

Oração à paranóia, como foi publicado no Nicolau, Jornal literário de Curitiba, nos anos 70



E aqui, a transcrição do texto e foto do filme Romance

http://caiofcaio.blogspot.com.br/2014/10/oracao-paranoia.html

segunda-feira, 9 de março de 2015

Bonjour Shirlei



Algumas vidas, sim, podem caber perfeitamente nos trilhos de um bonde. São essas arrumadas, temerosas e tão tolas que supõem que os bondes chegarão em segurança a seu destino. Mas outras (sempre as mais interessantes) não cabem em trilho algum. Têm um preço, essas vidas que correm desgovernadas, à procura não de ilusórias seguranças materiais, mas daquele "ver a face de Deus" de que falava Cazuza. O preço? A rejeição social, a maldição, a marginalidade. O prêmio? Quem sabe apenas a intensidade. Chegar mais perto de Deus. E também do Diabo. 


Fora dos trilhos corre a vida do travesti Shirlei, devolvido ao Brasil direto do aeroporto em Paris. A navalha que corta seus sonhos (e talvez sua vida) tem estúpidas razões. Ela/ele ousou revoltar-se contra o mais rigidamente estabelecido dos papéis - a própria sexualidade. O curta-metragem de Gilberto Perin, com roteiro dele e Alice Urbim, em secos oito minutos nos confronta com uma pergunta delicada. Por que, caralho, Shirlei deve ser punida e impedida de viver seu sonho?



A resposta é simples. Nossa sociedade não admite que alguém escolha viver sua vida fora dos trilhos rígidos de um bonde. Quase sem palavras, com atores extraordinariamente expressivos (em especial a protagonista Rebecca McDonald), nos joga na cara outra questão ainda mais assustadora. Que espécie de País tornou-se esse miserável Brasil de fim de século em que, para viver com certa dignidade, é preciso abandoná-lo? No caso patético de Shirlei, ser proibida até de executar o triste ato do abandono.



O filme - curto, preciso, comovente - é belíssimo. Depois de vê-lo fiquei pensando assim: ah, como eu gostaria um dia de assistir outro filme exatamente como este, mas com happy end. Um filme em que todas as Shirleis do mundo - e todas as vidas que correm fora e longe dos trilhos de um bonde - dessem "certo". Então, em vez de AU REVOIR SHIRLEI poderia chamar-se BONJOU SHIRLEI. E nele, como nos velhos contos de fadas, todos os malditos viveriam felizes para sempre.

                        
                          No cartaz do curta Au Revoir Shirlei, 1991 


domingo, 9 de novembro de 2014

Me leva pro céu, Luni!

Depois de 12 anos, o grupo Luni fez show no sábado passado no Auditório Ibirapuera, em São Paulo. Aqui, de volta a 1987, quando a banda tinha um ano de carreira e Caio F. decreta, definitivo,é “a melhor banda da cidade".


                                         Oito pessoas lindas, com um
                                         som irresistível: é o Luni,
                                         a melhor banda da cidade

Assumi, definitivo. Venci minha monolítica timidez: sou tiete do grupo Luni. Aquele que está em todos os shows, na primeira fila, grita bis, grita bravô! (com acento francês, em homenagem aos dois saxofonistas), dança, sua, aplaude em pé, depois vai aos camarins dar beijinhos arfantes de prazer. Cada nova vez, confirmo: o Luni é o melhor grupo da cidade, do estado, do País. Calma, Caio F., vamos por partes.

No último sábado, a lua cheia, e naquele lugar cada vez melhor que é o Espaço Mambembe, o show do Luni deixou claro que todo este deslumbramento é mais que justificado. Por exemplo: o Luni, graças a Deus, não é (mais) um grupo de rock. A gatíssima expressão pós-tudo nunca se encaixou tão bem quanto aqui. O Luni incorpora blues, ritmos afros, caribenhos, new-age, samba e tudo mais que você lembrar, passa por dentro e por cima das influências para desembocar num trabalho que, por lembrar tudo, não lembra nada parecido. São originalíssimos e cheios de clichês sarcásticos, bem humorados.

Não, o Luni não gravou nem tem gravadora. Sem citar nomes, um dos integrantes contou que um famoso produtor disse que o som deles era “eclético demais”. Pode? Outro argumentou que tinha medo que o Luni virasse uma Cult-band. Sem sacar que o Luni já é uma Cult-band – ou seja, uma banda para os adoradores dispostos a perseguí-los pelo circuito alternativo da cidade (Off, Satã, Mambembe, o bem-vindo Bodega Bay). Eles não aparecem na Globo, não estão programados para Canecão nem à venda na Hi-Fi. Porque este país é burro, mas isso é outra história.

O Luni não tem estrelas, é uma banda comunitária, aquariana. Eles são oito: os franceses Giles Eduard e Lloyd Bonne Maison (que, acreditem, nasceu em Java, viveu na Etiópia e estudou em Berkeley, o artista plástico Theo Werneck (capaz de receber James Brown ou Louis Armstrong, em vocalizes arrepiantes de soul e negritude), a guitarrista Lelena, o trio-fundador Fernando, André e Natália, a bela (que faz parte do grupo de bonecos XPTO, também o melhor da cidade) -, mais uma special guest star, a mulher maravilha Marisa Orth (quem a viu atuando em Criança Enterrada, de Sam Shepard, ou Prepare Seus Pés Para o Verão, de Marta Góes, sabe do que ela é capaz. Se Marisona, a deusa, enlouquece a plateia cantando A Melhor (“eu sou a melhor/ eu sempre fui a melhor”) ou gemendo versos de Boris Vian na pele de uma francesa sadomasô (“me machuca, Johnny, me leva pro céu/ eu gosto de amor que dói”), de repente pode dividir um backing com Natália e tocar modestamente sua maracá, enquanto chega a voz de Fernando ou Theo ou qualquer outro brilhar. E como brilham!

O Luni é elegante sem ser afetado, culto sem ser pedante, engraçado sem ser bobo, bonito sem ser vaidoso, ensaiado à perfeição sem ser mecânico, chique sem ser esnobe, brega sem ser cafona. E principalmente música, naturalmente música. Porque é um som que você pode dançar, o ritmo é irresistível, cantar (seja em iorubá, espanhol, português, inglês, francês) (Pour Quoi, Monsieur? é uma miniobra prima) e também ver: eles são teatrais, performáticos. Marinheiros, prostitutas, mariachis, astronautas, brazilianistas, robôs, crianças: fazem número. Passam alegria (que raro), saúde (oba!), vontade de viver (wow!). Quer maior luxo?

Por tudo isso repito: o Luni é o melhor grupo da cidade, do estado, do País. Dou o toque às WEA, Polyrgrams, CBSs, RCAs da vida: ô, gravadoras, cêis tão de bobeira, gente! Por falar nisso, prestem atenção também em Os Mulheres Negras e no Nouvelle Cuisine: depois disso, quem disser que a música brasileira tá em crise, eu grito. Como vou gritar neste fim de semana, no Circo Voador, quando o Luni, as Harpias, Marcelo Mansfield, o Mazzipan, e outras gentes vão mostrar aos cariocas o que é que São Paulo tem. Muito além de Jânio ou Quércia, tenho dito.

                                             OESP, Caderno 2, 15 julho 1987

Aqui, Johnny, que Caio F. cita na crônica. Vídeo de Ruth Slinger, extraído de especial do Luni, realizado para tv manchete, no Rio de Janeiro


terça-feira, 14 de outubro de 2014

Oração à paranoia


                                                          Oração à paranoia

Glória a ti, Paranoia nossa de cada dia!

Teu nome é sonoro e poderoso como o de uma deusa. Deusa do medo irracional, persecutório, megalômano, incapaz de decifrar o limite entre a suspeita gelada e esse muro áspero que chamamos de “real”. Deusa paranóia, senhora dos esquizofrênicos, rainha soberana destes tempos de névoa e de nojo, destes tempos de trevas e de vírus, destes tempos de fuga e suicídios. Deusa necessária para localizar a lâmina do punhal escondido no bolso do que se diz amigo, só tu és capaz de desmascarar a dança assassina por trás de cada gesto de carinho falso. Deusa solitária acuada feito bicho no covil mais imundo do teu cérebro, deusa doentia, fugitiva da luz, temerosa do bem, deusa vampira de todos os terrores, geradora de enganos salvadores.

Oh rainha suprema!

Ama nossa solidão e nosso medo com dentes de metal para que possamos lutar sem esperança contra a matilha faminta de lobos que nos cercam ontem, hoje, amanhã e sempre.

Ave, Paranoia!

Nós, que ainda não morremos, te saudamos. E arrojados a teus pés, em coro uníssono suplicamos: Ave, Ave Paranoia nossa de cada dia! Não nos abandones, até que a morte nos destrua, amém.

                                                       Nicolau nº 27, 1989

 
Fragmento do filme Romance, de Sérgio Bianchi. Texto dito pelo personagem Antonio César, interpretado por Rodrigo Santiago (foto ao lado)  e não aproveitado na montagem final.

Caio F. foi um dos roteiristas de Romance, lançando nos cinemas em 1988 e disponível em DVD

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Abolerados blues ou Para Sempre Teu

A crônica abaixo veio do facebook da Paula Dip e foi publicada na revista Lira Paulistana. Eis o post da Paula: "Procurei muito, e encontrei ontem, perdido entre meus arquivos, esse texto de Caio, "Abolerados blues, ou Para sempre teu", publicado nos anos 80 na extinta revista Lira Paulistana. Esse texto me inspirou quando dei titulo ao meu livro, e nele Caio fala de uma de suas grandes paixões: a cidade de São Paulo, que ele amou e odiou com igual fervor". E Para Sempre Teu Caio F., o livro de Paula Dip, lançado em 2009, breve estará com uma nova edição (a quinta) nas livrarias. Abaixo, Abolerados Blues ou Para Sempre Teu:



Meu dia em Sampa começa sempre na Avenida Rebouças, saindo da vila escondida onde habito para batalhar ônibus ou táxi (quando há grana, claro). Não é muito agradável. Tem barulho demais, monóxido de carbono demais, tem um astral de tensão que me faz chegar no trabalho como se tivesse um mármore na nuca. Atrasado, correndo, pelas manhãs, maldigo muito a vida e a cidade, assobiando “deu pra ti, baixo-astral/ vou pra Porto Alegre, tchau/ quando ando assim meio down/ vou pra Porto e bah trilegal”. Mas não vou pra Porto, a não ser para pegar um colo rápido, vezenquandemente. É só um inofensivo consolo escapista. Nem deu pra Sampa, ainda. Vou ficando por aqui, que Oxalá e Tupã me alumiem.



A noite costuma aliviar, principalmente quando chove e tem aqueles luminosos todos refletidos nas poças d’água da Consolação. Ou uns crepúsculos, uns laranjas, uns vermelhos intensos pras bandas do Ibirapuera. Uma chuva fininha, daquelas que dá vontade de ficar o dia todo em casa tomando chás, ouvindo Erik Satie e lendo Proust, bem tia. Nessas horas, Sampa revela seus venenos escondidos, suas seduções tão secretas e tão sutis que você mal percebe até que ponto está envolvido. Aí você grita chega! e sai correndo pro Rio de Janeiro. Que nada. Um dia, dois, três no máximo, aquela exuberância toda começa a gastar e o de dentro da gente vai ficando meio sem paradeiro no meio da dispersão, dos baixos leblons a sóis ipanemas da vida. Haja Ponte Aérea.

Deve ser lugar-comum, mas Sampa é definitivamente um caso de amor mal resolvido, sabe como? Você já amaldiçoou mil vezes a vez em que a conheceu, você já deu na cara dela, ela já deu na tua cara (vezenquando ficam feias marcas, roxuras, inchaços, cicatrizes), você já bateu forte a porta de casa jurando vingança e nunca mais voltar. Perfídia, injúria: abolerados blues. Mas voltou sempre. E teve também aquelas noites com vinho branco, luz de velas, depois lençóis de cetim, suspiros, ah aquela tarde no Ibirapuera quando, olhando as carpas coloridas, de repente tudo ficou mágico! E os planos, tantos planos em comum, tantos encontros inesperados, tantas mãos se tocando mornas, fazendo tudo parecer um grande e único corpo, com um só coração batendo sístole-diástole, todo sangue e paixão. Como sobreviver à ausência disso?

Depois, tem pessoas. Só aqui existiria, por exemplo, Augusto de Campos. Ou Rita Lee. Ou Lygia Fagundes Telles. Ou Telmo Martino. Ou Cida Moreira. Ou J.C. Violla. Ou Bruna Lombardi. Ou José Márcio Penido. Ou se começo a enumerar, não paro. Então mesmo naqueles sábados à noite, quando a última possibilidade é discar 130 para ouvir uma voz humana, você sabe que em algum ponto da babylon city deve haver uma pessoa bonita, senão fazendo algo bonito pelo menos sendo, bonitamente, ela mesma. Ajuda? Pode ser. Ainda que ultimamente a cidade ande mais pro escândalo da Ro-Ro do que pra saúde de Lee Jones. Ou sou eu quem anda assim? Porque também não sei se sei mais separar o que é de dentro e o que é de fora de mim, o que me faz pensar – com ou sem zen-budismos, pouco importa – se a cidade não seria eu o tempo todo, ou vice e versa, tanto faz. Também tenho essas zonas lestes, esses jardins, moocas e morumbis esquizoidemente divididos sobre a pele asfaltada.

E é então que a paisagem vista através da janela se transforma subitamente num espelho. No primeiro olhar, você rejeita, vidro vagabundo, espelho deformante como aqueles de parque de diversões. Depois, aos pouquinhos, você começa a encarar e vai aceitando. Não é simpático esse arranha-céu de vidro ali no olho esquerdo? E o que me diz da praça larga sobre a boca? Da quaresmeira toda florida entre os cabelos? Aquele tietê na testa cheira um pouco mal, é verdade, e os shppingcenters no nariz incomodam bastante. Mas tanto gás neon cintila em tuas pupulas desbotadas, baby, que você de repente fica tonto e gira e gira todo vivo ao som de mil buzinas, sem saber nunca se de desespero ou de alegria.

Diz que até o ano 2000 abre uma fenda embaixo de Sampa e engole tudo. Deus, preciso dar um jeito de acabar com este caso! Devolva logo minhas cartas e minhas fotografias, diaba. Apesar de tudo, para sempre teu

                                                Caio Fernando de Abreu

                           Revista Lira Paulistana, começo dos anos 1980

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Prefácio à Esta Valsa é Minha

Está de volta às livrarias Esta Valsa é Minha, o romance autobiográfico de Zelda Fitzgerald. A caprichada edição da Companhia das Letras fez a fineza de incluir o prefácio que Caio F. escreveu em 1986, quando o livro saiu por aqui. Está na capa, bem destacado: “prefácio original de caio fernando abreu”. Ele iria adorar. A partir da próxima linha, tudo é do Caio. 


Sempre imagino assim: um dia, um daqueles dias longos, chapados e doloridos da clínica psiquiátrica, Zelda sentou e escreveu, como se fosse a voz de outra pessoa, uma frase assim: “Essas garotas pensam que podem fazer qualquer coisa e ficar impunes”. Porque provavelmente era isso que diziam todos em volta dela. Ou só pensavam, nem é preciso dizer. Estava escrito nos olhos e no comportamento dos médicos, das enfermeiras, dos poucos amigos que a visitavam, e quem sabe até no rosto do marido Francis Scott, obrigado agora a escrever e vender ficção como se fossem salsichas para poder sustentá-la na clínica. Linda, jovem, talentosa, com um marido e uma filha lindos – e louca. Pode?

Podia. Tanto que ela estava ali. Depois de escrita aquela frase – imagino sempre –, o resto veio naturalmente: em apenas seis semanas, ela terminou Esta Valsa é Minha. Escrito, como se pode perceber por seu volume e pelo pouquissimo tempo, de um jato só. Zelda escrevia para se justificar, para se compreender, para se salvar. Para orientar a si própria dentro daquele poço onde tinha caído e que, até hoje, por falta de outra palavra mais adequada, chamamos de “loucura”. Nesse sentido, conheço apenas um outro livro assimm autoterapêutico: The Bell Jar (A Redoma de Vidro), o único romance escrito pela poeta Sylvia Plath, pouco antes de suicidar-se, aos trinta e um anos. Ela não conseguiu salvar-se através da literatura. Zelda também não: a loucura voltaria em ondas, com pequenos intervalos, até o incêndio no hospital psiquiátrico que a matou acidentalmente, em 1947, sete anos depois da morte de Scott.

A autobiografia é nítida em Esta Valsa é Minha. De certa forma, parece a versão pessoal de Zelda a tudo que Scott contaria em Suave é a Noite, onde ela própria aparece com o nome de Nicole. Aqui, ela se chama Alabama, uma garota ousada do sul dos Estados Unidos que, em plenos anos 20, emerge de sua vida provinciana para casar-se com o artista David Knight: “David Knight e srta. Alabama Ninguém” – ele grava com a ponta de uma faca na madeira da porta, pouco depois de se conhecerem. E a vida, a seguir, por trás dos prazeres, viagens e bebedeiras monumentais, parece ter sido sempre a luta de Alabama para deixar de ser a “srta. Ninguém”. Ou a luta de Zelda para deixar de ser a sombra, embora fascinante, do escritor mais mimado e talentoso de seu tempo.

Capa da 1ª edição
Alabama/Zelda tem uma filha (Bonnie, no romance; Scottie, na vida real), um caso com um aviador francês (Jacques, no romance; Edouard Josanne, na vida real). À procura da própria face, apaixona-se pela dança: faz aulas alucinadamente, como se fosse possível tornar-se uma grande bailarina. Zelda desistiu: Alabama, não. Persegue seu sonho até a Itália, e é aqui que a loucura aparece sobre a forma de metáfora: Alabama quase precisa amputar um pé, de tanto dançar. O pé salva-se, mas ela nunca mais pode voltar a dançar. Para Alabama, a dança está perdida. Para Zelda, a sanidade mental. O único jeito de prosseguir, então, é tentar compreender o que se passou. Como diz Alabama, no final: “Junto tudo num grande monte que rotulo de “o passado” em depois de esvaziar dessa maneira esse profundo reservatório que foi um dia meu ser, estou pronta para continuar”.

Esta Valsa é Minha é principalmente isto: a tentativa, apesar das mutilações, de continuar a vida. Com seus cortes bruscos, seus diálogos derramados e técnica às vezes desconjuntada, mas encharcado de emoção e entrega, o livro flui – para usar a imagem da própria Zelda – “como a corrente clara e fria de um riacho de trutas”. Depois dele, é possível compreender melhor aquela velha história de Zelda chamando os bombeiros, trancada num quarto de hotel em Paris. Quando eles arrombaram a porta, perguntando onde era o fogo, ela bateu no próprio peito e disse: “Aqui”. E é então, também que se pode compreender aqueles versos de Ana Cristina Cesar: “Chamem os bombeiros, gritou Zelda./ Alegria! Algoz inesperado”. Não, essas garotas não podiam mesmo ficar impunes – dizem todos. E veja só: Sylvia Plath, Ana Cristina Cesar, Zelda Fitzgerald e Alabama Knight – para ficarmos so nessas quatro – não ficaram. Mas deixaram versos, histórias. E lendas. Que talvez não existissem, se elas – bravas garotas – não tivessem ousado ir muito além do mediocramente permitido.


Aqui, uma resenha de Pedaços do Paraíso, coletânea de contos do casal Zelda/ Scott http://caiofcaio.blogspot.com.br/2013/03/desesperados.html