terça-feira, 27 de maio de 2014

Lucidez poética

No começo dos anos 80, Caio Fernando Abreu assinava resenhas de livros na revista Veja. Aqui, já foram postadas várias, de escritores como Gabriel Garcia Marquez, Patricia Highsmith, Virginia Woolf, Julio Cortázar, Lya Luft, Adélia Prado. Abaixo, Caio resenha Sobre Loucos e Sãos, do britânico Ronald Laing (1927 - 1989), "o criador da antipsiquiatria, alçado à condição quase de guru durante os anos 70", como ele descreve. Boa leitura!

Sobre Loucos e Sãos
“Cada coisa é, na realidade, uma alucinação, cada coisa é pó, cada coisa é uma flor maravilhosa no céu” – diz Ronald D. Laing logo nas primeiras páginas deste livro (Sobre Loucos e Sãos), provando que seu pensamento, longe da rigidez teórica, cada vez mais se aproxima do discurso filosófico e literário. Apontando Albert Camus, Sartre e Kafka como fundamentais na sua formação, ele compara seus métodos de abordagem psiquiátrica aos de um romancista, quando assume “uma perspectiva sobre uma multiplicidade de perspectivas”. Talvez por isso estes textos possam ser lidos como se fossem uma obra poética.

Aos 53 anos, o criador da antipsiquiatria, alçado à condição quase de guru durante os anos 70, nessa série de entrevistas concedidas ao psicólogo italiano Vicenzo Caretti, discorre com o mesmo brilhantismo sobre temas como a filosofia zen, as viagens lisérgicas, os destinos da família, a condição da mulher, a esquizofrenia ou o amor. Seja qual for o assunto, sua preocupação básica é sempre com os seres humanos, pois o “essencial”, afirma, “é o que acontece entre as pessoas”.

Insurgindo-se contra a psiquiatria tradicional, punitiva e repressora, ele propõe novo caminho, onde exista uma emoção mais forte entre o analista e o analisado. Ao lado das mulheres, dos jovens, dos ecólogos, dos “loucos”, luta à sua maneira por uma revolução no interior dos indivíduos, “em direção a uma situação em que cada um se comporte melhor em relação aos outros”.


Culto, mas sem erudições inúteis, remete-se constantemente à filosofia oriental, à mitologia grega e à literatura contemporânea para ilustrar suas teorias. Lúcido sem ser pessimista, avisa aos que o consideram mais um profeta do apocalipse, cético e amargo: “Espero na segunda, na quinta e no domingo, e me desespero na terça e no sábado. Algumas vezes, tenho fé, outras não. Mas certamente não perdi nem a fé nem a esperança”. Como todos aqueles que, apesar das muitas provas em contrário, ainda acreditam na dignidade da condição humana”

                                                      Veja, 27 de maio, 1981




quarta-feira, 2 de abril de 2014

Sonhos: O Mundo Onde a Gente Vive Sem Censura



Outra matéria da POP, “a primeira revista para jovens do Brasil” que a editora Abril lançara em novembro de 1972. No fim dos anos 70, Caio Fernando Abreu era redator lá e é bem nessa época que começa Para Sempre Teu, Caio F., o livro que Paula Dip escreveu sobre ele. “Caio tinha muitos anos de estrada: integrou a primeira equipe de jornalistas da revista Veja, tinha vários livros publicados e premiados, havia morado na Europa. Ainda não assinava Caio F. e escrevia os contos de Morangos Mofados”, escreve Paula. “cabelos ralos, quase pretos, longos e escorridos, olhos indianos gigantescos, úmidos e de pupilas boiando e que olhavam com tristeza os telhados trágicos da rua do Curtume, na Lapa de baixo (nota: o endereço da redação)”, descreve no livro Carlos Alberto Fernandes, que era diretor da Pop. 

Sonhos

O mundo onde a gente vive sem censura

Uma velha lenda chinesa conta que, uma vez, um homem sonhou que era uma borboleta. O sonho foi tão completo e tão cheio de detalhes que, ao acordar, ele ficou numa dúvida terrível: não sabia mais se era um homem que tinha sonhado que era uma borboleta ou se era uma borboleta sonhando que era um homem.
Claro que isso é só uma lenda. Mas o que ela quer dizer é que a realidade de um sonho não é “menos real” do que aquilo que “acontece de verdade”. O sonho é a realidade do insconsciente, ou uma mensagem que o inconsciente, em forma de símbolo, envia para o consciente. Para Freud, o pai da psicanálise, o consciente está para o inconsciente assim como a superfície de um iceberg está para a sua parte submersa. Parece complicado, mas ficará mais fácil se você imaginar uma daquelas enormes montanhas de gelo flutuante. Pois aquele pedaço visível do iceberg é apenas um décimo do seu tamanho total: nove décimos ficam sob a água. Assim é o inconsciente, ou a parte desconhecida de nós mesmos; incrivelmente maior que a parte consciente.

O que acontece quando o inconsciente fica “dono da jogada

O inconsciente (ou id) não dorme nunca. Quando você está dormindo, o que adormece são a sua parte consciente (o ego) e o supergo (aquela parte “repressiva” da sua personalidade). Durante o sonho, então, o inconsciente é que fica “dono da jogada”, sem nenhuma barreira do ego ou superego. E os recados que ele envia, ou as historinhas que ele “inventa”, são a expressão daquilo que você realmente é, mas fica escondido quando você está acordado. Portanto, o sonho é como um retrato da parte oculta da própria pessoa que sonha. Reflete aquilo que você é realmente. Cada objeto ou personagem do sonho é uma criação do sonhador, e são bobagens muito grandes aquelas histórias de que, por exemplo, sonhar com “cobra, quer dizer traição”. Esses significados gerais não existem. O que é preciso saber é como você sonha com determinadas coisas, e o que elas significam dentro da sua vida. O que um sonho quer dizer é profundamente pessoal. Os artistas, principalmente os pintores, muitas vezes criam suas obras a partir de seus sonhos. Existem casos de cientistas que, depois de terem passado horas acordados, tentando resolver algum problema complicado, encontraram a solução num sonho. Os índios pigmeus costumam se reunir todas as manhãs, para que cada um conte o seu sonho. Depois, eles tiram uma interpretação que sirva para os sonhos de todos, e programam as atividades do dia de acordo com isso. Todas essas pessoas sabem da importância do inconsciente. O inconsciente “sabe” de tudo, guardou tudo – desde aquela lição da História que você aprendeu, no segundo ano primário até a mágoa de uma sacudidela mais forte que sua mãe lhe deu quando você ainda era um bebê. Isto é: o insconsciente é, em parte, um depósito de medos e frustrações. Mas é principalmente aquilo que você é.

O sonho: aquele momento escondido entre o fundo e a superfície


O sonho acontece num mundo momento especial do sono, que passa por três fases distintas. Na primeira, também chamada de pré-sono, o organismo ainda está ligado à realidade consciente. Aos poucos, a temparatura vai baixando, as batidas do coração diminuem, vem um relaxamento profundo, um repouso total: é o sono propriamente dito. Várias vezes, durante a noite, o corpo começa a “voltar”. Nos momentos entre os sonos superficial e profundo, os olhos, fechados, se movimentam rapidamente – é quando acontece o sonho. Os olhos acompanham as imagens, como se você estivesse acordado e vendo tudo. O sonho se dá, portanto, na passagem do sono superficial para o profundo, e vice-versa.
Muita gente diz que não sonha, mas está provado que todo mundo sonha, todas as noites. Algumas experiências feitas, acordando um homem sempre que seus olhos começavam a se mover durante o sono, provaram que, se ficar 48 horas sem sonhar, uma pessoa começa a ter alucinações durante seu estado de vigília, podendo até enlouquecer. Mas lembrar ou não do sonho depende de muitos fatores, inclusive da sua própria disposição para esquecer. Porque existem coisas que você sente e o seu consciente se recusa a aceitar.

Parece incrível: passamos dormindo quase um terço da nossa vida


Se você despertar no momento da passagem do sono superficial para o sono profundo, ou vice-versa, será mais fácil lembrar do sonho. Mas não é só isso. É claro que, se você se levantar imediatamente depois de acordar, tomar café e sair correndo, vai ser muito mais difícil lembrar do que se você ficar algum tempo ainda na cama, tentando “puxar” o sonho. Um bom método é ter sempre um caderno e uma caneta na cabeceira: mesmo que você anote alguma palavra ou faça um desenho qualquer, mais tarde isso poderá fazer você acordar e entender o sonho. Por que fazer isso? Ora, passamos quase um terço da nossa vida dormindo. Os sonhos, então, são nossa vida noturna, secreta e profunda. Quanto mais você lembrar seus sonhos, mais você estará conhecendo a si mesmo – e existe coisa melhor? Outra coisa que faz com que a gente tenha dificuldade de lembrar é a autocensura. Aí acontece um negócio estranho: quando você está sonhando, não há censura de espécie alguma, o inconsciente está completamente livre. Então você pode sonhar as coisas mais loucas: que está tendo relações sexuais com um desconhecido, por exemplo, ou que está matando seu melhor amigo. Ao acordar, a censura volta imediatamente a funcionar. E se o sonho foi muito “forte”, ela não vai permitir que você lembre. É justamente por isso que a grande maioria dos sonhos parece confusa ou absurda. Além da linguagem do inconsciente ser quase desconhecida para nós, as defesas do ego e superego fazem tudo para parecer ainda mais complicado. A educação que a gente recebeu, a moral da família, todas aquelas divisões que colocaram na nossa cabeça, do que é “bom” ou “mau”, de como se deve ou não agir – tudo isso atua sobre nosso comportamento. Na verdade, só somos completamente livres no inconsciente e, quanto mais ele for conhecido , mais completamente saberemos quem somos . Por isso a psicanálise dá tanta importância ao mundo dos sonhos.

A única possibilidade de conhecer a nossa face oculta


Para Sigmund Freud, o sonho revelava sempre desejos reprimidos, frustrações, culpas, medos ocultos. Mas para outros psicanalistas importantes, como Carl Gustav Jung, os sonhos têm também outros sentidos – podem até ser premonitórios, isto é, falar de alguma coisa que vai acontecer na realidade, antes que aconteça. Na linha da Gestalt-terapia, descoberta por Frederick Pearls, o sonho expressa principalmente situações de vida que não foram resolvidas. Sonhos que se repetem muito, especialmente pesadelos, seriam um problema à espera de solução. Todos os sonhos são pequenos fragmentos de nossa personalidade, e até mesmo sua expressão mais espontânea. Na Gestalt-terapia, existe um truquezinho para entender melhor os sonhos: o psiquiatra pede à pessoa que conte o sonho no presente, como se ele estivesse acontecendo. Então, ao invés de dizer, por exemplo:
“Eu sonhei que estava num barco”, você diz: “Estou num barco”. E é importante que você tente se sentir não apenas você mesmo, naquela situação, mas também o barco, a água e todos os detalhes do sonho, um por um. Cada elemento é um pedacinho de você. Pearls diz que o sonho jamais é confuso ou absurdo enquanto estamos dentro dele. Mesmo que você sonhe que está voando, isto vai parecer tão natural quanto caminhar. Na Gestalp-terapia, o teatro não está no sonho. Ele está aqui, na atividade diária, onde representamos um papel que, às vezes, não sabemos qual é. E podemos concluir, paradoxalmente, que é exatamente quando estamos acordados que nos encontramos “dormindo”. Frequentemente, você não entende porque começa a ter pesadelos num momento da sua vida em que parece tudo correr bem. O que acontece, então, é que durante o dia você “finge” perfeitamente que tudo está ótimo – e a verdade só vem à tona à noite, sob a forma de sonho. É a verdade mais profunda, que, embora você disfarce, encontra sempre uma maneira de aparecer. Pode parecer esquisito, mas aquela pessoa que diz que não dá a mínima para os sonhos, que prefere se preocupar com a realidade, na verdade sabem muito pouco de si mesma. Quanto mais você prestar atenção a esses recados que o inconsciente envia, mais ficará consciente de quem realmente você é. Isso é o mais fascinante do reino dos sonhos: a possibilidade de conhecer a nossa face oculta.

                                   Revista Pop, 1978

domingo, 16 de fevereiro de 2014

O Homem e o Futuro

No fim dos anos 70, Caio Fernando Abreu era redator da POP, “a primeira revista para jovens do Brasil” que a Abril lançara em novembro de 1972. É bem nessa época que começa Para Sempre Teu, Caio F., o livro que Paula Dip escreveu sobre ele. “Caio tinha muitos anos de estrada: integrou a primeira equipe de jornalistas da revista Veja, tinha vários livros publicados e premiados, havia morado na Europa. Ainda não assinava Caio F. e escrevia os contos de Morangos Mofados”, escreve Paula. “cabelos ralos, quase pretos, longos e escorridos, olhos indianos gigantescos, úmidos e de pupilas boiando e que olhavam com tristeza os telhados trágicos da rua do Curtume, na Lapa de baixo (nota: o endereço da redação)”, descreve no livro Carlos Alberto Fernandes, que era diretor da Pop.

Era a fase final da revista e Caio publicou ali algumas matérias com temas que o interessavam: ecologia, sonhos, previsões. Abaixo, Caio F. se lança ao mundo do futuro, em texto publicado há 35 anos, em setembro de 1978, o mês em que ele completou 30 anos.

                             
                           
                     As Fantásticas previsões estão se tornando realidade

                                Desde Flash Gordon até Guerra nas Estrelas, 
                                os autores de ficção científica tentam desvendar 
                                o futuro da humanidade. Você vai ver agora como 
                                alguns deles até já anteciparam a realidade.

Você certamente já ficou olhando para as estrelas, pensando na imensidão do céu e na insignificância do ser humano, perdido num planeta pequenino. Talvez tenham lhe ocorrido perguntas como “quem somos?”, “de onde viemos?”, “para onde vamos?” E é provável que tenha conseguido, pelo menos em parte, responder às duas primeiras. Neste “para onde vamos?” é que a ciência vacila e a imaginação se solta: para um homem das cavernas, não seria incompreensível um simples telefone, ou uma televisão? Será que dentro de um século os homens de 1978 não parecerão tão primitivos como nossos antepassados das cavernas? Em assunto como esse, a mente dos poetas parece ir mais longe que a dos cientistas: a razão pura mistura-se com fantasia. E cada vez mais a ficção científica antecipa a realidade do futuro.

Foi assim que o escritor Julio Verne em Da Terra à Lua, previu quase exatamente o voo da Apolo 8, em 1969, com coincidências espantosas. As primeiras edições do livro, de quase cem anos atrás, traziam como subtítulo “Trajeto Direto em 97 Horas”. Os astronautas americanos foram à Lua em 69 horas. Julio Verne fala também da necessidade de o foguete alcançar a velocidade de 11.000 metros por segundo: exatamente a velocidade da Apolo 8 para sair da órbita da Terra. Coincidências ou não, elas não param por aí. Verne imaginou também que três astronautas partiam de uma base em Tampa, na Flórida, a pouquíssima distância do verdadeiro Caba Canaveral de hoje. Havia algumas diferenças: no livro, o foguete era colocado em órbita por um gigantesco canhão, e os astronautas ficavam girando eternamente na órbita lunar. Os leitores ficaram furiosos com esse final, e Julio Verne teve que escrever uma continuação, Em Torno da Lua. E as coincidências prosseguem: a descrição das crateras é praticamente a mesma feita pelos astronautas reais, e o lugar que ele assinalou no oceano Pacífico para a descida da cápsula ficava a pouca distância do local onde os americanos realmente desceram.

Alex Raymond, o criador de Flash Gordon, foi outro grande profeta do futuro. Em 1934, suas histórias em quadrinhos já previam os cintos e sapatos antigravitacionais, os capacetes espaciais e – essa é incrível! – até a minissaia, que Mary Quant lançaria trinta anos depois. E além da moda, ele também desenhou com perfeição o trem-bala, que hoje faz o percurso Oska – Tóquio; os aparelhos de televisão; o lançamento vertical de foguetes (as torres que hoje existem na Rússia e nos Estados Unidos são idênticas aos seus desenhos). Até o raio laser, que ainda está sendo aperfeiçoado, já era arma comum nas aventuras de Flash Gordon. E tanta coisa mais que um dos boletins oficiais da NASA informou que a saída do astronauta da nave espacial foi solucionada porque os cientistas eram velhos leitores e colecionadores das histórias em quadrinhos de Flash Gordon.


Quando Alex Raymond morreu, em 1956, num acidente, talvez tenha carregado consigo a resposta a uma pergunta que poucas pessoas saberiam responder: como será o futuro da humanidade?


Hoje, é relativamente fácil para um cientista garantir que em 1980 o homem pisará em outros planetas; que em 1990 será possível a inteligência artificial, ou que em 2020 a meteorologia e a hereditariedade poderão ser controladas. A diferença entre essas previsões e as de Raymond é que, há mais de quarenta anos, não existia base científica para isso. A investigação sobre o futuro sempre foi um dos temas preferidos do cinema, desde que, em 1902, o francês Georges Méliès filmou um ingênuo e mudo Viagem à Lua, cheio de monstros. Os monstros dominaram os filmes de ficção científica até a explosão da bomba atômica em Hiroxima, em 1945. As aranhas gigantescas e os homenzinhos de mil braços deram lugar a outro tema: o perigo nuclear. Os filmes da época pareciam um trecho do Mundo Libertado, de H. G. Wells, onde aparece “uma Terra em que nada mais resta senão um luar escarlate e púrpúreo e um ruído contínuo, avassalador”. Depois de uma pausa, nos anos 60 (quando foram feitas duas obras-primas do gênero: Alphaville, de Godard, sobre uma cidade robotizada, e Farenheit 451, de Truffaut, sobre proibição e queima de livros), recentemente os filmes de FC voltaram a todo vapor. E o incrível sucesso de Contatos Imediatos prova que a imaginação das pessoas anda solta no cosmo. Mas as fantasias não são sempre otimistas. Para um divertido Guerra nas Estrelas ou um poético Contatos Imediatos, existem terríveis previsões – como as de Fuga no Século 23, Ano 2000: Corrida da Morte, Travessia Para o Futuro, Onde Ninguém Tem Alma, No Mundo de 2020, Rollerball ou O Planeta dos Macacos.

Segundo os críticos, há três características comuns nesse tipo de filme. Primeiro: o país do futuro é um país acabado – a guerra acabou, a poluição acabou, a poluição acabou, a luta social acabou. A sociedade atingiu o bem-estar absoluto, tudo é dividido igualmente entre todos. Segundo: a distância entre os homens e os centros de programação e controle é cada vez maior. O computador é o centro da sociedade, e em voltam dele pessoas especiais cuidam da fiscalização e segurança. Terceiro: as pessoas comuns são treinadas como máquinas, agem sob o controle de drogas de um cérebro eletrônico ou dos meios de comunicação. Todos esses filmes partiram do maior clássico do gênero: Metrópole, do alemão Fritz Lang, de 1927. A cidade futura imaginada por ele se divide em dois níveis. Na superfície há jardins, torres de aço e vidro, viadutos, carros e naves para uso exclusivo de “pessoas especiais”. No subterrâneo, em cavernas escuras e cheias de máquinas, vivem os operários: seres mecanizados, vigiados por máquinas, robôs e câmeras de TV.

Em muitos filmes, a natureza já não mais existe, o mundo está superlotado, as cidades protegidas por redomas e o ar insuportavelmente poluído. Em No Mundo de 2020, um dos mais assustadores, máquinas enormes apanham pessoas para triturá-las e transformá-las em tabletes verdes que alimentam o resto da população. E os rios, as flores, os animais, as árvores – tudo morreu. Imaginação? Nem tanto, se pensarmos nos problemas reais deste nosso planeta em pleno 1978.

Diz Steven Spielberg, diretor de Contatos Imediatos do Terceiro Grau: “O que vale agora é a impressão do que poderá ser, e não mais do que poderia”. Por isso, informações do filme basearam-se em documentos verdadeiros da NASA, sobre discos voadores. Não são “fantasias”, mas possibilidades bem próximas do real.

Quando se volta para o futuro, a literatura não é muito diferente do cinema. Pelo menos é o que se pode julgar a partir de dois grandes romances, clássicos do gênero: 1984, de George Orwell, e Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley (outro incrível profeta). No primeiro, um mundo onde todos são observados por enormes tele-telas e obrigados a trabalhar para “refazer o passado”, corrigindo e modificando sem parar notícias que possam abalar a impressão do povo de que está “tudo bem”. No Admirável Mundo Novo, Huxley previu um fato que agora começa a tornar-se possível: os bebês criados artificialmente  em laboratórios. Numa “sociedade perfeita”, as pessoas são fabricadas em categorias: desde o Alfa-Mais (a raça superior), até os Ipsilones, verdadeiros escravos sem nenhuma consciência. Mas todos são calmos e felizes: uma droga distribuída nos fins de semana – o soma – mantém o povo contente. Ou iludido.

Mas existem outros livros interessantes, divertidos ou assustadores. Desde Kurt Vonnegut Jr. – o autor preferido dos universitários norte-americanos -, até o poético Ray Bradbury, que já teve filmadas algumas de suas histórias (como Farenheit 451 e Uma Sombra Passou Por Aqui). E outros, como Isaac Asimov, Clifford Simack, Anthony Burgess (o autor de Laranja Mecânica) ou Walter M. Miller, do bonito Um Cântico Para Leibowitz. Em todos eles, a preocupação com aquela terceira pergunta: para onde vamos, afinal?

As respostas nem sempre são positivas: as centrais nucleares podem permitir até mesmo o controle do clima, mas também podem causar acidentes fatais a milhões de pessoas. As viagens espaciais trazem o problema do lixo cósmico. O desenvolvimento industrial provoca a poluição dos rios e do ar. O progresso parece ter duas faces opostas: uma cheia de promessas maravilhosas, como o conhecimento de outros planetas e o aperfeiçoamento da raça humana. Outra, terrível, que pode provocar a destruição de todo o planeta e de toda a humanidade.

Há mais de cem anos, Julio Verne parecia saber disso quando escreveu no seu primeiro romance: “De tanto inventar máquinas, os homens acabarão sendo devorados por elas! Sempre imaginei que o último dia seria aquele em que alguma imensa caldeira, aquecida a três bilhões de atmosferas, fará explodir o nosso pobre planeta”.

Seria bom que ele estivesse enganado desta vez. Como seria bom, também, que no ano 2000 pudessemos ainda repetir as mesmas palavras que Yuri Gagarin disse em 1961, ao ver nosso planeta do espaço: “A terra é azul”. Seria bem mais fácil manter vivo o azul se cada um tivesse consciência que o hoje começou a ser construído ontem. Assim como o amanhã já está sendo construído neste exato momento do dia de hoje.

                                               Revista Pop, setembro de 1978


terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Felizes para sempre


Uma mulher está à beira do inferno. A seu lado, um homem escreve uma carta de amor Andar sozinha, sem apoio transformou-se numa prova difícil demais. Há dois meses você anda cada vez com mais dificuldade, você se agarra aos móveis, a mim. Os efeitos do álcool se tornam visíveis, terríveis.

Essas frases acima – e as demais, em negrito, intercalando este texto – pertencem a M.D., livro de Yann Andréa que a editora Marco Zero acaba de publicar. Quem ou quê significa essa sigla, esse M, esse D? Quem é esse Yann Andréa? O livro não dá pistas. Uma capa inteiramente branca, com aquelas iniciais, discretas em azul-claro. Nenhuma foto, nenhuma informação na contracapa. Um pequeno mistério: M.D.

Nas lágrimas, Trouville, o verão, a primeira garrafa de vinho, comprada por sua ordem, a obediência a tudo, até as lágrimas também, e eu diante de você, olhos, fechados, suplico que você me ame.

M.D., a orelha ou um folhear rápido no livro revela, são as iniciais da escritora e cineasta francesa Marguerite Duras. Yann Andréa, o nome de seu companheiro, também cineasta, que de agosto a novembro de 1982 registrou num caderninho, em forma de diário, o processo de desintoxicação alcóolica de sua amiga? Amada? Cúmplice? Depois de ler o livro (curtinho, 105 páginas), fica difícil encontrar uma palavra para definir a relação de Yann com Marguerite. Enfermeiro? amante? biógrafo? Todas essas tentativas, e mais algumas. O que Yann sente por Marguerite é imenso. Respeito, fascinação, carinho (o carinho que se tem por algo que é frágil como nós, não por uma coisa boba), piedade (a piedade que se tem pelo que é humano e carente como nós, não por alguém incapaz) e, quem sabe?, Isso que chamam de amor? Nunca em minha vida li uma carta de amor tão linda quanto a que Yann Andréa escreveu para Marguerite Duras.

Ponho a colcha branca sobre seus joelhos, recubro as pernas, não deixo nenhum espaço exposto ao frescor do ar, abraço você, guardo você, você não sabe, você dorme.

Internada em Nevilly, Hospital Americano de Paris, por vontade própria, Marguerite Duras – aquela Duras, que inicia O Amante, um dos livros mais belos deste século, descrevendo a devastação do álcool e do tempo no próprio rosto – tenta emergir de um inferno de álcool e ansiolíticos. Dienpax, Mogadon, Valium, Aldactone. Ela quer terminar seu livro, A Dança da Morte. Deitada na cama do hospital, num raro momento de lucidez, entre visões e tremores, Marguerite diz: “A única coisa que importa é a loucura, não ter medo de se perder de si mesmo”. Mas ela mesma não quer se perder de si. E, todos os dias, Yann está a seu lado. Até a noite. Depois, ele volta para o apartamento onde ela não está mais.

O carro avança, as lágrimas vêm. Não quero chorar. O motorista se cala, põe um cassete: Billie Holiday canta My Man.

Ele esquece todo o resto. Ele está voltado apenas para ela, que, numa cama de hospital, luta contra si mesma. Ele não se importa de não ter mais uma vida, desde que possa ficar ao lado dela. Por algumas horas, todo dia. Ela o acusa de coisas que ele não fez, ela fala coisas duras, Ele faz que não ouve. Ele a ajuda a lavar-se, ele a tranquiliza, Ele observa cada movimento dela em direção à luz ou à treva. Então se alegra, ou se entristece. Porque ele também tem problemas.

Estou diante do telefone sem poder falar. E depois, finalmente, as lágrimas. Esta vontade de álcool não passa.

Mas ela acaba por vencer. Os escritores são mestres em criar seus próprios infernos, só para descobrir formas de se ver livres deles. Em todas as esquinas desse labiirinto infernal, Yann permanece ao lado de Marguerite, mão na mão. Continuam juntos? me pergunto na noite tardia de sábado, ouvindo Thelonious Monk. De alguma forma, certamente sim, me respondo. Porque aprendi que esses amores capazes de superar o primeiro impulso que determina o próprio amor – a atração física – ah, esses amores não terminam nunca. (E nós aqui, vivendo essa coisa tão assustada e média...)

Não ouço nada, você deve estar no seu quarto, à sua mesa, você deve estar não olhando, através da cortina branca, como de hábito.

Yann e Marguerite foram felizes para sempre, eu invento. Preciso.


                            OESP – Caderno 2, Quarta-feira, 30 de setembro de 1987

Nota: Marguerite apaixonou-se por Yann nos anos 80. Ele era 38 anos mais novos. Viveram juntos até a morte ela, em 1996.

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Duas ou três coisas sobre Fernandinha



Com Fim, Fernanda Torres estreou como escritora no finalzinho do ano passado. É bem interesasnte ler esse encontro com Caio F. em abril de 1986, quando Fernanda tinha 20 anos, estrelava a novela das oito (Selva de Pedra) e o filme Eu Sei Que Vou Te Amar chegava aos cinemas e ainda não havia passado em Cannes, onde ela ganhou o prêmio de melhor atriz. Abaixo, o perfil de Fernanda por Caio F., quando ele tinha 37 anos.

                                     
                                   Duas ou três coisas sobre Fernandinha

                                             No momento, Fernanda Torres
                                              tem um único projeto:
                                              terminar Selva de Pedra

Fernanda Torres é uma meninona tranquila nos seus 20 anos. Uma estrela? Nada disso, apesar de tantos trabalhos e prêmios. “É que juntou tudo, cara. Fico assustada, mas também fico fria”. Eu faço perguntas que ela responde com outras perguntas: “Você não acha que a gente tem que aprender a transformar as coisas? Claro que pintam trabalhos desagradáveis, mas sempre pode ter uma pérola no meio, que você não está vendo. Eu tenho me perguntado muito o que é bom? O que é careta? O que é vanguarda? É muito raro encontrar o belo e o bom em estado puro – eles vêm misturados com outras coisas. A gente vai aprendendo a separar. E às vezes mistura tudo”.

De tudo que fez ultimamente, ela está mais entusiasmada com Com Licença Eu Vou à Luta, em que faz o papel de uma garota bêbada e mãe solteira aos 15 anos.

Fernanda tirou o pé da adolescência faz pouco. E transa análise lacaniana. Acha difícil responder perguntas, ser questionada sobre os rumos do País, o pacote econômico, a libertação da mulher, o cometa Halley, e por aí vai. Mas adora quando acontecem coisas como, na semana retrasada, quando foi comprar uma cabra para seu sítio. O vendedor de cabras ficou maravilhado: “Dona Simone, tá vendo esta cabrinha? Ah, dona Simone, a senhora tem sofrido tanto com aquele marido... vou lhe fazer um precinho camarada nesta cabrinha”.

Com Tony Ramos em Selva de Pedra
Sobre projetos, o único que ela tem é terminar Selva de Pedra. Suspira. E faz uma fantasia rápida sobre a transformação de Simone em Rosana Reis: “Eu queria mesmo é que ela voltasse bem punkona mesmo. Ela tinha que barbarizar, porque a Simone é uma corna mansa... “. É ruim fazer telenovela? “Nada, menino. É libertador você descobrir que a telenovela não tem a menor lógica. Igualzinho a vida. Até ajuda a entender um pouco mais as coisas. Ou desentender. O que dá no mesmo, não é verdade.


             OESP, na capa do Caderno 2, quinta-feira, 17 de abril de 1986

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Nelson Rodrigues: O sol sobre o pântano

É bem curiosa essa "geral nos astros" que presidiram o nascimento de Nelson Rodrigues. O texto representa um lado nem tão conhecido de Caio F.: o astrólogo. E para quem quiser mais sobre Caio F. e os astros , Amanda Costa escreveu o livro 360 Graus - Inventário Astrológico Sobre Caio Fernando Abreu.


                 Tarado, devasso, cínico, pornográfico. E sobretudo, genial. Eterno como um                             clássico grego, Nelson Rodrigues e sua obra pairam como anjos malditos 
                     sobre o teatro brasileiro. Para o leitor de A-Z, CAIO FERNANDO ABREU 
              dá uma geral nos astros que presidiram o nascimento do nosso maior dramaturgo.

Ele dizia: “Meus dramas são como a luz cruel do sol caindo sobre um pântano”. E são. Imagine as sombras úmidas de um terreno sombrio, uma terra encharcada onde vermes se retorcem e répteis se enroscam nos troncos de raízes escuras, exposto feito nervos, feridas. Imagine o ar vicioso, espesso, desse terreno onde ninguém pisa. Sinta esse cheiro insuportável de matéria ainda viva, mas em constante processo de decomposição. Relegada para sempre às sombras, esta paisagem pode até ter certa beleza. A beleza maldita do lado oculto, do lado contaminado de todas as coisas – aquele, onde autores como Jean Genet ou Tennessee Williams foram buscar suas histórias. Mas iluminada pela luz do sol – a luz da saúde, da vitalidade – ela se revela em todo o seu horror. O pântano é a alma humana, seus desejos mais fundos. A luz do sol, a palavra de Nelson Rodrigues, que foi capaz de dar forma a essas sombras que, sem ele, permaneceriam para sempre no escuro.

Darlene Glória, a Geni de Toda Nudez Será Castigada
Os pântanos de Nelson já fascinaram muita gente, já passaram por muitas interpretações e visões. Das mais inspiradas, como as de Antunes Filho, principalmente em seu último espetáculo, Paraíso Zona Norte, com duas peças de Nelson (A Falecida e Os Sete Gatinhos), às mais grossas – Como a versão cinematográfica de Brás Chediak para Bonitinha, Mas Ordinária. Mas o cinema também soube acertar a mão com ele: foi de sua obra que Arnaldo Jabor retirou pelo menos duas obras-primas – O Casamento, de um de seus romances, e Toda Nudez Será Castigada, talvez sua peça teatral mais conhecida. Quem esquecerá a voz rouca de Darlene Glória como a prostituta Geni, ofegando numa fita cassete: “Herculano, aqui quem te fala é uma morta!”? O falecido Leon Hirschman realizou uma bela versão, no cinema, de A Falecida; Nelson Pereira dos Santos foi capaz de encarar O Boca de Ouro, lá pelo começo dos anos 60, e até Bruno Barreto, muito coerentemente seduzido pela “breguice” de Nelson (não esquecer que Bruno fez o rodrigueano Romance da Empregada). Sábato Magaldi dedicou-lhe um belo livro, e Luiz Arthur Nunes, prêmio Moliére de melhor autor em 1989, debruçou-se sobre Nelson para escrever sua tese de mestrado para a universidade de Nova York. E não é o Neville de Almeida que está refilmando O Boca de Ouro, depois de ter feito uma versão escandalosa – o preferido de Gramado retirou-se furioso do cinema durante a exibição no festival, há alguns anos – de Os Sete Gatinhos?

Como nas pixações dos muros sobre Elis Regina ou John Lennon, Nelson Rodrigues vive. Estranhamente. Porque, pela lógica, deveria estar superado um autor que teve seu primeiro momento em 28 de dezembro de 1943, com a estreia de Vestido de Noiva dirigida por Ziembinski, no Rio de Janeiro, e que escreveu a maior parte de sua obra durante os anos 50 e 60. Muita água rolou do Oiapoque ao Chuí: o Brasil se industrializou, veio 64, surgiram e sumiram os hippies; os punks chegaram, com os dentes arreganhados, a devastação ecológica e o vírus da Aids. O pântano da obra de Nelson Rodrigues sobreviveu a tudo. Talvez – ou certamente – porque nele estão concentradas as forças mais incontroláveis, e permanentes, do inconsciente humano. Atávicas, arquetípicas. Além de qualquer circunstância histórica.

Nesse sentido, Nelson Rodrigues deixou no teatro brasileiro aquele mesmo tipo de marca que Guimarães Rosa e Clarice Lispector deixaram na literatura. Pode-se falar em antes e depois deles. Pode-se, não: deve-se. E assim como é difícil lembrar o nome de um escritor contemporâneo do porte de Rosa ou Clarice, mais difícil é lembrar um dramaturgo como ele. Apesar da geração de 68, Antonio Bivar, Isabel Câmara, Zé Vicente, Leilah Assunção, ou dos mais recentes (e excelentíssimos) Naum Alves de Souza, Maria Adelaide Amaral, Mário Prata, Nelson paira. Eterno como um clássico grego.

MUITO VIRGEM
Como leitor apaixonado, principalmente por seus diálogos teatrais e sua pontuação psicológica, sincopada, sempre me perguntei porque essa força, essa magia. Sem instrumental teórico para analisá-lo, mas com uma boa dose de paixão, alguma intuição e – suponho – um bom conhecimento astrológico, me ocorreu esta ousadia: como seria o mapa astral de Nelson Rodrigues? Descobri algumas coisas bastante interessantes que, sem a pretensão de revelar algo de extraordinário, imagino que podem contribuir para alargar o conhecimento desse homem fascinante.

Nelson Rodrigues, filho do jornalista Mário Rodrigues, nasceu em Recife, Pernambuco, em 23 de agosto de 1912. Não se conhece, e dificilmente se conhecerá, sua hora de nascimento. O que torna impossível um cálculo exato do mapa e impede a localização do signo Ascendente. Pela paixão, e pela impiedade, seria Escorpião? Ou Aquário, pela carga de transgressão e originalidade que jogou em seu trabalho? Difícil saber. De qualquer forma, apenas com a data de nascimento foi possível descobrir algumas curiosidades.

Silene e as irmãs: Os Sete Gatinhos
Num primeiro momento, o que mais chama a atenção nesse esboço do mapa de Nelson é a concentração de planetas em Virgem – signo da literatura, do espírito crítico às vezes tão exagerado que pode passar por crueldade ou frieza. Em Virgem, no grau zero, Nelson tinha o Sol, a 12 graus Vênus e a 23, Marte. Sexto signo do zodíaco, Virgem forma um eixo carmático com Peixes, o décimo-segundo. Esse eixo Virgem-Peixes proporciona aos que o têm muito forte no mapa um talento especial para contemplar – e para compreender – os grandes sofrimentos de toda a humanidade. Crítico – como são os virginianos – e impiedosos, com três planetas ali. Nelson tinha também (e isso é bastante típico de Virgem) uma preocupação quase maníaca com a saúde (os virginianos são grandes hipocondríacos), a limpeza, a pura. Não o conheci pessoalmente, e é difícil dizer como isso aparecia em seu cotidiano. Mas essa preocupação é óbvia em sua obra. Por exemplo, em Os Sete Gatinhos, todas as irmãs se prostituem para assegurar a integridade e a pureza de Silene. Que acaba por revelar-se, também uma pecadora.

UM TRISTE
Fernanda Montenegro, a Zulmira de A Falecida
Vênus em Virgem, no mapa de Nelson, e na conjunção de Marte, permitia-lhe uma perfeita integração entre seus lados feminino e masculino, entre animas e animus. Mas toda a afetividade e capacidade para o prazer, representada por Vênus, e todo o impulso para a ação (inclusive o erótico), representado por Marte, estão em Virgem, signo frio, contido, obcecado pela castidade. Vênus em queda em Virgem, junto a Marte, assinalam os grandes moralistas e, paradoxalemnte, tambén os grandes sensuais. Ao mesmo tempo, Vênus forma uma quadratura – ângulo tenso de 90 graus – entre Vênus e Júpiter, que estava em Sagitário no dia do nascimento de Nelson, portanto dignificado, pois é o próprio regente de Sagitário. Júpiter em Sagitário dava-lhe uma fortíssima intuição do que era ou não justo, e também – outra vez – talento literário. Mas a quadratura com Vênus também o tornava um exagerado. Exagerado na crítica (Vênus em Virgem), exagerado na impiedade (Júpiter em Sagitário) – sem esquecer também que Sagitário é o signo do humor, e Júpiter nessa posição geralmente dá um requintadíssimos senso de humor. Nelson, sem dúvida, o possuia. Humor negro (a quadratura de Vênus), sarcástico (a quadratura com o ferino Virgem). Além disso, Júpiter em Sagitário formava uma oposição – ângulo tenso de cerca de 180 graus – entre Jùpiter, o expansivo, e Saturno (a 3 graus de Gêmeos), a consolidação, as raízes. Em suas peças, é muito claro o conflito entre o mundo reduzido, fechado, sufocado de (Saturno) e os grandes sonhos (Júpiter). A Zulmira de A Falecida, para redimir uma vida mesquinha (Saturno) trama um enterro glorioso, de matar de inveja os vizinhos (Júpiter).

“Eu sou um triste”, afirmava Nelson Rodrigues. E era verdade. Em seu mapa, o Saturno em Gêmeos forma uma quadratura muito próxima de seu sol em Virgem. Essa posição traz sempre uma sensação íntima de fracasso, inibição (Saturno) para expressar os sentimentos mais vitais (o Sol) e uma visão geralmente sombria da vida. Talvez nesse aspecto – que é também um aspecto literário: Saturno está em Gêmeos, o Sol em Virgem, ambos signos regidos por Mercúrio, planeta da palavra, da comunicação, do dom de expressão verbal – encontre-se, nitidamente, o conflito entre o Sol e o pântano a que o próprio Nelson se referia para definir a sua própria obra. Seu Sol em Virgem, criticamente, iluminava os pantanais de Saturno em Gêmeos.

Mas há também, além dos desafios e conflitos, aspectos fluentes e reveladores nesse mapa. Uma conjunção muito próxima entre o Sol e Mercúrio (a 28 graus de Leão) dava a Nelson uma extraordinária inteligência. Seu sol em Virgem, a capacidade crítica e analítica; seu Mercúrio em Leão, signo do Sol, a capacidade de iluminar com a palavra tudo aquilo sobre o que falava ou escrevia. E não foi outra coisa que ele fez em toda a sua obra, jogando luz sobre os porões. Não devemos esquecer também que Leão é o signo da realeza: com Mercúrio em Leão, a palavra de Nelson Rodrigues era soberana.

PERDÃO ENCABULADO
Há pelo menos mais três aspectos muito reveladores nesse mapa: dois sêxtis – ângulos fluentes de cerca de 60 graus – entre Plutão, o planeta das lamas profundas do inconsciente, do magma vulcânico da mente – e Mercúrio, e Plutão e Sol. Com a palavra de Mercúrio, e com a luz do Sol, Nelson era capaz de formular e iluminar todos os porões do inconsciente humano. Um outro aspecto no mínimo curioso é o sêxtil quase exato entre Netuno, planeta da iluminação, da inspiração e da espiritualidade, em Leão, com Marte em Virgem. A astróloga Isabel Hickey chamou os possuidores desse aspecto de “idealistas práticos”, e a Astrologia tradicionalmente reconhece nele os grandes imaginativos, capazes de filtrar toda a violência que sejam capazes de imaginar através da criação. Claro, não? Nelson nunca praticou todas as taras, incestos e loucuras que povoam sua obra: ele as escreveu.

Cleyde Yaconis em Toda Nudez: A primeira Geni
Finalizando: no momento em que nasceu Nelson Rodrigues, a Lua passava por Capricórnio. Isto é, a Lua, planeta (ou luminar) da emoção, regente de Câncer, estava em Capricórnio, seu signo oposto. Portanto, enfraquecida. O sentimentalismo não se mostrava em Nelson – ou em sua obra. Ao invés de doce e mansa, como seria em Câncer, sua Lua era dura e prudente, em Capricórnio. Mas o que poderia passar como frieza, na verdade era um profundo encabulamento de mostrar os próprios sentimentos. Ou alguém duvidaria que, mesmo com seus finais trágicos, Nelson no fundo ama e perdoa a Zulmira de A Falecida, a Silene anjo-caído de Os Sete Gatinhos ou a infeliz suicida Geni, em Toda Nudez?

Uma profunda piedade pelo ser humano. Nisso, quem sabe, pode ser resumida a obra de Nelson Rodrigues. Uma piedade crítica (tantos planetas em Virgem), que pune ao invés de acariciar (a Lua em Capricórnio), mas verdadeira. Cruel? Não. Ele dizia também: “Sou uma alma da belle époque. Não gosto da minha época, não tenho afinidade com ela. A meu ver, estamos assistindo ao fracasso do ser humano. Isso não quer dizer que mais adiante ele não se levante, mas no momento o ser humano está de quatro.”


Imaginem se, em 1989, ele ainda estivesse vivo... 

                                                   Revista A-Z, novembro de 1989

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Água limpa

Caio F. escrevendo sobre escritores que ele adorava. Agora é Adélia Prado.  Em posts anteriores, você vai encontrar resenhas dele sobre livros de Gabriel Garcia Marquez, Patricia Highsmith, Virginia Woolf, Julio Cortázar, Zelda e Scott Fitzgerald, Simone Beauvoir, Carlos Castaneda.e Lya Luft. Boa Leitura!



Quando lançou seu primeiro livro, Bagagem, em 1975 (para muitos ano-marco daquele misterioso e fugaz boom da literatura brasileira), a mineira Adélia Prado já avisava: “Não sou Cornélia, mãe dos Gracos: sou Adélia, mulher do povo”. No livro seguinte, O Coração Disparado (1977) – e neste também –, ela continuava inteiramente fiel à sua primeira imagem. Os louros depositados sobre seu trabalho, incensado pelas coberturas do sul-maravilhas, não modificaram sua visão de mundo, onde continua não havendo lugar para veludos nem brocados.

A linguagem de Adélia é feita de chitas, couro cru e barro – esse barro dos sertões mineiros, já manipulado literariamente por Guimarães Rosa (de quem toma uma citação para abrir seu livro) e Carlos Drummond de Andrade (a quem se refere na última frase). Mas que seja tosca ou vulgar, isso nunca. Adélia se explica assim: “Gosto de ir até no fundo da cisterna e revirar o lodo, tirar ele com a mão, me emporcalhar bastante, só pra depois ver a água minando clarinha de novo”. E é dessa água limpa que existe atrás do barro que são feitos os textos desse livro.

FLUIR POÉTICO – Ao contrário dos dois primeiros, em Solte os Cachorros ela organizou os textos em forma de prosa. Uma prosa ritmada que se às vezes é quase ficção – como na segunda parte, Sem Enfeite Nenhum –, mais frequentemente é puro fluir poético. Que pode lembrar o Mário Quintana do Caderno H ou certas anotações de Clarice Lispector, aquele Fundo de Gaveta, de A Legião Estrangeira. Não é à toa que Affonso Romano de Sant’Anna considera Adélia “a Clarice Lispector de nossa poesia”. Em ambas, com efeito, a linguagem já veio pronta, individual, inconfundível, comprometida muito mais com a veracidade do que está sendo do que está sendo dito do que com obscuras e vazias (ou vadias?) ordenações estéticas. O que pode parecer discutível para quem acha que poesia é coisa de sala de estar, e não de cozinha, tanque ou pátio.

A impressão que a gente tem é que, ao invés de instalar-se numa aristocrática escrivaninha para “caçar” a poesia (como ela diz), Adélia ronda pela casa de caderno em punho, observando “o ciscadinho do pardal em cima do muro”, “a horta de couve e outros pequenos luxos”, remexendo nos porquês de “cada cicatriz de minha alma circuncidada”, lembrando “a bela mancha horrorosa de quando eu tinha dez anos e saí apavorada: mãe, mãe, será o tomatinho azedo que eu comi demais?”

SUTIÃ GRENÁ – Invadem o livro as velhas obsessões de Adélia: os cachorros com fome no quintal, a paixão por Castro Alves (“Onde está Castro Alves que ia fundar comigo uma dinastia e morreu antes, de gula e pressa?”), as beatas de Divinópolis, cidade mineira onde ela vive, a presença (incômoda, para uns) constante de São Francisco de Assis e Deus. Mas de dona-de-casa católica Adélia se transforma, e é “de novo uma mulher com sutiã grená, polindo os dentes sem pressa e desenhando a boca em coração”. É então que o erotismo explode. Isso acontece na terceira parte do livro, Afresco. Vêm as declarações de amor para Américo (“...por você faço doce de leite, corto em pequenos losangos..”), Expedito, Antônio, Francisco ou José (“Teu paletó de veludo cobre teu braço peludo”).

Em todos os delírios, místicos ou carnais, sempre o mesmo gosto de feijão ou couve-flor. E vida crua, sem disfarces. Doce e violenta, sagrada e cotidiana, Adélia Prado vai construindo uma obra importante por si mesma e pela maneira como retrata um Brasil quase extinto. Se fala bobagens? Ela sabe: “A poesia existe ou é falácia, pruridos, psicologismos? Se assim for e eu descobrir, me epitafiem: desgraçada, fora da graça, bandida”. Lendo-a, a sensação é de que a poesia existe,

                                                   Veja, 23 de Maio de 1979