domingo, 29 de julho de 2018

Caio F. e a festa erótica de Hilda Hilst




Era o comecinho dos anos 90, Hilda Hilst tinha acabado de publicar O Caderno Rosa de Lori Lamby, a primeira de suas histórias "pornográficas". Ela vem passar uns dias em São Paulo para realizar exames no coração e dá essa entrevista para o amigo (e discípulo) Caio Fernando Abreu. Foi publicada na revista A-Z, onde Caio trabalhava, e as fotos são de Gal Oppido. É das melhores de Hilda e não está incluída em Fico Besta Quando Me Entendem, livro que reúne entrevistas com Hilda.

                              A Festa erótica de Hilda Hilst
                           Caio Fernando de Abreu


Aos 60 anos de idade, com mais de vinte livros publicados (o primeiro é de 1950) de poesia, ficção e teatro, formada em Direito sem nunca ter exercido a profissão, desde 1967 recolhida à Casa do Sol, um sítio próximo de Campinas, depois de 40 anos de literatura (e, segundo ela, silêncio sobre seu trabalho), há três meses Hilda Hilst caiu como uma bomba nos meios literários brasileiros.

Com a publicação de O Caderno Rosa de Lori Lamby, Hilda renunciou publicamente à literatura dita "séria" - que lhe conferira, por parte do crítico Leo Gilson Ribeiro, o epíteto de "o maior escritor vivo em língua portuguesa" - e decidiu publicar, daqui para a frente, apenas histórias pornográficas. Bem-sucedidas, essas histórias, já em segunda edição por Massao Ohno Editor, serão seguidas por Contos de Escárnio e Maldizer, a ser lançado em setembro, pela Siciliano, e pelo Diário de um Sedutor, a sair em 91.

Passando alguns dias em São Paulo para realizar alguns exames no coração - nada de grave, talvez o coração do poeta esteja apenas cansado -, Hilda Hilst falou com exclusividade para A-Z.

LUCIDEZ
"Quanto mais você fica lúcido, mais perigosa também fica a vida. Eu cheguei num determinado momento, depois de repensar, trabalhar e meditar sobre a finitude e o descontentamento do homem, em que tudo se tornou muito terrível, fatal, desesperado.
Depois de trabalhar muitos anos nesses temas, você chega num momento perigoso. Você pode enveredar por caminhos terríveis, e há momentos em que não há mais onde chegar, onde mexer, principalmente se existe uma busca muito avassaladora dentro de você. Depois de ter escrito tudo que eu escrevi, e eu sei que escrevi lindamente, que modifiquei a prosa narrativa, eu tenho plena consciência disso, não aconteceu nada. Fiz uma revolução na língua portuguesa, enfoquei os problemas mais importantes do homem, procurei fazer o possível para o outro se conhecer. Fiz um lindo trabalho. E não aconteceu absolutamente nada, não fui lida. Houve apenas dois homens que se detiveram em meu trabalho: Leo Gilson Ribeiro e Anatol Rosenfeld."

ENGODOS
"Não acho que eu tenha que sair pelas ruas falando sobre meu próprio trabalho. Um escritor não tem a obrigação de falar bem, e além disso eu teria que ser uma beleza, fisicamente, porque as pessoas dizem "ih, ela está velha, ih", você viu. Nunca deu certo uma mulher medonha falar, só a Rosa de Luxemburgo, que era medonha e fazia multidões ficarem vidradas diante dela. É um desgaste pessoal enorme: além do dom da palavra, você tem de ser agradável, charmosa, aparecer com uma boa roupa. Tudo isso custa dinheiro, esforço, energia; você tem de dispender essa energia escrevendo, e não se mostrando. Tenho certeza de que, se eu aparecesse, daria certo. Mas eu considero isso um engodo."


PORNOGRAFIA
"Não foi a pornografia que me atraiu: foi a leveza. Achei que, para o meu músculo mental continuar ativo, eu devia optar pela leveza. Fiquei mais feliz assim. Eu só me divirto, não sei dar nome a esse riso, não sei se é pornográfico. Escrever livros como O Caderno Rosa modificou basicamente a minha vida: está sendo uma festa para mim. Estou contente lá dentro, começo a escrever e rio muito. Claro que, se isso não me divertir mais, eu vou parar de fazer. Mas vou até onde o meu fôlego de humor permitir, porque tem sido delicioso, para mim, agora, escrever. Era uma grande dificuldade antes, eu tremia diante da página. Então, enquanto for uma coisa feliz, eu vou continuar fazendo esse tipo de literatura."

NUDEZ
"Toda essa discussão sobre nudez na tevê e coisas assim parecem coisa vitoriana. E completamente tolo. Penso sempre em Theodor Schroeder, que diz que não existe um quadro ou um livro pornográfico, existe é um olhar diante daquilo. Hoje você morre de rir com O Amante de Lady Chaterley, do Lawrence. Ninguém mais fala aquele tipo de coisa que equivaleria a dizer "deixa-me oscular tua rósea orquídea". Todo mundo tem medo de nomear o corpo humano da cintura para baixo, isso é absurdo."

DROGAS
"As únicas drogas que não são tão perigosas são o álcool e o cigarro, talvez a maconha. Tem coisas medonhas, a heroína, aquela coisa que se fuma, o crack. Deviam mostrar os drogados morrendo, como também deviam mostrar os aidéticos morrendo. Deviam mostrar o terror mesmo."

EDITORES
"Eles são uns canalhas, os editores, a verdade é essa. Mandei uma caixa deste tamanho ao Luiz Schwarcz, da Companhia das Letras, com tudo que eu tinha escrito. Quando telefonei, ele foi seco. Simpático, educado e tal, mas seco. Entendi logo que ele não estava interessado. Ele, aliás, faz um tipo de coisa que já vem pronta; ele entrega o que já fez sucesso lá fora. O Caio Graco, da Brasiliense, foi a primeira pessoa a quem mandei O Caderno Rosa. Ele me disse ao telefone: "Não posso publicar, é chocante e escabroso". É um absurdo o que o editor faz com o escritor brasileiro. É ridículo, depois de 40 anos de trabalho, você receber como eu recebi por Com Meus Olhos de Cão, 30 mil cruzados em quatro anos. Eles não têm nenhuma vontade real de que o escritor apareça. É uma máfia. Parece que você tem de chupar o pau do editor, ser amante do amigo, uma loucura."


IMPRENSA
"Aquela matéria na Folha de São Paulo foi desagradabilíssima. Nenhum verdadeiro escritor escreve por fama ou dinheiro. O Camarada escreve por compulsão interior; nós somos uns obsessivos. Mas, de repente, numa cólera enorme, você deve desejar fazer alguma coisa para chamar atenção - não para você, mas para seu trabalho. Por que as grandes revistas não dão nada sobre literatura brasileira? Você pode ficar pelada amanhã na Barão de Itapetininga, como um gorro vermelho, que, se for um escritor brasileiro, nem assim você sai na Veja. Outro dia saiu no Caderno 2 do estadão uma porção de críticos falando sobre os melhores livros do mundo. Eles citaram basicamente autores estrangeiros - Joyce, Dostoievski, Stendhal -, mas nenhum deles citou a Clarice Lispector. Eu liguei para o Luiz Carlos Lisboa, no Jornal da Tarde, e falei: "Por que o JT não deu nada sobre a Lori Lamby?" Ele disse: "Hilda, São Paulo é uma cidade pudica". Muito bem, mas quando saiu a antologia de poemas eróticos organizada pelo José Carlos Paes, o Luiz Carlos Lisboa fez um artigo deste tamanho contando a história do erotismo a partir de Brahma, na Índia, e tal. E a antologia do José Paulo, por favor... erotismo é outra coisa - aquilo é pura bandalheira. Bandalheira da grossa."

PACTO
"Parece que os críticos adoram escritor morto. Você tem de morrer para ser lembrado. Eu até propus à Lygia Fagundes Telles: "Você atira em mim e eu atiro em você". Pode ser que assim falem da gente.

ESCRITORA
"Existe um grande preconceito contra a mulher escritora. Você não pode ser boa demais, não pode ter uma excelência muito grande. Se você tem essa excelência e ainda por cima é mulher, eles detestam e te cortam. Você tem de ser mediano e, se for mulher, só faltam te cuspir na cara. Há anos a Heloneida Studardt me disse: "Hilda, se você fosse um homem, escrevendo a prosa que você escreve, você seria conhecida no país inteiro."

OBSCENIDADE
"Quando foi publicada a minha novela Kadós, o Massao Ohno, que era o editor, mandou para uma gráfica que se chamava Santa Maria não sei do quê. Quando vieram as provas, sempre que aparecia a palavra cu, eles não punham. Aparecia co, ou ca, ou ci. Cu mesmo, nunca. O que há de errado com o cu, eu me perguntava. Eles achavam absurdo, deviam ser freirinhas ou noviços que manipulavam a gráfica, não sei. Obsceno não é o cu, mas as bombas Napalm. As verdadeiras obscenidades, as políticas, ninguém toca nisso."

SIMPÓSIO
"Ano passado eu fui nuns debates, uma coisa para educadores, e uma senhora me perguntou por que eu escrevia assim, dessa forma tão angustiada. Eu respondi: "Minha senhora, nós temos basicamente sete orifícios. Se a senhora não os lava a cada dia, a senhora fede. Isso não a angustia? Criou-se um problema horrível. Sim, a mim angustia profundamente ter de fazer essas coisas todo dia. Vem a história da finitudem da degradação do corpo. A carne acaba, e depois disso - depois disso, nada."

UNICAMP
"Tenho sobrevivido nos últimos anos graças à Unicamp. A Unicamp tem sido minha mãe, com o projeto Escritor Residente. Não sei se é a única, mas sei que foi a primeira universidade brasileira que fez esse projeto. A universidade devia ajudar mais o escritor brasileiro."

INTELECTUAL DO ANO
"Essa história foi muito engraçada. Acho que os membros da UBE (União Brasileira de Escritores) me escolheram pensando que não ia dar certo, claro que eu ia ter uns dois votos contra uns 300 do bispo Dom Paulo. Mas eu fui dando certo, ninguém sabe por que, e eu achando um absurdo - meu Deus, eu e o clero. Daí parece que houve alguma coisa terrível, parece que, pela Cúria, o Dom Paulo tinha de ganhar de qualquer jeito. Quando eu vi que não saía mais nada na imprensa, eu pensei 'bom, acho que ganhei, porque comigo é sempre assim, um silêncio absoluto'. Mesmo tendo perdido, agradeço a homenagem e tal, mas dá um pouco a impressão que 'intelectual do ano', é porque você ficou intelectual naquele ano, foi alfabetizada e ficou cultíssima..."

ALEMÃES
"Não sei bem por que, mas eu vejo o humor imediatamente nos alemães. Numa das histórias que escrevi, uma das partes mais engraçadas é um diálogo entre uma mulher e um alemão chamado Otto. Ele diz assim: 'non gostarr, senhora Eulália, do jeito que senhora chuparr o meu pau'. E ela: 'mas por que, seu Otto?'. E ele: 'Porque a senhorra fazerr cara de nojo, no gostarr'. E a mulher: "Bom, seu Otto, eu vou tentar fazer melhor e tal'. O alemão tem alguma coisa de hilário. Veja só vagina, em alemão, não lembro agora, mas é uma palavra deste tamanho, uma coisa absurda."

ANTI-AIDS
"Eu acho que o livro pornográfico é uma coisa anti-Aids. Lendo literatura erótica, você pode voltar a esse hábito solitário que várias pessoas extraordinárias acharam extraordinário também. Porque tem essa coisa católica, desde criança você ouve a mãezinha falando para o filhinho 'não se masturbe, meu bem, você vai morrer'. É o contrário: acho formidável hoje você ler um livro pornô e se masturbar. Não é melhor do que pegar Aids e morrer?"

CAZUZA
"Acho terríveis essas declarações que o Cazuza fazia: 'A droga me abriu a cabeça', 'A Aids é contra a sacanagem', 'Não sou um aidético casto'. Se eu ficasse aidética, me poria de joelhos no deserto, tomando água e só. Eu tive contato pessoal com a Aids através do meu sobrinho, que morreu em feverereiro. É horrível a pessoa morrer de Aids; não pode ficar essa imagem engraçada, porque é uma coisa horrenda. Esses tipos de frases do Cazuza são um absurdo porque você não pode brincar com essa coisa. As pessoas não podem pensar que é brincadeira."

LITERATURA
"A literatura tem de refletir o cara que está escrevendo, como ele é diante do mundo. A única forma de você passar alguma coisa real para o outro é já ter vivenciado aquilo, realmente. Você não pode mentir, quando escreve. A única coisa que não é permitida na literatura é mentir."

OUTROS ESCRITORES
"Existem ótimos escritores por aí. Existe, por exemplo, o João Silvério Trevisan, que é de primeira linha.Vagas Notícias de Melinha Marchiotti é excelente. Esse ensaio dele, Devassos no Paraíso, é o melhor ensaio que já li sobre homossexualismo. Ele demorou oito anos trabalhando, e não aconteceu nada, ele é recusado pelas editoras. Por que essa moça, Ana Miranda, conseguiu ser editada? Todo mundo já falou lindamente sobre Gregório de Mattos... O que acontece é que escritor brasileiro é um coitado. Os editores não aceitam o autor pensando, o autor brasileiro não pode pensar. Aqui está cheio de escritores bons para os editores investirem."

JECA-PORNÔ
"Adoro essas histórias que ando escrevendo com personagens rurais, ou que não sabem falar direito o português. É o que eu chamo de jeca-pornô, como a história daquele moço chamado Edernir, que está na Lori Lamby. Eu tenho um dicionário ótimo de palavrões, que o meu médico dermatologista me deu, dum cara chamado não sei o quê Souto Maior. É lindo, você precisa ver tudo que tem lá. Todos os sinônimos fantásticos de crica, vagina..."

PORNOGRAFIA II
"Ninguém chegou a uma conclusão sobre o que é pornografia. Me pergunto se seria o ultraje ao espírito do homem, seria uma coisa assim? Talvez o obsceno profundo, que seria um enfoque completamente diferente, seja aquele em que a lucidez do personagem é tão grande que a coisa fica obscena. Mas essas brincadeiras que tenho escrito, você não pode dizer que sejam obscenas ou pornográficas. E não entendo por que muita gente ficou tão ofendida com a Lori Lamby. Eu dei para Wesley Duke Lee ler, que eu julgava um homem do mundo, aberto e tudo, e ele disse: 'É horrível, Hilda. Que coisa horrorosa, é um lixo o que você escreveu'. Tenho um amigo, articulista de um grande jornal, que leu os Contos de Escárnio e Maldizer e falou: 'Não publique isso, porque é perigoso'. Não entendo, Aqueles contos da Anais Nin, por exemplo, são finos demais, delicados. Não são para tempos de Aids, as coisas têm de ser mais pesadas, para você ter aquele prazer que, lendo Anais Nin, você não tem."

LINGUA PORTUGUESA
"Eu sei que escrevo muito melhor que muitas mulheres européias e americanas. Mas quem é que fala o português? Bem, milhões de pessoas falam, mas ninguém lê nessa língua. Lá em Goa, Guiné-Bissau, Moçambique, todo mundo deve falar na feira: quanto custa esse tomate? e essa alface? O abacate está bom? Não adianta milhões de pessoas falarem, se ninguém lê. E até no caso de você querer ler um livro erótico a dois para se masturbar com o seu parceiro, vai ser dificílimo. Naturalmente, você teria de ir para a Europa ou Estados Unidos, porque, com 70% de analfabetos por aqui, vai ser difícil encontrar não só um parceiro, mas ainda por cima que leia."


terça-feira, 12 de junho de 2018

Caio Fernando Abreu volta à Companhia das Letras


Os Dragões Não Conhecem o Paraíso, Onde Andará Dulce Veiga e o póstumo Estranhos Estrangeiros saíram pela Companhia das Letras, em 1988, 1990 e 1996, respectivamente. Depois, a obra de Caio Fernando Abreu passou por várias editoras. Agora, a cia das letras anuncia a publicação de sete livros do autor. Contos Completos (capa acima), o primeiro, sai no final de julho. Com mais de 700 páginas, reúne os seis livros de contos de Caio F. e mais dez textos avulsos. Deve ser edição caprichada e Caio F. ficaria feliz com seus contos todos reunidos, como aconteceu há pouco com os de Clarice Lispector.

Abaixo, o folheto onde a editora anuncia o lançamento dos livros de Caio F. E na frente, um trecho do conto Os Dragões Não Conhecem o Paraíso



sábado, 9 de junho de 2018

Oracão à Paranóia



                                Publicado no Nicolau, jornal cultural de Curitiba, em 1989

terça-feira, 3 de abril de 2018

"É um escritor que nasce adulto": resenha do primeiro romance de Caio F.

Limite Branco, o primeiro romance de Caio Fernando Abreu, foi lançado logo após o livro de contos Inventário do Irremediável. Esta resenha foi publicada no Diário do Paraná, em 31 de janeiro de 1971. É interessante lê-la após tantos anos. Abaixo dois trechos:

"Com 22 anos de idade, Caio Fernando Abreu é alguma coisa mais que um escritor jovem, algo mais do que uma simples promessa: é um escritor que nasce adulto."

"Não se enganem: a sinceridade, a verdade pessoal e o dom de escritor destas páginas fazem delas não um simples romance de estréia, mas um romance talentoso e maduro."



domingo, 25 de fevereiro de 2018

A hora da estrela de cinema de Caio F.

22 anos da morte de Caio F. hoje. Aqui, a hora da estrela de cinema do belo: uma participação especial em Perfume de Gardênia, de Guilherme de Almeida Prado.



quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Viver é expor-se ao perigo. Escrever também



A capa

Era 1976 e Caio Fernando de Abreu foi um dos sete novos escritores brasileiros reunidos pelo jornal alternativo Opinião para falar sobre a literatura brasileira.  "Eles não são best-sellers, nem costumam dar entrevistas sobre o boom literário que, acreditam alguns, assola o país. São apenas escritores, cientes de que existem polêmicas mais urgentes do que, por exemplo, a divisão entre populistas e vanguardistas".  Sete autores contra o beletrismo e as panelinhas literárias era o título da matéria de capa da edição de abril, quatro páginas. Caio tinha  já havia lançado três livros: Inventário do Irremediável, Limite Branco e O Ovo Apunhalado. Abaixo o que ele falou na entrevista - segue a pergunta e sem o que os demais entrevistados falaram



A abertura da matéria

Opinião: Qual é o papel social do escritor no Brasil e na América Latina hoje em dia?

Caio F.: O papel social do escritor no Brasil, na América Latina e no mundo inteiro será sempre, e sob quaisquer condições, lutar pela liberdade de expressão.O intelectual será sempre um contestador. Denunciar, sempre, é a sua função. Denunciar a violência, a corrupção, a repressão, a intolerância. Ajudar na recuperação da dignidade humana.

Opinião: Mas existem fatores imediatos que agravam esta crise, que condicional hoje, de forma diferente, a expressão literária?

Caio F: Impossível separar, hierarquizar: é um todo. As barreiras do escritor brasileiro em relação à literatura são as mesmas do homem brasileiro em relação à vida. Ao outro. A si mesmo.

Opinião: Mas então não existem vínculos?

Caio F: O presente é sempre resultante do passado, uma consequência. Ninguém se desvencilha, facilmente, de suas origens, de suas raízes. Mas creio que um escritor deva ser fundalmente um homem de seu tempo. Seria ridículo, irreal e anacrônico escrever, em 1976, como Machado de Assis, por exemplo. Mas para compreender o presente, devemos conhecer o passado, a História. Para nos libertarmos do passado é necessário assumir o presente. E encarar o futuro, se é que ele existe.

Opinião: Parece que predomina, nesses termos, a personalização da obra, não há propriamente um movimento literário, em termos organizados, certo?

Caio F: Eu não sei, não... Dizem que escrever um romance hoje em dia  é procurar a melhor maneira de assassinar o romance. Não acredito nisso. O romance já foi assassinado por Joyce, faz muito tempo. E entre nós, por Oswald e Mario de Andrade. Não gosto dessa diferenciação conto-novela-romance. Existem textos de ficção. A rigidez só pode limitar. A liberdade total de criação é o caminho. Não só em literatura, mas em qualquer forma de arte, e também na vida.

Opinião: E que lugar ocupa o Realismo Mágico na literatura brasileira?

Caio F: O Realismo Mágico tem na literatura brasileira o mesmo lugar que em outros sistemas sociais semelhantes. Na medida em que não se permite ao artista ser claro, ele recorre à metáfora do presente. Mas também existe o pseudo-Realismo Mágico sem vínculo algum com a realidade. Não é nada disso. Trata-se, repito, de assumir o nosso tempo. Aqui e agora.

Opinião: E o autor jovem deve lutar, então, para ser editado?

Caio F: Lutar não só para ser editado, mas também para ser distribuído - o maior problema - divulgado e lido. Lutar sempre. Impor a nossa presença. Não permitir que nos vaporizem ou invisibilizem. Existimos e temos muito para contar, e acreditamos em nossas histórias, em nossas vivências. Se achamos que podemos dar ao outro algo de bom, então vamos lá. Fé cega e faca muito bem amolado. 1976 é o ano de São Jorge. Afiar a lança para matar novamente o dragão
.
Opinião: Mas nós já discutimos os condicionantes, e já falamos a respeito do consumismo que grassa por aí. Lutar, certo, de peito aberto, sim, mas e os riscos que se corre?

Caio F: O risco a que eu me exponho, publicando, é o mesmo que corro estando vivo. Mas, realmente vivo, consciente e participante. Viver é expor-se ao perigo. Escrever também. Sempre tem um Hélio Pólvora nos acusando de plagiar um conto que nunca lemos. Medo? Porquê? Se não somos editados, não somos distribuídos, não somos divulgados, não somos lidos e nem sequer respeitados em nossa integridade, o que temos a perder?

Opinião: E não é nesse contexto que se formam as panelinhas?

Caio F: Existe uma lealdade básica que não deveria ser atraiçoada. As coisas só são fortes se forem grupais. Divisões internas, competiçoezinhas provincianas, panelinhas? Ridículo e inútil. Como diz Nei Duclós, poeta gaúcho, em Outubro: "Confio na solidão que nos une / e na vontade de quebrar tudo / que cresce aos poucos como um fruto".



segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Adivinhe quem vem para roubar



Em 1993, Caio F. escreve sobre a volta dele. De quem? "não digo nem escrevo o nome dele", ele escreve. "E não digo que volte direto por cima (embora seja essa a meta), mas passo a passo. Deputado, senador." Pois, quase 25 anos depois dessa coluna de Caio, o tal anuncia que está na disputa à presidência. Abaixo a coluna

                                         Adivinhe quem vem para roubar

Fiquem atentos, ele quer voltar. Nas últimas semanas, aqui e ali pelos jornais, encontro notas sobre a mudança para São Paulo, sobre o livro que está escrevendo e até mesmo algum artigo estofado de palavras gordas tipo justiça, pátria, dignidade. Em fotos recentes, continua com aquele ar entre o pinguim de geladeira e ator canastrão de melodrama chicano, agora acrescido de certa aura estudadamente humilde. Como se quissesse deixar bem claro que sofreu-e-aprendeu-com-o-sofrimento. Atenção, a cilada está se armando. Como antes, tão lenta que mal se percebe.

Porque ele é espertíssimo. E não digo que volte direto por cima (embora seja essa a meta), mas passo a passo. Deputado, senador. No começo, não recusará os mais insignificantes espaços da mídia - e esta, o que é horrível, lhe dará espaços cada vez maiores, mais nobres. (Se é que se pode usar a palavra "nobre" em situação desse tipo.) Também porque virá o livro, e haverá o pretexto de divulgá-lo e naturalmente vendê-lo. Aos quilos, lógico. Tudo é business, aqui e no Haiti.

Até que, num final de semana, você vai tropeçar na cara dele na capa das principais revistas do país. Humílimo, sofridérrimo, luzes acentuando certas rugas amargas, certas sombras, quase santo. E enquanto rolarem inimagináveis conchavos políticos por trás, a imagem começará a nos bombardear de novo. Já imagino os sentimentos coletivos a serem utilizados em slogans autopunitivos e maquiavélicos: erramos, fomos injustos, nunca é tarde para corrigir um erro. Ele vai declarar que tinha certeza de que não o deixariam só, como pedira, que o povo brasileiro, minha gente, não o trairia, que agora sim vamos retomar o crescimento e a arrancada em direção ao século XXI e patati-patatá, lembram?

Quando chegar o momento, virão votos em penca das regiões mais medonhas do país. Como da outra vez. Haverá fraudes, acidentes providenciais em caminhões que conduziriam eleitores do outro candidato - e isso y otras cositas, jamais será esclarecido. Em seguida, estonteantes viagens internacionais, superjatos, transatlânticos, jet skis, talvez um novo casamento (o anterior, convenhamos, é difícil reabilitar). Sugiro: Lady Di após o divórcio, ou Madonna (já que ela vem aí, não custa tentar. No caso de elas não toparem, quem sabe Sula Miranda (aquela porção sertaneja)? E por que não Xuxa, tão solitária e combalida sob o peso daquela estressante montanha de dólares?

Calma, também não precisa delirar... mas ele quer voltar, do fundo mais lodoso de minha paranóia congênita - acho claríssimo. Ele sabe que, das muitas doenças graves que afligem o país, a mais grave é talvez não suportar a própria cara. Como da outra vez, quando em vez da rude cara operária do outro preferiram a empoada dele, simulacro estúpido dos galãs de TV. Como se votando nele se tornassem ele.

E os caras-pintadas, meu Deus, vão ficar com as caras no chão! Aprenderão na carne aquilo que sempre ouviram dizer: o Brasil, meus filhos, é um país sem memória. Tanto que, até hoje, ainda não percebeu que este horror onde estamos atolados não passa do saldo legado por ele. A impunidade para ele e seus capangas nos deixou uma inversão moral nojenta: se você é honesto, você é trouxa. Não viram ele? Se ainda não, arregalem bem os fatigados olhos: exatamente um ano depois de ter sido corrido, armando todas para voltar.

Não digo nem escrevo o nome dele. Como aquela palavra, o contrário de sorte, cuja carga negativa desaba sobre quem a pronuncia. Pois isso é o que vai acontecer a quem se deixar enganar outra vez. Não digam que não avisei. Só vai ser difícil me achar para dizer qualquer coisa. Porque se isso acontecer mesmo - além da imaginação - peço aos amigos que me joguem num hospício e me deixem lá. Incomunicável.

                     O Estado de S. Paulo, Caderno 2, 3 de outubro de 1993