terça-feira, 20 de dezembro de 2011

À beira do mar aberto



Estou muito feliz com À Beira do Mar Aberto. Por várias razões. Uma delas: a direção de Gilberto Gawvronski. Vítima durante anos de leituras, interpretações e versões equivocadas de meus textos para teatro, só fui me reconciliar com esse processo depois do trabalho de Gilberto (e o magnífico Ricardo Blat) sobre a minha Uma História de Borboletas. Desde então, sinto nele uma espécie de alter-ego teatral: o que ele faz no palco com meus textos – de – livros é exatamente o mesmo que, se fosse diretor, eu faria. Não se trata nem de gostar, é mais fundo ainda. Identidade, cumplicidade, empatia, irmandade. Outra razão é Natália Lage, cujo trabalho aprendi a admirar através da TV, e que vai pintando como uma das grandes atrizes de sua geração. Mas o que mais me encanta nisso tudo é a visão sobre meu texto. Não teens modernos, arrogantes, padronizados e mimados pela mídia burra, mas pessoas – Natália e toda a sua turma atentas ao tempo, esse orixá que os muito moços, por sua própria condição de moços, ainda não conhece. Sinto lisongeado pelo carinho que eles dedicaram às minhas histórias, pela luz que jogaram sobre elas, frequentemente tão sombrias.


 Por isso mesmo – pelo amor, fé e luz – tenho absoluta certeza que tudo vai dar certo. Por “dar certo” compreendo passar coisas boas, úteis ou belas, ou que alguma forma ajudem outras pessoas. Jovens ou não, que todos temos sempre entre zero e cem anos, isso depende da circunstância, não da cronologia, você sabe.

E há esse sopro de novo, única coisa capaz de revigorar o planeta cansado, o tempo cansado, os homens cansados. Que sopre forte como aquele vento inglês que chega do norte no começo da primavera, para afugentar os maus espíritos e as trevas do inferno. Lá, as pessoas escancaram todas as janelas. Deixam soprar sem medo. Foi pensando nisso que eu disse “sim” a Gilberto, a Natália e a todos os outros parados, atentos à beira deste mar aberto aos nossos pés.

          Programa da peça À Beira do Mar Aberto - Dezembro de 1994



                                          Frases incluídas no programa da peça:

Havia uma outra coisa atrás e além de nossas mãos dadas, dos nossos corpos nus, eu dentro de você, e mesmo atrás dos silêncios, aqueles silêncios saciados quando a gente descobre alguma coisa para observar.

...sempre se precisa ir além de qualquer palavra ou de qualquer gesto.

Tremi quando cheguei a perceber o equívoco, pois era como uma declaração de amor velada e, de certa forma, criava entre nós um compromisso extremamente sério.
O que nunca pensei é que pudesse ser assim tão vazia uma casa sem um anjo.

O aplauso seria insustentável para eles: a confirmação de sua inadequação é compreendida e aceita e admirada, e portanto pelo avesso, igual ao direito incompreendido, rejeitado, desprezado. Os Dragões não querem ser aceitos.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Feliz em conhecê-la, Natália Lage



Chama-se Natália, essa garota. Como heroína de romance russo ou uma tia-avó que nem conheci, famosa pela solidão (morreu solteirona), independência (vivia num hotel), aristocracia (odiava gentalha) e bom-gosto (costureira requintadíssima) e, curiosa, como a própria filha que não tive e sempre pensei chamar de Clara, Luz ou, justamente, Natália.

Tem 16 anos. Feitas as contas poderia ser minha neta, posto que sou 30 anos mais velho. Supondo que eu tivesse tido um filho aos 15, e esse filho tivesse tido um filho também aos 15 – esse último filho ou filha, neto ou neta, poderia ser Natália. Por escolha, não tive nenhum. Os dois possíveis, em comum acordo com as mães, foram abortados. Coisa de que me arrependo até hoje, ainda que não soubesse o que fazer a esta altura do safári com um rapaz ou moça de 19 anos e outro ou outra de 13.

Penso muito nesses filhos que não deixamos que vivessem. Rezo por eles, peço-lhes sempre um perdão, desesperançado, amargo, desconfiado de que o crime cometido será para sempre imperdoável. Mas como Deus, embora aja, arranja jeitos tortuosos de compensar, volta e meia cruzo com alguém que poderia ser um daqueles filhos.

Natália é desses. Pele branca de porcelana, cabelos lisos quase louros, silhueta barroca, parece uma inglesinha do século passado. Não é difícil imaginá-la envolta em rendas, com chapéu e luvas, um livro ou bordado nas mãos. Fala pouco, quase nada. Mas olha muito, o fundo. Séria, não fica jogando carinho fora (é de Escorpião), mas de vez em quando pega na sua mão ou te dá um abraço apertado sem avisar. Súbito e verdadeiro, o gesto de Natália nunca é social, estudado ou sedutor: toca em você respirando suave, sem nada pedir, sem carências. Como quem diz qualquer coisa tipo “que bom navegamos juntos”.

Até dez dias atrás eu só conhecia Natália da TV: ela foi a filha ao mesmo tempo de Vera Fischer e de Silvia Pfeiffer (e de Mário Gomes) numa telenovela cujo nome não lembro, depois a hiponga Adrenalina de Tropicaliente. Por amigos, certo dia soube que Natália gostava dos meus livros. Mas ela é tão jovem, pensei, e esses teens (argh!) não lêem nada, pensei assim com preconceito burro.



Fim do ano passado me procurou Marta Lage, mãe de Natália, queria produzir um espetáculo teatral com meus contos. Natália, imaginem, não tinha coragem de falar comigo. Pura intuuição do bem, autorizei na hora.

Programa da peça
Juntaram-se ao elenco Candé Horácio (19), Suzana Pires (18), Henrique Farias (20) e Maurício Branco (25), todos eles filhos-não-tidos. Gilberto Gawronski começou a dirigí-los. Surgiu o título de um dos contos – À Beira do Mar Aberto, a idéia justa desse mar imenso da vida aos pés dos muito jovens, tão jovens que mal começaram a navegar. Terá sereia nesse mar?  E ilha e tubarão, terá? Piratas, tesouros, naufrágios, calmarias, tempestades, recifes, corais, escorbutos, banzo e nácar? Oh, Deus, tende piedade dos moços: só navegando em tuas águas pra descobrir tanto horror e maravilha.


Então vim ao Rio, e com uma equipe de 17 lindas pessoas fomos a Fortaleza estrear. Conheci Natália. Durante a viagem, enquanto os outros se agitavam excitados, ela leu todo O Marinheiro, de Fernando Pessoa num bar, a vi sair discretamente para caminhar de mãos dadas com um menino mendigo. De vez em quando, numa mesa cheia, baixa a cabeça e escreve, escreve, escreve. É uma atriz. Tão menina, e de vez em quando umas entonações sabidas de balzaquiana, ironias de diva, charme de gatinha. Estranha densidade. Aura, magnetismo: talento.
Voltei, eles ficaram. Vão a Natal, João Pessoa, Salvador, Ilhéus, depois o Sul. Eu trouxe Natália no meu coração assustado, feito flor rara. Desde que a conheci, aqueles filhos que não tive me doem bem menos. Que é da natureza da dor parar de doer, tenho aprendido.

                         OESP - Caderno 2 - Domingo, 5 de fevereiro de 1995

*P.S: O nome da novela que Caio F. não lembra o nome é Perigosas Peruas
                 Em breve aqui, o texto de Caio F. no programa de Á Beira do Mar Aberto


domingo, 13 de novembro de 2011

Uma sutil transgressão no horário nobre

Silvio de Abreu soube incorporar minorias à trama, sem folclore ou estardalhaço



O mais interessante em A Próxima Vítima é inaparente – uma suave transgressão. Sem a abertura de Pantanal ou Renascer nem as antigas ousadias de Gilberto Braga (oh, um casal de lésbicas! Oh, dona Chica Newman e o chofer!), A Próxima Vítima foi sutil desde a primeira cena, o sensacional plano sequência no atropelamento de Reginaldo Farias. Aparentemente por trás do verniz policial, continuava o esquemão: núcleo dos ricos, núcleo dos pobres. Ricos do mal, pobres do bem. Planos de sofá, casais desencontrados etc.

André Gonçalves e Lui Mendes
Só aos poucos o miniuniverso foi revelando o inesperado. Uma dupla de rapazes gays que não “dão pinta”, normalíssimos. A família de negros chiques, na qual branca é a empregada. Uma perua maravilhosa (Mila Moreira) namorando um negro (Norton Nascimento). O detetive fascinado pela possibilidade da mulher que ama ser assassina. A prostituta sem culpas da ótima Vera Holtz. A coroa bundona (Yoná Magalhães) é amada por um garotão, enquanto a irmã esperta (Rosamaria Murtinho) transa na boa um michê.

Pela primeira vez na velha e longa história da soap opera made in Brazil, várias minorias foram incorporadas à trama naturalmente, sem folclore nem estardalhaço muitas vezes preconceituosos. Os marginais aqui fazem parte do todo. De alguma forma, todos são marginais. Sexuais, raciais, econômicos ou afetivos. Marginais são também o normal Juca, em sua atividade de feirante. A fria e solitária Filomena ou o chofer de caminhão chegado às musas.

Suzana Vieira e Tony Ramos
A competência vai do texto dinâmico do trio Silvio de Abreu, Maria Adelaide Amaral e Alcides Nogueira a todos os atores. Sem abdicar dos clichês e “barrigas” de uma história que deve render pelo menos seis meses, continuam os ricos do mal, os pobres do bem etc. Só que por trás do banal, há também outra coisa – ousada, mas doce – que reflete a profunda (e positiva) mudança na moral do País nos últimos anos. Um Brasil e seu espelho – a novela das oito – que já não vê homossexuais como criaturas (bye, bye tempos de Clodovil), já não se espanta com o amor de uma branca e um negro. Onde toda profissão é digna e as classes sociais se misturam com naturalidade. Um país bom, saudavelmente variado. Humaníssimo, como deveria ser. Com tais qualidades, e a discrição que é talvez seu maior charme, A Próxima Vítima talvez não inaugure um novo tempo na telenovela (Como Dancin’ Days, a introdução ao contemporâneo). Mas sem dúvida ajuda a passar a limpo um País ferido por anos de ditadura militar e malfeitores tipo Sarney e Fernando Collor. Este Brasil telenovelesco projeta a herança de decência, mesmo um tanto jeca, deixada por Itamar Franco, e encara com otimismo os tempos FH. Pouco importa que o próprio FH esteja se lixando para isso. A Próxima Vítima não diz que o presidente mudou e sim que o povo mudou. O que, convenhamos, é infinitamente mais estimulante.

Ficcionalmente, a trama policial lembra tempos de O Rebu, de Braulio Pedroso, o mais inovador de todos os teledramaturgos. Não tão sofisticada – o que mais uma vez expressa o equilíbrio procurado (e conseguido) entre o ousado e o popular. Apesar de bem urdido – espera-se que, ao final, os autores não se emaranhem nos próprios fios – e quem-matou-quem importa menos que a vasta paisagem humana. Não há vilões, heróis, mocinhas. Ou há, mas só até certo ponto: o possível galã Juca é moralista e gordo como uma barrica. O outro – Marcelo, magnífico José Wilker – frio como aço e às vezes decididamente mau caráter. As heroínas podem ser assassinas (Natália do Valle), psicopatas (Claudia Ohana) ou jecas (Suzana Vieira). A moçada pode ser burra (a Yara de Georgiana Góes, o rosto mais puro surgido na TV nos últimos tempos), gaga e grossa (Selton Mello), irritante (Deborah Secco), gay (Lui Mendes), drogada (Pedro Vasconcelos), ambiciosa (Camila Pitanga), obsessiva (Viviane Pasmanter) e por aí vai. Conclusão: nada do que é humano deve espantar.

Aracy Balabanian, Yoná Magalhães, Rosamaria Murtinho
Para estruturar tudo isso, uma equipe de atores competentíssimos. Bom acompanhar atores crescendo até “acharem” seus personagens. Suzana Vieira, de harpia à mãe humaníssima, o Zé Bolacha de Lima Duarte, do fake subliterário a climas carregados de olhares malignos. Gostoso ver contracenando duas soberbas mulheres em plenitude – Natália do Valle e Mila Moreira. Delicioso assistir à dobradinha de humilhados e ofendidos Nicette Bruno e Flavio Migliaccio e a do par perfeito de Guarnieri e Aracy Balabanian, a verdadeira rainha da telenovela brasileira. Ou a oportunidade com que foram introduzidos novos personagens – Otávio policial (Paulo Betti), a pistoleira (Patricia Travassos), o michê bonitão (Alexandre Borges) e principalmente a estonteante Romana de Rosamaria Murtinho.

Detalhes saborosos: a fitinha vermelha da luta conta a Aids de Romana, aquele livro com reproduções de Chagall atrás do sofá de Helena, uma almodovariana planta de papelão na casa de Ana, os paulistaníssimos nomes inventados de ruas da Móoca (Miriam Batucada, Adoniran Barbosa), as referências constantes à peças, filmes e figuras da cultura brasileira contemporânea. Tanta qualidade não é pouco para um gênero cheio de limitações, dogmas, vícios, tradições.

Não sei se A Próxima Vítima ficará na história. Mais valem a humanidade e a sociedade que reflete e, além da naturalidade ao lidar com temas até bem pouco considerados “escabrosos” , a sua maneira decentíssima de colaborar para aquilo que todos, singela e finalmente, queremos um Brasil melhor.

                                                           OESP – Telejornal, 8 de outubro de 1995



terça-feira, 1 de novembro de 2011

Girassóis

Foto de Adriana Franciosi

Tenho aprendido muito com o jardim. Os girassóis, por exemplo, que vistos assim de fora parecem flores simples. fáceis, até um pouco bruta.

Pois não são não. Girassol leva tempo se preparando, cresce devagar enfrentando mil inimigos, formigas vorazes, caracóis do mal, ventos destruidores. Depois de meses, um dia, pá! Lá está o botãozinho todo catita, parece que já vai abrir.

Mas leva tempo, ele também, se produzindo. Eu cuidava, cuidava e nada.

Porque tem outra coisa: girassol quando abre flor, geralmente despenca. O  talo é frágil demais para a própria flor, compreende? Então, como se não suportasse a beleza que ele mesmo engendrou, cai por terra, exausto da própria criação esplêndida. Pois conheço poucas coisas mais esplêndidas, o adjetivo é esse, do que um girassol aberto. 

Girassol dura pouco, uns três dias. 


O blog é para escritos do Caio F. que não saíram em livros. Mas um amigo (Gracias, Ivan!) mandou essa foto tão linda. E ela fica ainda mais linda com esses trechos da crônica A Morte dos girassóis, publicada no Caderno 2 no domingo 4 de fevereiro de 1996. Ao pé da página um aviso: "Por motivo de férias, republicamos crônica que originalmente foi editada no jornal Zero Hora". Caio Fernando Abreu morreu antes que fevereiro acabasse, no dia 25.
A Morte dos Girassóis está no livro Pequenas Epifanias. E também originou o livro Girassóis (Global Editora), com lindas ilustrações. 

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Os sonhos de todos nós



Fante em Los Angeles
Se me perguntassem qual foi o livro que mais gostei de ler em 1984 (e nos últimos anos), responderia sem vacilar: Pergunte ao Pó, de John Fante. Ele trouxe de volta um tipo de emoção experimentado no final dos anos 60, com a descoberta de J.D. Sallinger, do Holden Caufield de O Apanhador no Campo de Centeio aos membros da família Glass, à qual pertencia Seymour, o suicida poeta zen. Em comum entre os dois, uma infinita piedade pela condição humana e a inocência de personagens perdidas num mundo de relações incompreensíveis.

Sonhos de Bunker Hill traz de volta o alter-ego de Fante, o escritor Arturo Bandini, visto alguns anos depois de Pergunte ao Pó. O virginal Bandini do livro anterior agora batalha no mundo dos roteiros cinematográficos de Los Angeles – cidade que ele amou e cantou como ninguém -, fascinado por traseiros femininos, em luta contra a falta de grana e, quase sempre, de inspiração para escrever.


John Fante e Joyce
Publicado originalmente em 1982, um ano antes da morte de Fante, aos 74 anos, o livro tem uma peculiaridade: não foi escrito, mas ditado a Joyce, mulher do autor. Cego, com as duas pernas amputadas devido a problemas com diabetes, essa foi a única maneira que Fante encontrou de não parar de escrever. Não podia parar. E, escrevendo ou ditando, a emoção era sempre a mesma: tripas e coração, como diz seu admirador Bukowski, misturados no mesmo esforço de fundir humor e dor, ternura e ridículo, grandeza e miséria. Bandini é palhaço, herói, gigolô, artista, vagabundo, romântico: tudo ao mesmo tempo. Daí talvez sua irresistível simpatia, capaz de fazer com que qualquer um de nós se identifique com suas confusões.

Em volta de Bandini, uma galeria de personagens – muitas nitidamente calcadas em modelos reais daquela fauna absurda dos anos de ouro de Hollywood, nas décadas de 30 e 40 – tão malucas quanto ele. Podem ser a roteirista Velda van der Zee, autora (em co-autoria com Bandini) do hilariante faroeste Sun City, ou o também roteirista Frank Edgington, vagamente homossexual, com quem Bandini divide uma história ambígua, regada a vinho e maconha (ele agora está menos moralista do que quando conheceu Camila Lopez, a inesquecível princesa maia de sapatos em farrapos, de Pergunte ao Pó), o lutador Duque de Sardenha, ou a amante Helen Brownell, dona do hotel onde ele mora. Em todos, a palavra de Fante não demarca nenhum limite definido entre a dignidade e o grotesco. Nessa delicada faixa de transição do cômico para o trágico, nessa corda-bamba entre o que se gostaria de ser e o que realmente se é, equilibram-se as pungentes criaturas de Fante. Que fazem rir de um riso nervoso, de olhos molhados.

Os sonhos sonhados em Bunker Hill, guardadas circunstâncias e proporções, são os mesmos sonhos de todos nós. É o sonho de um trabalho criativo e gratificante, que a realidade acaba por reduzir a duas palavras no roteiro de Sun City: Whoa! E À toda! Os sonhos de um grande amor pulverizados pelo cansaço sem sex-appeal de uma cinquentona, e a modesta contestação: “Éramos bons um para o outro, Helen Brownell e eu”. O sonho de uma volta triunfante ao lugar de origem – quando Bandini retorna a Boulder, no Colorado, e um porre antiestratégico transforma em tombo as vantagens contadas sobre Johnny Weissmuller e Esther Williams e Buster Crabbe. Em todos os tombos de Bandini, o desmentido da fantasia de que a vida, afinal, seja menos mesquinha. Viver, a própria vida vai provando aos pouquinhos, não tem nenhum happy-end em technicolor e cinemascope.

Para Fante-Bandini, a única forma de conquistar essa ilusão de sentido, grandeza ou beleza da vida talvez tenha sido escrever. Por isso, no final, com “dezessete dólares na carteira e o medo de escrever”, ele senta-se em frente à máquina e, orando a Deus e a Knut Hamsum, inicia o processo mágico e salvador de transformar em ficção cheia de poesia uma realidade que nem sempre foi tão poética assim. “Ah vida!” – ele clamava em Pergunte ao Pó – “Tua amarga doce tragédia, sua puta deslumbrante que me levaste à destruição”.


John Fante não foi exatamente “um gigante da literatura”, nem escreveu sobre grandes tragédias da alma humana: detinha-se sobre o pequeno, com muito cuidado. Com doses generosas de sentimentos raros: perdão e amor. Ele escreveu pouco: além de Pergunte ao Pó e Bunker Hill, sua obra compõem-se apenas de Wait Until Spring, Bandini (1952) e The Brotherhood of Grape (1977). Passou quase toda a vida retirada dos cintilantes circuitos da badalação, às voltas com problemas de saúde. Era um homem muito simples, todos dizem. Sabia que suas histórias não tinham muitas pretensões mais do que resgatar do pó do esquecimento figuras que, se ele não as tivesse lembrado, permaneceriam para sempre anônimas. Sabia também que quando tudo parece meio idiota quando se pensa na morte. E que as pessoas, de muitas maneiras estranhas, tortuosas, piradas, no final das contas só querem amar e ser felizes. Doloroso é que isso, que parece tão pouco, seja geralmente tão inatingível. Fante-Bandini sabia muito bem de todas essas coisas.
             


Prefácio do livro Sonhos de Bunker Hill, de John Fante, publicado pela Editora Brasiliense em 1985. Caio Fernando Abreu também foi o copidesque.






sábado, 8 de outubro de 2011

De laços, de seios, sábados e tormentas



Paris – Era uma vez um sábado de abril. Sábado é sempre sábado, igual em Paris, Porto Alegre ou Cingapura. Sempre no ar aquela expectativa – pizza, cinema ou beijo, não importa – de uma gota de mel para o domingo. Comprei o Le Monde e o Libération, sentei no café da esquina para praticar meu mórbido e pátrio esporte diário: procurar notícias do Brasil, que não desato esse laço. Nunca tem. Mas desta vez – explosão! Como diria Clarice Lispector – ah, desta vez sim, bem grande no alto da última página: BRÉSIL. Adiei a voracidade, pedi outro café, fui ao toalete fazer nada, acendi um cigarro, sorri para uma alemã e depois de uns 10 minutos, absolutamente natural, só o coração batendo secreto me denunciaria, peguei e li sem fôlego, morto de sede e saudade.

Olinda, uma das cidades mais belas que conheço, patrimônio histórico da humanidade. Periferia de Olinda, Recife, Pernambuco, Nordeste do Brasil, América do Sul. Um seio amputado no lixo. Fome, miséria. Tamanho horror que minha forma mais eficiente de reproduzi-lo é repetir sua síntese aqui assim numa única linha para que fique bem claro e medonho e irrecusável na sua hediondez que ofende a todos nós.

Canibalismo em Olinda.

Voltei ao toalete para fazer aquilo que os bebês e os bêbados fazem muito, embora tenha passado dos 40 e, hoje, só bebi café e vitamina C. Dobro o jornal com cuidado e vergonha, para que ninguém leia. Capricho na pronúncia ao pedir a conta, para que não suspeitem de onde venho e saio de fininho. Ando sem rumo por Alesia até me atrasar para a entrevista. Eva Louzon, apaixonada pelo Brasil, faz milhares de perguntas, eu falo do sol, da energia bruta da terra – axé! Axé – que-aqui-não-tem! -, de Machado e Rubem F. e Lygia Fagundes e Hilda Hilst e muita música, Gal, Bethânia e Calcanhoto, cascatas, araras, essas praias murmurantes aonde a lua vem brincar e futuro resplandecente. Um dia, um dia. Tropeço por brasilidades histéricas, fumo demais. No metrô um punk antigo demi-moicano ameaça com navalha quem não dá dinheiro. Não dou, faço o invisível, sempre funciona. Desabo no Marrais de tardezinha.

Um postal de Isabelle Adjani como Emily Brontë, uma antologia de contos gay organizada por David Leavitt. Podia visitar sem aviso Betty Milan, que mora na esquina, telefonar para qualquer um, em português, assistir Jeanne La Poucelle, Sandrine Bonnaire como meu ídolo de infância, Joana D’Arc na versão de Erico Veríssimo. Não faço nada: cinemas cheios demais, ruas cheias demais. Quero voltar para casa, ver TV até a imbecilidade, dormir sem sonhos. Alguma coisa me falta, desesperadamente.

Estou perdido. Atravesso pontes, viro esquinas medievais. O dia é cinza e frio como as cinzas dos borralhos. Quero qualquer coisa que não tenho agora, um país, uma língua, um amor, nesta cidade estrangeira quero me jogar no Sena, me embriagar alucinadamente. Então eu paro e olho a rua, a casa em frente.


A placa (Gracias, Ricardo Costi)
Quai de Bourbon, número 19. Uma placa diz que ali viveu Camille Claudel. Mais abaixo, esta frase dela – “Il y a toujours quelque chose d’absent qui me tourmente” (Existe sempre alguma coisa ausente que me atormenta) – escrita exatamente há 108 anos. Mas já vivi isso, penso, por que outra vez? Quero acender uma vela pela alma de Camille, a multidão de japoneses barra a entrada da Notre-Dame. Amanhã, amanhã sem falta em Saint-Germain de Prés. Volto pelos túneis cheios de namorados. O sábado, o mel. O Brasil me falta e dói como dizem doer a ausência de um membro amputado, o seio no lixo, o tormento e a tormenta nas esquinas de Pernety, eu repito e repito o horror que ofende a todos nós:

Canibalismo em Olinda.

E no entanto eu não desato esse laço. Tão apertado, parece forca.


                                         OESP – Caderno 2 – Domingo, 1 de maio de 1994

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Os Dragões não conhecem o paraíso



*Publicado no programa da peça Sobre o Amor e a Amizade, que Grace Gianoukas e Jairo Mattos encenaram em 2002, com direção de William Pereira. O roteiro, de Grace Gianoukas, foi escrito a partir de contos e crônicas de Caio Fernando de Abreu: Trinta Graus de Libra, Réquiem Por Um Fugitivo, Creme de Alface, Os Dragões Não Conhecem o Paraíso e Os Sapatinhos Vermelhos.

Em um trecho do espetáculo ouvia-se a voz em off de Caio Fernando de Abreu lendo A Dama da Noite, tirada de uma entrevista à uma rádio alemã.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Um presente lindaço para São Paulo





Presente que se preza deve ter forma e conteúdo. Embrulho bonito, crac-crac de celofane ou seda, laço de fita, papel coloridésimo pra gente espatifar suavemente , de pura expectativa. E coisa bonita por dentro também, nem precisa ser cara. Pirulito mesmo serve. Pois semana passada ganhei um presente. Ou melhor, a cidade de São Paulo ganhou um – e dos lindaços –, mas quem deitou e rolou fui eu. Bem que andávamos precisados, ela e eu. Você também, garanto.

Tem um nome, esse presente. Chama-se Espaço Banco Nacional de Cinema*, fica na rua Augusta, 1.475, duas quadras da Paulista em direção ao centro, passando o Frevinho, quase chegando no Longchamp*, ali onde era o Cine Majestic. Que felizmente não virou garagem nem supermercado, igreja evangélica ou qualquer monstro tipo pró-barbárie. Esse Espaço é anti-barbárie. Eu falava de forma: tem três salas amplas, confortáveis, aparelhagem de primeira, uma sala de espera imensa com um bar de garotas simpáticas, mais um enorme (e delicioso) pôster de Oscarito e Grande Otelo. Falava de conteúdo: inaugurou com 26 filmes, considerados os melhores da Mostra do Rio de Janeiro.


Impossível ver todos. Mostra é meio empanturrante, ver um irmãos Taviani e em seguida um Zhang Yimou soa tão insensato quanto jogar-se sobre um frango xadrez logo depois de uma lasanha à bolonhesa. Mostra é meio zona também, e filme bom exige silêncio durante, depois e às vezes até mesmo antes. Sou daqueles capaz de odiar com ímpetos homicidas quem fala e come em cinema. Pipocas e Visconti, Diet Coke e Jane Campion, pode? Cinema é ritual, liturgia, solidão, projeção inocente de fantasias secretas, discretas. Mostra é indiscreta: muita gente aproveita mostra para mostrar-se. Arranjando um cantinho estratégico para ver sem ser visto, fica divertido observar o Crítico Que Saltita de Grupo em Grupo Dizendo Coisas Geniais em Voz Altíssima, ou a Modette Que Saiu Hoje na Coluna e Está Doida Para Ser Reconhecida. Coisas de Sampa, que nunca andou tão Dallas, e onde atualmente o pior tormento parece ser sentir-se invisível – ou incolunável, que aqui viraram sinônimos.


O Cheiro da Papaia Verde 
Inabalável, graças a Deus, na noite de domingo vi um dos mais belos filmes da minha vida – O Cheiro da Papaia Verde, do vietnamita naturalizado francês Tran Ahn Hung. Frágil, delicado. A câmera quase o tempo todo espreita a ação, desliza por trás de treliças, espia em vãos de portas e janelas, detendo-se às vezes em vidas mínimas – uma rã, a gota de seiva do mamoeiro, uma lagartixa, os grilos dentro da minúscula gaiola de bambu. As vidas também são minúsculas, quase mudas. Os personagens falam por gestos, pelos olhos. Estado de graça, imagem, amém.

Depois desse filme, qualquer outro europeu ou americano (principalmente, lembrar do Vietnã dói – como foi possível a pata yankee quase emagar aquela gente nobre?) parece brutal demais. Perigoso, porque também não se pode desprezar assim os lamês dourados e veludos bordôs sangrentos de Peter Greenway, nem o debochado Wittgenstein de sister Derek Jarman, com a sensacional Tilda Swinton como Lady Ottoline Morrei, e mecenas amiga de Virginia Woolf e Katharine Mansfield.

É que cinema salva. E pouca coisa salva. Muitas vezes, entre saltar imediatamente pela janela, comprar uma passagem sem volta para Marabá ou comandar uma chacina no Planalto, escolho ir ao cinema. Pois como dizia Voltaire (aliás, citado por Louis Malle): “Resolvi ser feliz porque é melhor para a saúde”. Cinema e felicidade (ou ilusão de, que importa?) são parentes próximos. Será essa uma das razões porque o Brasil anda tão infeliz? Leio que entre os 150 filmes da 17ª Mostra Internacional de São Paulo, a partir de 21 de outubro, há apenas um brasileiro. Um país que não se vê, sem auto-imagem. Pois é, deu nisso.

                      OESP – Caderno 2 – Domingo, 17 de outubro de 1993


* Com a falência do Banco Nacional, o cinema virou Espaço Unibanco. O Longchamp fechou e hoje um restaurante árabe funciona no lugar.

sábado, 27 de agosto de 2011

Inútil pranto por Santa Teresa


Conheci Santa Teresa em 1968. E era tão bonita que nem parecia real, mas locação de filme brasileiro de época, com o casario colonial de portas e janelas coloridas feito pintura primitivista, o sobe-desce das ladeiras e o Rio de Janeiro esparramado lá embaixo. Jurei encantado: um dia, ah um dia ainda venho morar aqui.

Cumpri a promessa. Lá por 1971, fui morar numa espécie de minicomunidade hippie com Lima, Lili e Tereza, perto do Morro Silvestre. Nos fundos do apartamento, um abismo de bananeiras, flores tropicais selvagens que ninguém sabe o nome. Vezenquando alguma cobra atravessava a rua, bem natural. E nós tão hippies, mas tão hippies que volta e meia, geralmente nos sábados à tarde, o pintor Luiz Jasmim (onde andará?), que morava ao lado, colocava as caixas de som na janela e a trilha sonora de Hair bem alto, só pra nós. Os acordes de Aquarius ou Let the Sunshine in eram uma declaração de simpatia ao mesmo tempo explícita e delicada. Se éramos felizes? Não sei, éramos jovens. Além disso havia Santa Teresa em volta e aquele exagero de beleza da Baía da Guanabara, que podia ser vista até da janela do banheiro. Nem teve importância que tudo terminasse numa dançada federal. Saímos de lá corridos, feridos, assustados. Normal para a época. Afinal, quem não dançou nos anos 70 nem sequer sonhou.

Mas não me dei por vencido. Em 1982 voltei para morar outra vez em Santa Teresa. Desde vez no lendário hotel do mesmo nome, onde reza a lenda, morou Raul Seixas. Durante quase um ano, enquanto escrevia Triângulo das Águas, me dedicava a longas caminhadas pelas ladeiras de calçadas estreitas, pegando amizade com a população do bairro. Naquele tempo, e nem tanto tempo assim faz, por incrível que pareça as pessoas não tinham medo umas das outras. Violência? Vez por outra um pivete roubando relógio ou corrente de ouro de turista tonto no bondinho, e a história era comentada durante uma semana. Mas tiro, bala perdida, mortes e feridos, isso nunca. Essas coisas não cabiam lá.

Santa Teresa ficava no interior da cidade do Rio de Janeiro. Santa Teresa, qualquer coisa entre Paraty e as cidades coloniais mineiras, era pacífica, preguiçosa, suavemente monótona. Feito uma foto em sépia, aquarela primitiva, vila fora do tempo. À noite dava para sentar no muro caiado de branco, ouvindo as mangas maduras demais se esborracharem no chão, sentindo o perfume de dama-da-noite solto no ar. E quando se descia até o Rio e ficava muito tarde, e os motoristas de táxi recusavam-se a subir, dizendo que os trilhos dos bondes cortavam os pneus, ia-se a pé mesmo, por quebradas estreitas da Glória, por intermináveis escadarias do Cosme Velho. Havia grilos, vaga-lumes, perfumes soltos no ar um pouco mais frio no morro. E as luzes da Guanabara, maravilhosas e perigosas, lá longe. O melhor de Santa Teresa, talvez, era que o Rio de Janeiro era uma coisa que você podia ou não usar, mas estava sempre lá.

Agora acabou. O que leio nos jornais e vejo na TV nas últimas semanas me deixa doente. Ainda mais doente. Santa Teresa sangra, transformada em Sarajevo tropical, em Chechênia, invadida, estuprada. As pessoas abandonam as casas e fogem para qualquer lugar, escondendo o rosto. Balas perdidas cruzam o ar. Não, não sei se é suficiente chorar o que se perdeu e rezar pelo que ficou. Sei que, por conta disso, acabei achando um pouco ridículo FHC todo sorridente ao lado da rainha da Inglaterra e todas essas comemorações do fim da 2ª Guerra, enquanto Santa Teresa agoniza, desamparada e bela, no alto daquele morro. Quem pode fazer alguma coisa que faça. E quem pode?

               OESP – Caderno 2 – Domingo, 14 de maio de 1995

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Diário do Grande Sertão





De certa forma, ajudei a inventar este livro. Explico como. Foi lá por setembro/outubro de 1985. Estava editando a revista Around quando me caiu nas mãos um texto de Bruna: os fragmentos de um diário escrito durante as gravações de Grande Sertão: Veredas. Fiquei encantado com – mais que tudo – o clima do texto, que liguei para ela: “Bruna, tua matéria é uma delícia. Sabe o que eu acho? Que ela daria um livro”.
Ela duvidou. Valeria mesmo a pena, interessaria a alguém? Inisisti. Bruna falou que ia pensar, remexer no material. A cada vez que nos cruzávamos, depois, ou falávamos por telefone, eu cobrava: “E como vai o livro?” Até que ela se decidiu. E mergulhou na reconstituição daqueles papéis, daqueles sertões. Obsessiva, bateu e rebateu originais, procurando essa coisa esquiva – a forma exata. De vez em quando, iluminações. Como as frases do próprio Guimarães Rosa que atravessam o texto – lembrando sempre que esse outro texto, o de Bruna, não existiria sem o de Guimarães. Nem o texto, nem a experiência. Que foi profundamente modificadora – isso vocês vão descobrir à medida que forem lendo. E se espantando com a moça linda e loura, de imagem mimada, às voltas com escorpiões fatais, ou à procura de discretas moitinhas para fazer um xixi rápido. Quem diria – a Bruna Lombardi? Ela mesma, cara... É que só a paixão pode levar à renúncia desses fricotes e comodidades aos quais estamos urbanamente (mal) acostumados. Você vai surpreender aquela moça Bruna, que você imagina envolta em peles, bebericando champanha nas noites paulistanas – já meio tomada por Reinaldo/ Diadorim -, sentindo-se “a mulher mais sofisticada do planeta” por conseguir dormir uma noite numa simples cama de hotel. Por trás da aventura pessoal, a aventura grupal de um bando de técnicos e artistas de TV dispostos a realizar o aparentemente impossível: verter para o vídeo o universo verbal muitas vezes hermético do nosso maior escritor. Eles conseguiram. Bruna também conseguiu.
E conseguiu não só emprestar corpo e vida à torturada Diadorim, mas despir-se de muitas de suas camadas supérfluas para colocar corpo e vida também no texto que, no meio do redemunho, escreveu.
O resultado é este documento sobre duas aventuras: a de toda a equipe que realizou talvez o mais belo seriado da televisão brasileira, e a aventura particular da moça Bruna, transformada em jagunço vingativo. É muito bonito. Vital, vigoroso. Como se, em cada momento da escritura, a autora ouvisse por dentro a voz de seu inspirador Guimarães Rosa, instigando, provocando, enlouquecendo: “Êêêêêêê mandacarú, ôi Diadorim belo feroz. Ah, ele conhecia os caminhares”. Bruna também. Se não os do sertão, pelo menos os de escrever.
    Orelha do livro Diário do Grande Sertão, Bruna  Lombardi. 1986

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Praia do Rosa

 
 Porto Alegre, 22/1/96
    Praia do Rosa
    Príncipe artesão etrusco/ colocou no meu pulso esquerdo/ um bracelete prata pedra rude ágata – esmeralda:/ cor exata do seu olhar e do mar,/ suas costas nos seus olhos.
    Obrigado: falei.
    E quando me ia, olhos baixos, ele disse: “um beijo”. Depois tocou na ferida do meu ombro oposto ao que tocara antes, fechando meu corpo em seta para o infinito.
   Pela primeira vez em dois anos senti tanta mágoa e pena de ser o leproso de Cartago. Não posso dar-lhe Thanatos como se Eros fosse.
  Isso não dói. Seu bracelete é bálsamo na minha pele em frangalhos.               
 
                       Jornal do Brasil – Caderno B – 27 fevereiro 1996

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Querem acabar comigo


   A gente corre. Para ganhar
            Ou perder a vida? Resta cantar
        aquele velho Roberto Carlos
São nove horas da manhã de segunda-feira. Estou sentado aqui na escrivaninha, mas hoje não tenho nada a dizer. Quase nada. Ou o que teria a dizer são coisas que só interessam a mim, não a quem lê. Então, hoje vocês vão ter paciência comigo. Hoje tem sessão queixa.
Andei fazendo contas: há 13 meses escrevo aqui, uma vez por semana. São pelo menos 52 semanas, pelo menos 52 crônicas como esta. Eu acho muito. É que nem sempre consigo escrever sem sofrer um pouco. Mesmo quando até me divirto, sempre é necessário remexer um pouco mais fundo, e remexer mais fundo cansa. Ando cansado. Porque não é muito simples escrever, não é assim: você senta, põe papel na máquina e escreve. Às vezes não vem nada. Outras, vem confusamente. Só depois de escrever três ou quatro laudas, aparece uma frase – e essa frase é a coisa, o resto não interessa.

Escrevo geralmente aos domingos, ou às segundas de manhã. Mas desde a quinta ou sexta-feira começo a sofrer vagamente. Nos últimos tempos tem sido mais grave. Porque ando muito – digamos – espantado com o mundo, daquele jeito que só dá vontade de olhar para ele (às vezes nem isso), sem nenhum comentário a fazer. Escrevo lento demais, preciso de tempo para pensar, reler, reescrever. Um domingo inteiro nem sempre basta. Há 13 meses não tenho domingos – aquele dia em que os outros vão ao cinema, namoram, visitam amigos. Os outros, não eu. Eu fico em casa, escrevendo. O mais complicado é que, para escrever, é preciso ver o mundo. Aos domingos ou nos outros dias. Ir ao cinema, namorar, visitar amigos – essas coisas. Não se arrancam palavras do nada: as palavras brotam de coisas e seres viventes. Há 52 semanas, vivo muito pouco. Porque além dessa crônica, fico no mínimo seis horas diárias dentro do jornal. E jornal – quem não sabia, fique sabendo – acaba com a cabeça (e o corpo) de qualquer um.
Susan Sontag
Essa escassez de tempo está clara agora, pouco mais de nove horas da manhã de segunda-feira, na desordem absoluta sobre a escrivaninha. Pilhas de cartas não respondidas, livros que só comecei a ler e não consigo terminar (uma Susan Sontag aqui, um Edmund Wilson ali), se olhar para o lado há também pilhas de discos não ouvidos (conseguisse alguns segundos para aquele U2, aquele Raul Seixas...)  E a vida gritando nos cantos.

Os amigos se queixam: você não telefona, não aparece. Tem gente que pede release, reportagens, textos os mais diversos, apresentações para exposições, ler originais, e os que exigem coisas do tipo: você não vem ver minha peça? Como bom ascendente Libra, não sei dizer não. Digo sempre sim, depois não consigo cumprir. Cobram, cobram. Ultimamente, toda vez que o telefone toca, já sei: é alguém pedindo alguma coisa. Têm me pedido muito, ultimamente. E dado pouco. Normal: gente é assim mesmo.
Agora você me pergunta: bom, e daí? Daí que ando cansado. Hoje estou me permitindo escrever sobre este cansaço indivisível, sobre minha falta de tempo, sobre a desordem que se instaurou em minha vida. Por trás disso tudo, o mais perigoso espreita: a grande traição que estou cometendo, todo dia, comigo mesmo. Porque escrevendo assim, para sobreviver, não escrevo o que me mantém vivo – outras coisas que não estas.

Roberto Carlos
O relógio avançõu. Já cheguei às minhas 50 linhas semanais. Amanhã vamos embrulhar peixe na feira. Tomo um café, acendo um cigarro. Durante um minuto, fico pensando em parar.
Parar como param os monges budistas. Parar e olhar. Só um minuto. Pronto: agora tenho que sair correndo outra vez para ganhar a vida. Ganhar ou perder? Eu sei a resposta. Mas posso cantar baixinho um velho Roberto Carlos, aquele assim: “Querem acabar comigo/ isso eu não vou deixar”. Juro que não.
                  
                                                      OESP - Caderno 2 - 1987




quinta-feira, 14 de julho de 2011

De volta ao avesso do avesso do avesso


Numa rasante de dois dias e uma noite sobre São Paulo – não, não ficou mágoa dessa relação. Como esses casais que vivem brigando durante anos e depois, ao separar, percebem que deviam ter feito isso antes, pois se afastarem era a única maneira de continuarem amigos, da mesma maneira, olhei o Largo do Arouche e a cidade em volta do 13º andar do Hotel San Raphael.  Sem saudade nem vontade de voltar, mas feliz ao perceber que na “cidade em escombros”, como diz Ignácio de Loyola, um de seus amantes mais críticos, a pequena praça redonda do largo está cheia de flores bem-cuidadas e as bancas continuam verdes.


A boa impressão continua durante a gravação para o programa de Marília Gabriela. A produção é gentil e, de repente, sem que elas mesmas saibam, vejo reunidas no mesmo trabalho pessoas que conheço de lugares diferentes e não via há muito tempo: a própria Gabi, minha ex-vizinha na Haddock Lobo, leitora entusiasmada de Onde Andará Dulce Veiga?, Ninho Morais, o diretor do programa, tempos de José Marcio Penido, Aninha Braga e Samuca Jagger na Girassol da Vila Madalena; Reinaldo Moraes, cronista do programa, de outros tempos na rua Alagoas, noitadas inesquecíveis com Mario Prata, Maria Emilia Bender, Ruy Fontana Lopes, Ana Cristina César. De repente, na platéia, Silvia Poppovic e sua beleza barroca para ajudar ainda mais o astral. Ah São Paulo, penso, e seu grande luxo que em cidade nenhuma existe igual: as pessoas. Pessoas sérias, fiéis, leais, solidárias, discretas, trabalhadoras.
Com Gil Veloso, que é tudo isso também e vivem em Sampa, saio da TV para ver Nanni Moretti e o humor tristíssimo de seu belo Meu Caro Diário. A Paulista é sempre comovente à noite em seu mar ilusório de neón, as garçonetes do quiosque Viena no Conjunto Nacional continuam lentas, e no Cinearte, um dos meus preferidos, mudou a sala de espera, levemente claustrofóbica agora. Saio fascinado por aquele passeio de vespa na praia onde foi assassinado Pasolini, ao som – reconheço espantado – do Köln Concert, de Keith Jarret.

Ileana Kwasinski
Na Manhã seguinte uma saudade súbita me fere ao sol, atravessando a rua em direção ao Almanara, da Oscar Freire, lembro com força e sem planejar de Ileana Kwasinski. Da esplêndida atriz que era, e pôde mostrar isso em Depois do Expediente, peça de um alemão contemporâneo, não lembro o nome, sem uma única palavra ou como o rei de A Vida é Sonho. Não sei se Ileana era paulistana, mas era também, como dizia, séria, fiel, solidária, discreta, trabalhadora. E de um talento que não creio tenha sido explorado até os últimos recursos, talvez inesgotáveis. Sim, estamos partindo, penso sem amargura, mastigando meu homus com suco de laranja. E ainda nem sei que Rofran Fernandes também morreu...

Ah São Paulo, tanta gente lutando numa paisagem urbana que não ajuda na luta, enumero no caminho para o aeroporto, os encontros carinhosos com Gisela Arantes, com George Freire. E aos poucos, pela janela do táxi, o susto antigo que volta. O manto de fuligem envolvendo o topo dos edifícios, transformando o obelisco do Ibirapuera lá embaixo da 23 de Maio numa espécie de escultura abstrata cuja parte superior se perde num céu de sujeira. Os olhos ardem, começo a tossir. Muito sereno o motorista comenta bem natural que, em breve, todos em São Paulo terão que usar máscaras de oxigênio para sair às ruas. Sim, concordo, em breve. Hoje, ontem, já.
E não sinto saudade, percebo da janela do avião. Nenhuma nostalgia de estar lá. Nenhum rancor. Bom ir, bom voltar, bom saber que aquelas pessoas boas continuam lá, outras também, outras não mais. Suspiro aliviado: sim, esse casamento meu com Sampa acabou na hora certa. Mas te desejo, de longe, felicidade. Me deseje também. E saúde, meu Deus.
                       OESP – Caderno 2 Domingo, 30 de Abril de 1995

terça-feira, 5 de julho de 2011

Viva o império das coroas magníficas


Paris – Há brasileirices que a gente só sente falta longe do Brasil. Foi assim, por exemplo, com a cantora Alcione, a quem nunca dei muita bola até certa tarde de 17 graus abaixo de zero, em Londres, quando Cida de Assis colocou  no toca-fitas “não-posso-mais-alimentar-essa-ilusão-tão-louca-que-sufoco”. Soluçamos no ombro um do outro, depois enfrentamos a neve para comer um junky-food indiana na esquina de Hampstead, cantarolando a Marrom. Ao molho de curry, que assim é a vida.
Desta vez, sem vergonha na cara, confesso: morro de saudades de Fera Ferida, a novela de Aguinaldo Silva. Sou um telenoveleiro apenas razoável: não suporto as das 18h, tola demais; a das 19h vejo enquanto pico cenouras, sem prestar muita atenção, embora Patricia Travassos tenha o dom de me arrancar dos confins da cozinha. A das oito, que sempre foi às oitro e meia, sempre me deixa mais atento porque vale como termômetro-do-emocional-coletivo-tupiniquim. Principalmente se for Gilberto Braga, aí não desgrudo mesmo. E trato mal quem telefona durante. Sensibilidades raras e especiais, como Cida Moreyra, nessas fases tem a sabedoria de ligar apenas durante intervalos comerciais.
Fera Ferida começou irritante. Já na primeira cena, a soma das idades dos atores beirava a idade do Brasil desde Cabral e aquele fatídico dia. Os tiques, e aquela coisa jecóide, ai, lá vem sotaque nordestino, lá vem vestido de chita... Mas Aguinaldo Silva, como bom telenovelista e romancista (Leiam Lábios Que Beijei, Siciliano), foi esquentando aos pouquinhos. Quando a gente dá por conta, pronto: está viciado. Só depois de meses Fera Ferida deixou bem claro porque é excelente: tem um time de atrizes e personagens femininas fora do comum.

Nada de modelões arfantes ou jubões crespos (o único jubão é a figura mais apagada de todas, Claudia Ohana): Fera Ferida é o império das coroas magníficas. Pois não é que, sem sentir, comecei a dizer coisas tipo “jantar fora, meu bem, só depois da Ilka Tibiriça”? E não apenas Cássia Kiss, redimida de anos de canastrice e antipatia por essa solteirona pungente: há muito mais. Suzana Vieira, pérfida e cafona; Joana Fomm, ainda mais pérfida, mas nem tão cafona assim. A perua provinciana e a perua viajada em choque: não esqueço a cena (cruel) em que Salustiana dispensou a visita de Rubra Rosa. Isso sem falar na rainha do escracho: Maria Gladys . Já quem tem menos de 40 anos, merece reparos: Camila Pitanga precisa lições de Arte Dramática; Deborah Evelyn, de uma boa dose de Efortil; a najinha Anna de Aguiar (Isoldinha), menos bocas; a anoréxica Erika Rosa, de refeições mais substanciais, pobrezinha.
Sobre todas, merecendo uma ode, paira uma deusa discreta chamada Arlete Salles, a costureira Margarida. Brava Arlete, que décadas atrás derrubou preconceitos casando com Tony Tornado, e nunca foi superstar. Contida, sóbria, modesta, elegante, ela não é daquele tipo de atriz como Emma Thompson, Meryl Streep ou Beatriz Segall, entre as tropicais, cujo subtexto sempre dá a impressão de um arrogante “Eu Sou Uma Grande Atriz”. Arlete é suavemente contagiante. Chorei junto com ela aquele rio de lágrimas no chão do quarto; me arrepio com sua fidelidade à Frida, a filha songamonga; adoro suas mãos castigadas e seus olhos de cão. Humaníssimos, solidários, leais.
Pois sinto falta, agora, daquela pausa no final do stress nosso de cada dia quando, num processo tribal e talvez alienante (mas que importa?) , todo o Brasil esquece URVs e baixarias do gênero para mergulhar juntos na única coisa capaz de nos distrair um pouco da insegurança: o sonho. Revejo Margarida Weber, a costureira desprezada, como uma mãe arquetípica, a nos garantir que tudo, tudo vai dar pé. Vocês vão ver só, meus filhos, nós vamos dobrar essa gentalha.

                          OESP – Caderno 2 – Domingo, 20 de março de 1994