quinta-feira, 28 de março de 2019

Frank Sinatra pelo jovem Caio F.



Uma única matéria assinada - apenas uma - registra a passagem de Caio Fernando Abreu pela revista Manchete. Repare no canto inferior da foto acima, a assinatura à esquerda: Texto de Caio Fernando Abreu. E matéria de capa com Frank Sinatra, oito páginas muita foto e pouco texto, que anunciava sua retirada dos palcos aos 30 anos de carreira. O texto começa assim:

"A decisão não foi tomada de improviso. Ao contrário, foi longamente amadurecida. Há dois anos e meio, como ele mesmo disse na semana passada em sua casa de Palm Springs, Califórnia, Frank Sinatra vinha pensando em abandonar o "mundo dos espetáculos e da vida pública", para usar a expressão do texto conciso e bem feito em que o cantor/ator se despede agora."

O Ovo Apunhalado
Claro que ele não entrevistou Frank Sinatra. Era junho de 1971 e Caio F., 23 anos, trabalhava no departamento de pesquisa da revista semanal carioca (e também da Pais & Filhos). O livro Para Sempre Teu, Caio F., de Paula Dip, conta como foi essa temporada carioca que acabou em prisão. Ele morava em Botafogo, numa comunidade hippie e por lá escreveu a maior parte dos contos de O Ovo Apunhalado (1975).

Um flagrante por porte de maconha, que ele dizia ter sido plantado, o levou à prisão. E só foi solto graças à intervenção de Adolpho Bloch, dono da editora que publicava a Manchete, que o demitiu e lhe deu uma passagem de ida para Porto Alegre.


E naqueles acasos também rola polícia no final do perfil de Sinatra por Caio F.:

"Ano passado teve sérias complicações com a polícia, que o acusava de ligações com a Máfia. Nada ficou provado, mas paira sempre uma desconfiança sobre Sinatra, por ter sido criado num bairro de mafiosos e por sua ascendência italiana.O que mais o aborreceu, entretanto, foi o livro de Mario Puzzo, O Chefão, que hoje em dia é sucesso internacional. Dizem que quis retratar Sinatra com seu personagem central, um cantor, ator, homem de maior popularidade nos Estados Unidos, mas cheio de vícios em sua decadência, o mais inocente dos quais é o da embriaguez. Os que conhecem de perto Frank Sinatra chegam a afirmar que é perfeitamente possível que seja esse livro uma das causas que estão na raiz de sua decisão de abandonar já a carreira para viver uma vida mais tranquila."


quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

Feliz em conhecê-la, Natália Lage



Natália Lage em À Beira do Mar Aberto,











Chama-se Natália, essa garota. Como heroína de romance russo ou uma tia-avó que nem conheci, famosa pela solidão (morreu solteirona), independência (vivia num hotel), aristocracia (odiava gentalha) e bom gosto (costureira requintadíssima) e, curiosa, como a própria filha que não tive e sempre pensei chamar de Clara, Luz ou, justamente, Natália.

Tem 16 anos. Feitas as contas poderia ser minha neta, posto que sou 30 anos mais velho. Supondo que eu tivesse tido um filho aos 15, e esse filho também tivesse tido um filho aos 15 - esse último filho ou filha, neto ou neta, poderia ser Natália. Por escolha, não tive nenhum. Os dois possíveis, em comum acordo com suas mães, foram abortados. Coisa de que me arrependo até hoje, ainda que não soubesse o que fazer a esta altura do safári com um rapaz ou moça de 19 anos e outro ou outra de 13.

Penso muito nesses filhos que não deixamos que vivessem. Rezo por eles, peço-lhes sempre um perdão desesperançado, amargo, desconfiado de que o crime cometido será para sempre imperdoável. Mas como Deus, embora aja, arranja jeitos tortuosos de compensar, volta e meia cruzo com alguém que poderia ser um daqueles filhos.

Natália é desses. Pele branca de porcelana, cabelos lisos quase louros, silhueta barroca, parece uma inglesinha do século passado. Não é difícil imaginá-la envolta em rendas, com chapéu e luvas, um livro ou bordado nas mãos. Fala pouco, quase nada. Mas olha muito o fundo. Séria, não fica jogando carinho fora (é de Escorpião), mas de vez em quando pega na sua mão ou te dá um abraço apertado sem avisar. Súbito e verdadeiro, o gesto de Natália nunca é social, estudado ou sedutor: toca em você respirando suave, sem nada pedir, sem carências. Como quem diz qualquer coisa tipo "que bom navegamos juntos".

Até dez dias atrás eu só conhecia Natália da TV: ela foi filha ao mesmo tempo de Vera Fischer e de Silvia Pfeiffer (e de Mário Gomes) numa telenovela cujo nome não lembro, depois a hiponga Adrenalina de Tropicaliente. Por amigos, certo dia soube que Natália gostava dos meus livros. Mas ela é tão jovem, pensei, e esses teens (argh!) não lêem nada, pensei assim com preconceito burro.

O elenco de À Beira do Mar Aberto
Fim do ano passado me procurou Marta Lage, mãe de Natália, queria produzir um espetáculo teatral com meus contos. Natália, imaginem, não tinha coragem de falar comigo. Pura intuição do bem, autorizei na hora.

Juntaram-se ao elenco Candé Horácio (19), Suzana Pires (18), Henrique Farias (20) e Mauricio Branco (25), todos eles filhos-não-tidos. Gilberto Gawronski começou a dirigí-los. Surgiu o título de um dos contos - À Beira do Mar Aberto, a idéia justa desse maar imenso da vida aos pés dos muitos jovens, tão jovens que mal começaram a navegar. Terá sereia nesse mar? E ilha e tubarão, terá? Piratas, tesouros, naufrágios, calmarias, tempestades, recifes, corais, escorbutos, banzo e nácar? Oh, Deus, tende piedade dos moços: só navegando em tuas águas pra descobrir tanto horror e maravilha.

Então vim ao Rio, e com uma equipe de 17 lindas pessoas fomos a Fortaleza estrear. Conheci Natália. Durante a viagem, enquanto os outros se agitavam excitados, ela leu todo O Marinheiro, de Fernando Pessoa; num bar, a vi sair discretamente para caminhar de mãos dadas com um menino mendigo. De vez em quando, numa mesa cheia, baixa a cabeça e escreve, escreve, escreve. É uma atriz. Tão menina, e de vez em quando umas entonações sabidas de balzaquiana, ironias de diva, charme de gatinha. Estranha densidade. Aura, magnetismo: talento.

Voltei, eles ficaram. Vão a Natal, João Pessoa, Salvador, Ilhéus, depois o Sul. Eu trouxe Natália no meu coração assustado, feito flor rara. Desde que a conheci, aqueles filhos que não tive me doem bem menos. Que é da natureza da dor parar de doer, tenho aprendido.
                Caderno 2, OESP - Domingo, 5 de fevereiro de 1995

E aqui, sobre a peça À Beira do Mar Aberto

sábado, 15 de setembro de 2018

Caio F. no Roda Viva

Caio F. no Roda Viva com Raquel de Queiroz

Houve dois momentos marcantes de Caio Fernando Abreu no programa Roda Viva.  O primeiro e polêmico foi como entrevistador da escritora Raquel de Queiroz https://www.youtube.com/watch?v=q0NHxLbaN5w. Quatro anos depois, em 1994, depois de ter revelado ser HIV positivo, ele voltou ao programa, agora como entrevistado (Não encontrei a entrevista no Youtube). Caio comentou esses dois momentos, em entrevista à Maristela Barrios, publicada no primeiro número da revista Sui Generis, em janeiro de 1995. http://caiofcaio.blogspot.com/search?q=conhecendo+o+para%C3%ADso 


 "Numa emissora de TV, há quatro anos, tive um entrevero no ar com a Raquel de Queirós, aquela latifundiária improdutiva e extremamente reacionária – num programa semanal em que eu era sempre um dos convidados  Depois disso, nunca mais me chamaram para nada, a não ser há algumas semanas. E era o mesmo entrevistador, a quem eu lembrei o fato e que, durante uma hora, não me olhou nos olhos. Mas uma das coisas boas do vírus é que fica assim... um grande caguei. Não tenho nada a perder, a única coisa que posso perder é a vida. Então, quero mais é dizer o que penso, o que realmente sinto, coisas que são verdadeiras pra mim e que podem ser úteis aos outros. Porque eu acho que sou uma pessoa legal, como costuma dizer a Gal Costa. Eu vivi uma porção de coisas, posso dizer coisas boas e más também. Como falava Mae West, ‘quando sou boa, sou ótima, mas quando sou má, sou melhor ainda’."


quarta-feira, 12 de setembro de 2018

Angela e Cauby: para roubar uma lágrima furtiva



Para marcar o dia em que seria o dia dos 70 anos de Caio F, uma postagem especial. Esta belezura de texto não está em Pequenas Epifanias e nem em A Vida Gritando nos Cantos, os livros que reúnem as crônicas que ele escreveu no Caderno 2 do Estadão. Esta saiu no formato matéria sobre um show de Angela Maria e Cauby Peixoto. Pra falar dos dois cantores, Caio convoca uma protagonista: tia Vilma, que embalou sua infância com canções. O resultado é uma maravilha e o "lágrima furtiva" não está no título por acaso. Uma pequena epifania essa crônica/matéria.

             Angela e Cauby: para roubar uma lágrima furtiva

Tenho uma tia chamada Vilma. A Vilminha, como a chamam até hoje as freguesas de costura, ou Pavima para nós, seus 500 sobrinhos. Solteirona, romântica, alucinada, tia Vilma amava no ar. Nunca se soube de um namorado seu. Tia Vilma lia fotonovelas, e cantava. Ah, como cantava, derramando vezenquando uma lágrima furtiva. Me ninava nas noites frias com seu repertório heavy: Dalva de Oliveira, Nora Ney, Linda Batista. Ao invés de Bicho Papão, dê-lhe Risque; e tome Vingança, ao invés de Boi da Cara Preta. Com dois, três anos, eu dormia no colo virginal Pavima, ouvindo Ninguém me Ama. Com cinco ou seis, cantava com ela obras completas de Lupicínio Rodrigues. Essas coisas marcam fundo, vocês sabem. Podem marcar pra sempre, gravemente até: fazem a fortuna dos psicanalistas quando a gente fica taludinho...


Sandro Moretti: galã de fotonovela
E Angela e Cauby, Pavima cantava. De Angela, muito Cinderela. Cauby, puro descorno, ela adorava. Lembro de uma porta interna de guarda-roupa - lembro mais do mosqueteiro suspenso, de filó branco, sobre a colcha de renda (quarto de moça), da janela aberta sobre o pátio cheio de begônias - e daquela porta interna do guarda-roupa com fotos de Cauby e Sandro Moretti. Cauby de bigodinho, orelhas meio de abano. Fino, sóbrio. Usasse faca, tia Vilma puxaria a dela, bem afiada, se alguém ousasse chamar Cauby de "maricão". E como chamavam!

Tivesse eu Pavima por perto - e não lá nos ermos de Itaqui - hoje à noite a levaria para assistir Cauby e Angela em "As Vozes". Talvez, suprema subversão, conseguisse fazê-la beber pelo menos uma vodka. Não, não me atrevo a imaginar tanto. Um singelo copo de vinho, branco naturalmente - quem sabe? Eu ficaria de porre total, lógico, e falaríamos de todo esse tempo que se foi, e dos que morreram, e dos que se descaminharam, dos que a vida feriu fundo, e dos que sofreram duramente por amor (ou falta de). Com Angela e Cauby ao fundo, talvez a velha - muito velha - e boa - boa no sentido vasto da generosidade - Pavima revelasse enfim seu grande segredo indizível. Que deve haver um, fatal. Sobre uma história que não houve. Homem casado, talvez? Um cunhado, um oficial do exército, um estudante pobre? Que vil sedutor, meu Deus?

Ao som das vozes de Cauby e Angela, eu e Pavima. Eu ficaria pensando qualquer coisa meio longa e complicada, como esta, assim: amar de paixão tresloucada ou detestar com as mais recônditas fibras do self, achar breguésimo ou tão brega, mas tão brega que (como o princípio zen do yin e do yang) chega a ficar requintadamente chique, qualquer dessas atitudes, intelectuais ou emocionais, em relação a Cauby e Angela não têm nada a ver.Se eu pudesse ver, do outro lado da mesa, os olhos muito cansados e quase azuis de tia Vilma por trás dos óculos de lentes grossas, teria ainda mais certeza que Cauby e Angela pairam infinitamente acima dos nossos pobres e preconceituosos padrões críticos.

Mas claro que, se eu quiser, posso colocar imediatamente o disco dos Inocentes e acabar com este clima. Mas é este clima que não acabam, como não acabam Angela e Cauby, as vozes que só por soarem, independente do que dizem, trazem de volta o passado de um país inteiro. Fico remexendo à toa em fotos e recortes antigos. Anoto os nomes dos oito irmãos da operária Abelim Maria da Cunha (Angela): Abdmar, Abiezer, Ablair, Abiail, Abladina, Abdiel, Abmael e Abedil. Parece uma oração. Encontro um elogio de Louis Armstrong, outro de Elis, à voz de Sapoti (e aquele agudo?). Vou mais fundo até encontar - juro - o registro de uma dança da inteiramente dark de Cauby, em 1952. Detalhes não posso dar. Mas é forte. Aliás, com suas antenas mutantes, o Supla pegou esse lado do Cauby. E Elis, quando gravou com ele o infernal Bolero de Satã: "Agora me assalta a aflição de chorar louco e só de manhã".

Tia Vilma/Pavima/Vilminha teria hoje talvez uma das melhores noites de sua vida em sépia. Ficaríamos numa mesa ao fundo, cúmplices. Tenho certeza que ela cantaria junto Vida de Bailarina, bem baixinho. E fingindo limpar os óculos, enxugaria muito dissimuladamente - mas não tanto que eu não percebesse - outra daquelas furtivas lágrimas

                  O Estado de S. Paulo - Caderno 2 - Sexta-feira, 6 de junho de 1986

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

'Adeus, Brasil Cruel'





Essa entrevista foi há 28 anos. Caio F., 42 anos recém completos, acabara de lançar "Onde andará Dulce Veiga?", quando conversou com Geneton Moraes Neto (1956-2016). Saiu em O Globo, edição de 30 de setembro de 1990, quase seis anos antes da morte do escritor. É das melhores entrevistas dele, que vivia desencanto com o País e funciona como uma mini biografia.

                                                 'Adeus, Brasil Cruel'

Quando lançou "Morangos Mofados", em 1982, você dizia aos que lhe cobravam um romance: "Quando alguém se dispuser a me dar uma mesada que me livre da obrigação de trabalhar oito horas por dia, compareço com um romance". A esperada mesada chegou para que você pudesse escrever "Onde andará Dulce Veiga?"?
Meu editor, Luis Schwarcz, me pagou durante um ano enquanto eu escrevia "Onde andará Dulce Veiga?", U$ 350 por mês, no câmbio oficial. É pouquíssimo, dava cerca de Cr$ 20, 25 mil. Eu complementava com o que eu chamo de biscates culturais. Mas renunciei a tudo, porque o que me interessa é a literatura. Se eu não tinha dinheiro para jantar fora, fazia arroz integral com ovo frito. Andava a pé, pegava ônibus. Cortaram a luz. Cortaram o telefone. Mas eu precisava escrever. Isso aconteceu comigo, no plano pessoal. Quanto à literatura brasileira - de uma forma abrangente -, concordo com Hilda Hilst, a maior poetisa brasileira viva, quando diz que hoje, no Brasil, escritor vale menos que um gato morto. Não há respeito. Não há divulgação. Não há amor pelo autor brasileiro. Nós estamos todos profundamente solitários, desencantados, separados. Então eu me senti abençoado por ter conseguido escrever o romance.

Você lamentava, há poucos anos, que o escritor brasileiro fosse "um escritor de fim de semana". A situação piorou nos últimos tempos?
Piorou, e por isso estou indo embora do País. Vou lançar livros na Europa no fim do ano e ficar na Espanha, em Ibiza. Amo profundamente o Brasil. O meu livro é desesperadamente brasileiro. Preciso ficar longe dessa paixão, para que ela não me destrua. Eu serei um exilado literário.

Você espera encontrar na Europa, como escritor, o que não encontrou no Brasil?
Não, não e não. Vou ser, na Europa, um paquistanês. Não tenho ilusão. Já morei em Londres e Estocolmo. Eu era profundamente rejeitado e chamado de negro, índio, chicano. Mas vou: é como o Paulo Coelho aconselha: de sete em sete anos, jogue a vida para o alto e saia à procura de outra, porque teu destino pode estar à tua espera num boteco em Atenas. Se você não for, não vai encontrar. Sou um rolling stone. Isso pode ajudar a minha literatura e meu profundo amor pelo Brasil - cada vez mais enlouquecido, o meu amor por este País cruel.

Dentro da literatura, a que santos e demônios você recorre?
Santos ou demônios, minha relação é sempre com a luz. "Onde andará Dulce Veiga?" se encerra com uma oração de Clarice Lispector: "Ah, força do que existe/ Ajudai-me!/ Vós que chamam de o Deus". Fui preso em Londres, numa livraria, roubando a biografia de Virginia Woolf, escrita por Quentin Bell. Fiquei três dias na prisão. Só fui ler a biografia há poucos anos. Quando fui preso, fiquei sem o livro. Mas, desde então, ela me protege - Virginia.




Você descreveu há pouco a precaridade que enfrentou durante o período em que escreveu "Onde andará Dulce Veiga?". Mas esta precariedade palpável na vida real não transparece no texto. Críticos já notaram que você escreve com elegância. Você escreve com raiva, também?
Sou, no fundo, uma senhora inglesa. Muitas pérolas. Muito tailleur. Muita seda. Mas sou cafajeste, também. Num dos capítulos, antes de tomar um táxi, o personagem cruza na rua com dois anões, um corcunda, três cegos, quatro mancos, um homem-tronco, outro maneta, um enrolado em trapos como um leproso, uma negra sangrando, um velho de muletas, duas gêmeas mongolóides e tantos mendigos que não consegue contar. Aquela cena, no livro, é a raiva da realidade brasileira, é ódio do Terceiro Mundo. Tenho ódio, repulsa, desprezo, repugnância, pelo que fizeram com o Rio de Janeiro. Como é que nós, brasileiros, a nossa geração, os jornalistas, os intelectuais, permitimos que o País virasse essa bagunça?

Você também é jornalista. Fazer jornalismo é ruim para a saúde mental e física de um escritor?
É. Para o escritor - um ficcionista que se alimenta de sonho, ilusão e fantasia - é melhor ser jardineiro ou sapateiro do que se submeter ao vão comércio da palavra. Trabalhei na Editora Abril. Passei pela revista "Nova". Por mês, escrevia cinco matérias sobre sexo anal, sexo oral... Quando me dei conta, tinha ido parar na Divisão de Fascículos, onde estava escrevendo receita de cozinha. Juro! Tive uma indignação total. Pedi demissão. Disse: "Se eu continuar, amanhã de manhã vou me olhar no espelho e cuspir na minha cara!". Fiquei duro. Mas saí. Não admiti. Nélida Piñon é que diz: se você é escritor no Brasil, todo dia ouve alguém bater na porta para aconselhá-lo de maneira convincente a desistir. É preciso agarrar a literatura pelos cabelos, como Clarice Lispector fez, numa luta diária.

Você uma vez listou, entre os personagens que o fascinam, "as prostitutas, os negros, os homossexuais, os bêbados, os loucos, os suicidas, os exilados, os mendigos, os endemoniados". A arte que se alimenta da maldição é menor e mais viva?
É mais viva porque vive "perto do coração selvagem da vida", como diria James Joyce. Sou feliz. Sou a pessoa mais careta do mundo. Minha vida é toda ordenada. Tenho minha loucura sob controle. Mas os outsiders me interessam.

Você diz que José Saramago é "chatíssimo" porque não tem nada a ver com o que acontece na vida real...
De vez em quando, a gente fala coisas meio bobas que são distorcidas. Mas é verdade mesmo.

Você, então, prefere a literatura que possa fazer o leitor enxergar o que existe em torno de si?
Prefiro a literatura que ajude a alma do leitor a se questionar, a crescer e a evoluir. Prefiro a literatura que abale o leitor de alguma forma. Por exemplo, fiquei abalado quando li "O diário de Edith", de Patricia Highsmith. É a história de uma mulher que tem uma vida absolutamente banal, mas descreve, num diário, uma vida fictícia maravilhosa. Um livro assim perturba minhas reflexões sobre mim mesmo, sobre a sanidade, sobre a loucura, e sobre os limites da relação com o real. Prefiro este tipo de literatura - que é viva porque abala e não entra por um ouvido e sai pelo outro.

Cazuza, de quem você foi amigo, acaba de virar nome de praça em São Paulo e também no Rio, no Arpoador. A rebeldia deve virar monumento?
Quando quiseram transformá-lo num busto de bronze, Mario Quintana disse: "Cuidado! Um engano de bronze pode ser um engano eterno!". O que Cazuza deixou de melhor ficou nos discos e na bravura com que enfrentou a vida. Se virar nome de praça, tudo bem. Ser esquecido ou não ser esquecido, tanto faz. A posteridade é um tédio.


sexta-feira, 31 de agosto de 2018

Adeus, agosto. Alô setembro



                                                     Mesmo aqui, no país bandido,
                                                     agosto sempre vai embora. E
                                                     setembro sempre volta, sim

Agosto, todo mundo sabe, nunca foi fácil. Este que nos deixou à meia-noite de ontem e pareceu durar uns seis meses, cumpriu a tradição. Levou Drummond, levou John Huston, Gilberto Freyre. O mais patético: levou Pixote. Ao saber do assassinato (é as-sas-si-na-to mesmo que eu quero dizer) dele, além de sentir uma vergonha viscosa de ser brasileiro, fiquei pensando assim – Deus, o que é que está acontecendo com este país? Imagino a praça de guerra (Líbano perde) em que se transformou o Rio de Janeiro e, na trilha sonora, ficou ouvindo Lobão berrar “vida, vida, vida bandida”. Em 1987, Lobão tornou-se a mais perfeita tradução de Brasil. Um país invadido pela corrupção, pela barbárie, pela violência policial, pela bandidagem. Você vai até a esquina comprar cigarros e não sabe se volta vivo.

Falei disso a um motorista de táxi. Sobre Pixote, ele disse: “Pau que nasce torto, não tem jeito, morre torto”. Sobra a guerra da polícia com os traficantes, no Rio: “Bandido tem mais é que morrer”. Fiquei pensando: e, se tivesse educação, tinha bandido?  Se tivesse comida, tinha bandido? E se tivesse uma perspectiva qualquer de futuro no ar, tinha bandido? Se houvesse um mínimo de alguma coisa levemente parecida com “felicidade”, “dignidade”, “justiça?”. Quem inventou essa violência desenfreada que tomou conta do País não foram os marginais – foram os poderosos. Se eu desculpo bandido? Desculpo sim. Não desculpo é marajá. Não desculpo Zé Sarney no comando desta barca de Medusa, navegando em mar de sangue – em direção a que abismo?  Ninguém sabe, temos medo.

Passadas as águas de agosto, ontem inaugurou setembro. E por não apostar no País, aposto em setembro (“se o mundo é um lixo, eu não sou”). De saída, tem uma coisa linda que eu vou contar pra vocês. É assim: tenho quatro irmãos de sangue em Porto Alegre, e – graças a Deus – talvez uns 20 irmãos de alma soltos pelo mundo. Esta semana, dois deles estão aqui, vindos de Porto Alegre para apresentar no Madame Satã um trabalho chamado Lenta Valsa de Morrer.

Ivan, Adriana e Eliane: Lenta Valsa de Morrer
Eles chamam-se Ivan Mattos e Eliane Steinmetz (Eliane é “a Gorda” – emagreceu, mas o apelido ficou), atualmente também conhecidos como “os loiros” porque, como diz o Bivar, oxigenaram um pouco. Ivan e Gorda são das pessoas  mais engraçadas que conheço, e das mais talentosas. Não estão mais cabendo em Porto Alegre, a cidade-carroça, e vieram mostrar esse trabalho para quem quiser ver. São textos de Clarice Lispector, do alemão Heiner Müller, do gaúcho Renato Campão – e também meus. Tudo isso embalado pela voz de Adriana Calcanhotto, uma supercantora (quem perdeu o show dela no Off, semana passada, dançou), com participação de Adriane Mottolla, uma moça muito chique, e figurinos de Zé Adão Barbosa, um moço também muito chique. Na direção, outro irmão de alma: Luciano Alabarse. Pinta lá pra ver. Eles vão gostar, você também.

Se estou fazendo propaganda dos meus amigos? Lógico, meu bem, você acha que eu ia fazer propaganda dos meus inimigos? Sinto/sei que, de cada vez que o horror arreganha os dentes – assassinam Pixote, o Rio vira Líbano -, se a gente estiver atento, no minuto seguinte a velha Dona Vida, essa senhora imprevisível e nem sempre respeitável, faz uma pirueta no trapézio para mostrar a outra face. Não a de megera medonha, sanguinária, mas seu avesso: a fada suave, revelando o talento de gente moça. Ivan, Eliane, Adriana, moçada que já nasceu com os militares no poder, sem esperança nem fé, rolando de rir de tudo, com um jeito insólito de captar o sério das coisas. Não o sério clichê, o sério careta – mas um olho novo de pegar o mundo. Esse jeito existe, eu já vi. Cada vez que olho para Ivan e Gorda, cada vez que ouço Adriana, ele está lá.

Como setembro. Mesmo aqui, no País Bandido, agosto vai sempre embora, e setembro sempre chega. Se você quiser, claro. Porque, como aquele motorista de táxi, você pode achar que bandido é bandido, tem que ser morto. Quanto a mim, acho que todo mundo tem mais é que viver. Ser feliz. Agora, dá licença, vou escancarar a janela, tomar um banho e me preparar para este setembro que ninguém vai sujar. Em mim, não mesmo.

                                              OESP, Caderno 2, Quarta-feira, 2 de setembro de 1987

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

Caio F. no Bixiga




O Teatro do Incêndio fez uma bela homenagem aos grandes nomes da cultura nacional. 376 nomes de atores, escritores, dramaturgos, cantores tomam conta das paredes brancas do prédio, localizado na esquina das ruas Santo Antônio e 13 de Maio, no Bixiga, SP. E o nome de Caio F. está lá, em destaque, bem acima do nome do teatro.  

O prédio abrigou a lendária Boate Igrejinha, famosa por shows de música brasileira. Foi lá, por exemplo, que Maysa fez seu último show.

Aqui, a descrição da fachada do Teatro do Incêndio, no site deles.

"A parede externa de entrada do Teatro do Incêndio tornou-se um grande painel com a inscrição de 376 nomes de artistas de real importância na história cultural. Entre os homenageados, Tom Jobim, Cacilda Becker, Plínio Marcos, Flávio Império, Mário de Andrade, Carolina de Jesus, Maysa, Geraldo Filme, Roberto Piva, José Celso Martinez Corrêa, Batatinha, Ariano Suassuna, Darcy Ribeiro, Antônio Cândido, Ruth Rachou, José do Patrocínio e Lygia Clark."

Na parede do Teatro do Incêndio, Bixiga/SP

Na parede do Teatro do Incêndio, Bixiga/SP