quinta-feira, 9 de agosto de 2018

Caio F. no Bixiga




O Teatro do Incêndio fez uma bela homenagem aos grandes nomes da cultura nacional. 376 nomes de atores, escritores, dramaturgos, cantores tomam conta das paredes brancas do prédio, localizado na esquina das ruas Santo Antônio e 13 de Maio, no Bixiga, SP. E o nome de Caio F. está lá, em destaque, bem acima do nome do teatro.  

O prédio abrigou a lendária Boate Igrejinha, famosa por shows de música brasileira. Foi lá, por exemplo, que Maysa fez seu último show.

Aqui, a descrição da fachada do Teatro do Incêndio, no site deles.

"A parede externa de entrada do Teatro do Incêndio tornou-se um grande painel com a inscrição de 376 nomes de artistas de real importância na história cultural. Entre os homenageados, Tom Jobim, Cacilda Becker, Plínio Marcos, Flávio Império, Mário de Andrade, Carolina de Jesus, Maysa, Geraldo Filme, Roberto Piva, José Celso Martinez Corrêa, Batatinha, Ariano Suassuna, Darcy Ribeiro, Antônio Cândido, Ruth Rachou, José do Patrocínio e Lygia Clark."

Na parede do Teatro do Incêndio, Bixiga/SP

Na parede do Teatro do Incêndio, Bixiga/SP


quarta-feira, 1 de agosto de 2018

Sugestões para atravessar agosto, crônica escrita no último agosto de Caio F.


Essa crônica foi escrita há 23 anos, no último agosto que Caio F. viveu e publicada no domingo, 6 de agosto de 1995, no Caderno 2, do jornal O Estado de S.Paulo. Boa leitura.

Sugestões para atravessar agosto

Para atravessar agosto é preciso antes de mais nada paciência e fé. Paciência para atravessar os dias sem  se deixar esmagar por eles, mesmo que nada aconteça de mau; fé para estar seguro, o tempo todo, que chegará setembro - e também certa não-fé, para não ligar a mínima às negras lendas deste mês de cachorro louco. É preciso quem sabe ficar-se distraído, inconsciente de que é agosto, e só lembrar disso no momento de, por exemplo, assinar um cheque e precisar da data. Então dizer mentalmente ah! escrever tanto de tanto de mil novecentos e tanto e ir em frente. Este é um ponto importante: ir, sobretudo em frente.

Para atravessar agosto também é necessário reaprender a dormir, Dormir muito, com gosto, sem comprimidos, de preferência também sem sonhos. São incontroláveis os sonhos de agosto: se bons, deixam a vontade impossível de morar neles; se maus, fica a suspeita de sinistros augúrios, premonições. Armazenar víveres, como às vésperas de um furacão anunciado, mas víveres espirituais, intelectuais e sem muito critério de qualidade. Muitos vídeos, de chanchadas da Atlântida a Bergman; muitos CDs, de Mozart a Sula Miranda; muitos livros, de Nietzsche a Sidney Sheldon. Controle remoto na mão e dezenas de canais a cabo ajudam bem: qualquer problema, real ou não, dê um zap na telinha e filosoficamente considere, vagamente onipotente, que isso também passará. Zaps mentais, emocionais, psicológicos, não só eletrônicos, são fundamentais para atravessar agosto.

Claro que falo em agostos burgueses, de médio ou alto poder aquisitivo. Não me critiquem por isso, angústias agostianas são mesmo coisa de gente assim, meio fresca que nem nós. Para quem toma trem de subúrbio às cinco da manhã todo dia, pouca diferença faz abril, dezembro ou, justamente, agosto. Angústia agostiana é coisa cultural, sim. E econômica. Mas pobres ou ricos, há conselhos - ou precauções - úteis a todos. O mais difícil: evitar a cara de Fernando Henrique Cardoso em foto ou vídeo, sobretudo se estiver se pavoneando com um daqueles chapéus de desfile a fantasia categoria originalidade... Esquecê-lo tão completamente quanto possível (santo zap!): FHC agrava agosto, e isso é tão grave que vou mudar de assunto já.

Para atravessar agosto ter um amor seria importante, mas se você não conseguiu, se a vida não deu, ou ele partiu - sem o menor pudor, invente um. Pode ser Natália Lage, Antonio Banderas, Sharon Stone, Robocop, o carteiro, a caixa do banco, o seu dentista. Remoto ou acessível, que você possa pensar nesse amor nas noites de agosto, viajar por ilhas do Pacífico Sul, Grécia, Cancún ou Miami, ao gosto do freguês. Que se possa sonhar, isso é que conta, com mãos dadas, suspiros, juras, projetos, abraços no convés à luz da lua cheia, brilhos na costa ao longe. E beijos, muitos. Bem molhados.

Não lembrar dos que se foram, não desejar o que não se tem e talvez nem se terá, não discutir, nem vingar-se ou lamuriar-se, e temperar tudo isso com chás, de preferência ingleses, cristais de gengibre, gotas de codeína, se a barra pesar, vinhos, conhaques - tudo isso ajuda a atravessar agosto. Controlar o excesso de informação para que as desgraças sociais ou pessoais não dêem a impressão de serem maiores do que são. Esquecer o Zaire, a ex-Iugoslávia, passar por cima das páginas policiais. Aprender decoração, jardinagem, ikebana, a arte das bandejas de asas de borboletas - coisas assim são eficientíssimas, pouco me importa ser acusado de alienação. É isso mesmo; evasão, escapismo. Assumidos, explícitos.

Mas para atravessar agosto, pensei agora, é preciso principalmente não se deter demais no tema. Mudar de assunto, digitar rápido o ponto final, sinto muito perdoe o mau jeito, assim, veja, bruta e seco:.

domingo, 29 de julho de 2018

Caio F. e a festa erótica de Hilda Hilst




Era o comecinho dos anos 90, Hilda Hilst tinha acabado de publicar O Caderno Rosa de Lori Lamby, a primeira de suas histórias "pornográficas". Ela vem passar uns dias em São Paulo para realizar exames no coração e dá essa entrevista para o amigo (e discípulo) Caio Fernando Abreu. Foi publicada na revista A-Z, onde Caio trabalhava, e as fotos são de Gal Oppido. É das melhores de Hilda e não está incluída em Fico Besta Quando Me Entendem, livro que reúne entrevistas com Hilda.

                              A Festa erótica de Hilda Hilst
                           Caio Fernando de Abreu


Aos 60 anos de idade, com mais de vinte livros publicados (o primeiro é de 1950) de poesia, ficção e teatro, formada em Direito sem nunca ter exercido a profissão, desde 1967 recolhida à Casa do Sol, um sítio próximo de Campinas, depois de 40 anos de literatura (e, segundo ela, silêncio sobre seu trabalho), há três meses Hilda Hilst caiu como uma bomba nos meios literários brasileiros.

Com a publicação de O Caderno Rosa de Lori Lamby, Hilda renunciou publicamente à literatura dita "séria" - que lhe conferira, por parte do crítico Leo Gilson Ribeiro, o epíteto de "o maior escritor vivo em língua portuguesa" - e decidiu publicar, daqui para a frente, apenas histórias pornográficas. Bem-sucedidas, essas histórias, já em segunda edição por Massao Ohno Editor, serão seguidas por Contos de Escárnio e Maldizer, a ser lançado em setembro, pela Siciliano, e pelo Diário de um Sedutor, a sair em 91.

Passando alguns dias em São Paulo para realizar alguns exames no coração - nada de grave, talvez o coração do poeta esteja apenas cansado -, Hilda Hilst falou com exclusividade para A-Z.

LUCIDEZ
"Quanto mais você fica lúcido, mais perigosa também fica a vida. Eu cheguei num determinado momento, depois de repensar, trabalhar e meditar sobre a finitude e o descontentamento do homem, em que tudo se tornou muito terrível, fatal, desesperado.
Depois de trabalhar muitos anos nesses temas, você chega num momento perigoso. Você pode enveredar por caminhos terríveis, e há momentos em que não há mais onde chegar, onde mexer, principalmente se existe uma busca muito avassaladora dentro de você. Depois de ter escrito tudo que eu escrevi, e eu sei que escrevi lindamente, que modifiquei a prosa narrativa, eu tenho plena consciência disso, não aconteceu nada. Fiz uma revolução na língua portuguesa, enfoquei os problemas mais importantes do homem, procurei fazer o possível para o outro se conhecer. Fiz um lindo trabalho. E não aconteceu absolutamente nada, não fui lida. Houve apenas dois homens que se detiveram em meu trabalho: Leo Gilson Ribeiro e Anatol Rosenfeld."

ENGODOS
"Não acho que eu tenha que sair pelas ruas falando sobre meu próprio trabalho. Um escritor não tem a obrigação de falar bem, e além disso eu teria que ser uma beleza, fisicamente, porque as pessoas dizem "ih, ela está velha, ih", você viu. Nunca deu certo uma mulher medonha falar, só a Rosa de Luxemburgo, que era medonha e fazia multidões ficarem vidradas diante dela. É um desgaste pessoal enorme: além do dom da palavra, você tem de ser agradável, charmosa, aparecer com uma boa roupa. Tudo isso custa dinheiro, esforço, energia; você tem de dispender essa energia escrevendo, e não se mostrando. Tenho certeza de que, se eu aparecesse, daria certo. Mas eu considero isso um engodo."


PORNOGRAFIA
"Não foi a pornografia que me atraiu: foi a leveza. Achei que, para o meu músculo mental continuar ativo, eu devia optar pela leveza. Fiquei mais feliz assim. Eu só me divirto, não sei dar nome a esse riso, não sei se é pornográfico. Escrever livros como O Caderno Rosa modificou basicamente a minha vida: está sendo uma festa para mim. Estou contente lá dentro, começo a escrever e rio muito. Claro que, se isso não me divertir mais, eu vou parar de fazer. Mas vou até onde o meu fôlego de humor permitir, porque tem sido delicioso, para mim, agora, escrever. Era uma grande dificuldade antes, eu tremia diante da página. Então, enquanto for uma coisa feliz, eu vou continuar fazendo esse tipo de literatura."

NUDEZ
"Toda essa discussão sobre nudez na tevê e coisas assim parecem coisa vitoriana. E completamente tolo. Penso sempre em Theodor Schroeder, que diz que não existe um quadro ou um livro pornográfico, existe é um olhar diante daquilo. Hoje você morre de rir com O Amante de Lady Chaterley, do Lawrence. Ninguém mais fala aquele tipo de coisa que equivaleria a dizer "deixa-me oscular tua rósea orquídea". Todo mundo tem medo de nomear o corpo humano da cintura para baixo, isso é absurdo."

DROGAS
"As únicas drogas que não são tão perigosas são o álcool e o cigarro, talvez a maconha. Tem coisas medonhas, a heroína, aquela coisa que se fuma, o crack. Deviam mostrar os drogados morrendo, como também deviam mostrar os aidéticos morrendo. Deviam mostrar o terror mesmo."

EDITORES
"Eles são uns canalhas, os editores, a verdade é essa. Mandei uma caixa deste tamanho ao Luiz Schwarcz, da Companhia das Letras, com tudo que eu tinha escrito. Quando telefonei, ele foi seco. Simpático, educado e tal, mas seco. Entendi logo que ele não estava interessado. Ele, aliás, faz um tipo de coisa que já vem pronta; ele entrega o que já fez sucesso lá fora. O Caio Graco, da Brasiliense, foi a primeira pessoa a quem mandei O Caderno Rosa. Ele me disse ao telefone: "Não posso publicar, é chocante e escabroso". É um absurdo o que o editor faz com o escritor brasileiro. É ridículo, depois de 40 anos de trabalho, você receber como eu recebi por Com Meus Olhos de Cão, 30 mil cruzados em quatro anos. Eles não têm nenhuma vontade real de que o escritor apareça. É uma máfia. Parece que você tem de chupar o pau do editor, ser amante do amigo, uma loucura."


IMPRENSA
"Aquela matéria na Folha de São Paulo foi desagradabilíssima. Nenhum verdadeiro escritor escreve por fama ou dinheiro. O Camarada escreve por compulsão interior; nós somos uns obsessivos. Mas, de repente, numa cólera enorme, você deve desejar fazer alguma coisa para chamar atenção - não para você, mas para seu trabalho. Por que as grandes revistas não dão nada sobre literatura brasileira? Você pode ficar pelada amanhã na Barão de Itapetininga, como um gorro vermelho, que, se for um escritor brasileiro, nem assim você sai na Veja. Outro dia saiu no Caderno 2 do estadão uma porção de críticos falando sobre os melhores livros do mundo. Eles citaram basicamente autores estrangeiros - Joyce, Dostoievski, Stendhal -, mas nenhum deles citou a Clarice Lispector. Eu liguei para o Luiz Carlos Lisboa, no Jornal da Tarde, e falei: "Por que o JT não deu nada sobre a Lori Lamby?" Ele disse: "Hilda, São Paulo é uma cidade pudica". Muito bem, mas quando saiu a antologia de poemas eróticos organizada pelo José Carlos Paes, o Luiz Carlos Lisboa fez um artigo deste tamanho contando a história do erotismo a partir de Brahma, na Índia, e tal. E a antologia do José Paulo, por favor... erotismo é outra coisa - aquilo é pura bandalheira. Bandalheira da grossa."

PACTO
"Parece que os críticos adoram escritor morto. Você tem de morrer para ser lembrado. Eu até propus à Lygia Fagundes Telles: "Você atira em mim e eu atiro em você". Pode ser que assim falem da gente.

ESCRITORA
"Existe um grande preconceito contra a mulher escritora. Você não pode ser boa demais, não pode ter uma excelência muito grande. Se você tem essa excelência e ainda por cima é mulher, eles detestam e te cortam. Você tem de ser mediano e, se for mulher, só faltam te cuspir na cara. Há anos a Heloneida Studardt me disse: "Hilda, se você fosse um homem, escrevendo a prosa que você escreve, você seria conhecida no país inteiro."

OBSCENIDADE
"Quando foi publicada a minha novela Kadós, o Massao Ohno, que era o editor, mandou para uma gráfica que se chamava Santa Maria não sei do quê. Quando vieram as provas, sempre que aparecia a palavra cu, eles não punham. Aparecia co, ou ca, ou ci. Cu mesmo, nunca. O que há de errado com o cu, eu me perguntava. Eles achavam absurdo, deviam ser freirinhas ou noviços que manipulavam a gráfica, não sei. Obsceno não é o cu, mas as bombas Napalm. As verdadeiras obscenidades, as políticas, ninguém toca nisso."

SIMPÓSIO
"Ano passado eu fui nuns debates, uma coisa para educadores, e uma senhora me perguntou por que eu escrevia assim, dessa forma tão angustiada. Eu respondi: "Minha senhora, nós temos basicamente sete orifícios. Se a senhora não os lava a cada dia, a senhora fede. Isso não a angustia? Criou-se um problema horrível. Sim, a mim angustia profundamente ter de fazer essas coisas todo dia. Vem a história da finitudem da degradação do corpo. A carne acaba, e depois disso - depois disso, nada."

UNICAMP
"Tenho sobrevivido nos últimos anos graças à Unicamp. A Unicamp tem sido minha mãe, com o projeto Escritor Residente. Não sei se é a única, mas sei que foi a primeira universidade brasileira que fez esse projeto. A universidade devia ajudar mais o escritor brasileiro."

INTELECTUAL DO ANO
"Essa história foi muito engraçada. Acho que os membros da UBE (União Brasileira de Escritores) me escolheram pensando que não ia dar certo, claro que eu ia ter uns dois votos contra uns 300 do bispo Dom Paulo. Mas eu fui dando certo, ninguém sabe por que, e eu achando um absurdo - meu Deus, eu e o clero. Daí parece que houve alguma coisa terrível, parece que, pela Cúria, o Dom Paulo tinha de ganhar de qualquer jeito. Quando eu vi que não saía mais nada na imprensa, eu pensei 'bom, acho que ganhei, porque comigo é sempre assim, um silêncio absoluto'. Mesmo tendo perdido, agradeço a homenagem e tal, mas dá um pouco a impressão que 'intelectual do ano', é porque você ficou intelectual naquele ano, foi alfabetizada e ficou cultíssima..."

ALEMÃES
"Não sei bem por que, mas eu vejo o humor imediatamente nos alemães. Numa das histórias que escrevi, uma das partes mais engraçadas é um diálogo entre uma mulher e um alemão chamado Otto. Ele diz assim: 'non gostarr, senhora Eulália, do jeito que senhora chuparr o meu pau'. E ela: 'mas por que, seu Otto?'. E ele: 'Porque a senhorra fazerr cara de nojo, no gostarr'. E a mulher: "Bom, seu Otto, eu vou tentar fazer melhor e tal'. O alemão tem alguma coisa de hilário. Veja só vagina, em alemão, não lembro agora, mas é uma palavra deste tamanho, uma coisa absurda."

ANTI-AIDS
"Eu acho que o livro pornográfico é uma coisa anti-Aids. Lendo literatura erótica, você pode voltar a esse hábito solitário que várias pessoas extraordinárias acharam extraordinário também. Porque tem essa coisa católica, desde criança você ouve a mãezinha falando para o filhinho 'não se masturbe, meu bem, você vai morrer'. É o contrário: acho formidável hoje você ler um livro pornô e se masturbar. Não é melhor do que pegar Aids e morrer?"

CAZUZA
"Acho terríveis essas declarações que o Cazuza fazia: 'A droga me abriu a cabeça', 'A Aids é contra a sacanagem', 'Não sou um aidético casto'. Se eu ficasse aidética, me poria de joelhos no deserto, tomando água e só. Eu tive contato pessoal com a Aids através do meu sobrinho, que morreu em feverereiro. É horrível a pessoa morrer de Aids; não pode ficar essa imagem engraçada, porque é uma coisa horrenda. Esses tipos de frases do Cazuza são um absurdo porque você não pode brincar com essa coisa. As pessoas não podem pensar que é brincadeira."

LITERATURA
"A literatura tem de refletir o cara que está escrevendo, como ele é diante do mundo. A única forma de você passar alguma coisa real para o outro é já ter vivenciado aquilo, realmente. Você não pode mentir, quando escreve. A única coisa que não é permitida na literatura é mentir."

OUTROS ESCRITORES
"Existem ótimos escritores por aí. Existe, por exemplo, o João Silvério Trevisan, que é de primeira linha.Vagas Notícias de Melinha Marchiotti é excelente. Esse ensaio dele, Devassos no Paraíso, é o melhor ensaio que já li sobre homossexualismo. Ele demorou oito anos trabalhando, e não aconteceu nada, ele é recusado pelas editoras. Por que essa moça, Ana Miranda, conseguiu ser editada? Todo mundo já falou lindamente sobre Gregório de Mattos... O que acontece é que escritor brasileiro é um coitado. Os editores não aceitam o autor pensando, o autor brasileiro não pode pensar. Aqui está cheio de escritores bons para os editores investirem."

JECA-PORNÔ
"Adoro essas histórias que ando escrevendo com personagens rurais, ou que não sabem falar direito o português. É o que eu chamo de jeca-pornô, como a história daquele moço chamado Edernir, que está na Lori Lamby. Eu tenho um dicionário ótimo de palavrões, que o meu médico dermatologista me deu, dum cara chamado não sei o quê Souto Maior. É lindo, você precisa ver tudo que tem lá. Todos os sinônimos fantásticos de crica, vagina..."

PORNOGRAFIA II
"Ninguém chegou a uma conclusão sobre o que é pornografia. Me pergunto se seria o ultraje ao espírito do homem, seria uma coisa assim? Talvez o obsceno profundo, que seria um enfoque completamente diferente, seja aquele em que a lucidez do personagem é tão grande que a coisa fica obscena. Mas essas brincadeiras que tenho escrito, você não pode dizer que sejam obscenas ou pornográficas. E não entendo por que muita gente ficou tão ofendida com a Lori Lamby. Eu dei para Wesley Duke Lee ler, que eu julgava um homem do mundo, aberto e tudo, e ele disse: 'É horrível, Hilda. Que coisa horrorosa, é um lixo o que você escreveu'. Tenho um amigo, articulista de um grande jornal, que leu os Contos de Escárnio e Maldizer e falou: 'Não publique isso, porque é perigoso'. Não entendo, Aqueles contos da Anais Nin, por exemplo, são finos demais, delicados. Não são para tempos de Aids, as coisas têm de ser mais pesadas, para você ter aquele prazer que, lendo Anais Nin, você não tem."

LINGUA PORTUGUESA
"Eu sei que escrevo muito melhor que muitas mulheres européias e americanas. Mas quem é que fala o português? Bem, milhões de pessoas falam, mas ninguém lê nessa língua. Lá em Goa, Guiné-Bissau, Moçambique, todo mundo deve falar na feira: quanto custa esse tomate? e essa alface? O abacate está bom? Não adianta milhões de pessoas falarem, se ninguém lê. E até no caso de você querer ler um livro erótico a dois para se masturbar com o seu parceiro, vai ser dificílimo. Naturalmente, você teria de ir para a Europa ou Estados Unidos, porque, com 70% de analfabetos por aqui, vai ser difícil encontrar não só um parceiro, mas ainda por cima que leia."


terça-feira, 12 de junho de 2018

Caio Fernando Abreu volta à Companhia das Letras


Os Dragões Não Conhecem o Paraíso, Onde Andará Dulce Veiga e o póstumo Estranhos Estrangeiros saíram pela Companhia das Letras, em 1988, 1990 e 1996, respectivamente. Depois, a obra de Caio Fernando Abreu passou por várias editoras. Agora, a cia das letras anuncia a publicação de sete livros do autor. Contos Completos (capa acima), o primeiro, sai no final de julho. Com mais de 700 páginas, reúne os seis livros de contos de Caio F. e mais dez textos avulsos. Deve ser edição caprichada e Caio F. ficaria feliz com seus contos todos reunidos, como aconteceu há pouco com os de Clarice Lispector.

Abaixo, o folheto onde a editora anuncia o lançamento dos livros de Caio F. E na frente, um trecho do conto Os Dragões Não Conhecem o Paraíso



sábado, 9 de junho de 2018

Oracão à Paranóia



                                Publicado no Nicolau, jornal cultural de Curitiba, em 1989

terça-feira, 3 de abril de 2018

"É um escritor que nasce adulto": resenha do primeiro romance de Caio F.

Limite Branco, o primeiro romance de Caio Fernando Abreu, foi lançado logo após o livro de contos Inventário do Irremediável. Esta resenha foi publicada no Diário do Paraná, em 31 de janeiro de 1971. É interessante lê-la após tantos anos. Abaixo dois trechos:

"Com 22 anos de idade, Caio Fernando Abreu é alguma coisa mais que um escritor jovem, algo mais do que uma simples promessa: é um escritor que nasce adulto."

"Não se enganem: a sinceridade, a verdade pessoal e o dom de escritor destas páginas fazem delas não um simples romance de estréia, mas um romance talentoso e maduro."



domingo, 25 de fevereiro de 2018

A hora da estrela de cinema de Caio F.

22 anos da morte de Caio F. hoje. Aqui, a hora da estrela de cinema do belo: uma participação especial em Perfume de Gardênia, de Guilherme de Almeida Prado.