terça-feira, 12 de junho de 2018

Caio Fernando Abreu volta à Companhia das Letras


Os Dragões Não Conhecem o Paraíso, Onde Andará Dulce Veiga e o póstumo Estranhos Estrangeiros saíram pela Companhia das Letras, em 1988, 1990 e 1996, respectivamente. Depois, a obra de Caio Fernando Abreu passou por várias editoras. Agora, a cia das letras anuncia a publicação de sete livros do autor. Contos Completos (capa acima), o primeiro, sai no final de julho. Com mais de 700 páginas, reúne os seis livros de contos de Caio F. e mais dez textos avulsos. Deve ser edição caprichada e Caio F. ficaria feliz com seus contos todos reunidos, como aconteceu há pouco com os de Clarice Lispector.

Abaixo, o folheto onde a editora anuncia o lançamento dos livros de Caio F. E na frente, um trecho do conto Os Dragões Não Conhecem o Paraíso



sábado, 9 de junho de 2018

Oracão à Paranóia



                                Publicado no Nicolau, jornal cultural de Curitiba, em 1989

terça-feira, 3 de abril de 2018

"É um escritor que nasce adulto": resenha do primeiro romance de Caio F.

Limite Branco, o primeiro romance de Caio Fernando Abreu, foi lançado logo após o livro de contos Inventário do Irremediável. Esta resenha foi publicada no Diário do Paraná, em 31 de janeiro de 1971. É interessante lê-la após tantos anos. Abaixo dois trechos:

"Com 22 anos de idade, Caio Fernando Abreu é alguma coisa mais que um escritor jovem, algo mais do que uma simples promessa: é um escritor que nasce adulto."

"Não se enganem: a sinceridade, a verdade pessoal e o dom de escritor destas páginas fazem delas não um simples romance de estréia, mas um romance talentoso e maduro."



domingo, 25 de fevereiro de 2018

A hora da estrela de cinema de Caio F.

22 anos da morte de Caio F. hoje. Aqui, a hora da estrela de cinema do belo: uma participação especial em Perfume de Gardênia, de Guilherme de Almeida Prado.



quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Viver é expor-se ao perigo. Escrever também



A capa

Era 1976 e Caio Fernando de Abreu foi um dos sete novos escritores brasileiros reunidos pelo jornal alternativo Opinião para falar sobre a literatura brasileira.  "Eles não são best-sellers, nem costumam dar entrevistas sobre o boom literário que, acreditam alguns, assola o país. São apenas escritores, cientes de que existem polêmicas mais urgentes do que, por exemplo, a divisão entre populistas e vanguardistas".  Sete autores contra o beletrismo e as panelinhas literárias era o título da matéria de capa da edição de abril, quatro páginas. Caio tinha  já havia lançado três livros: Inventário do Irremediável, Limite Branco e O Ovo Apunhalado. Abaixo o que ele falou na entrevista - segue a pergunta e sem o que os demais entrevistados falaram



A abertura da matéria

Opinião: Qual é o papel social do escritor no Brasil e na América Latina hoje em dia?

Caio F.: O papel social do escritor no Brasil, na América Latina e no mundo inteiro será sempre, e sob quaisquer condições, lutar pela liberdade de expressão.O intelectual será sempre um contestador. Denunciar, sempre, é a sua função. Denunciar a violência, a corrupção, a repressão, a intolerância. Ajudar na recuperação da dignidade humana.

Opinião: Mas existem fatores imediatos que agravam esta crise, que condicional hoje, de forma diferente, a expressão literária?

Caio F: Impossível separar, hierarquizar: é um todo. As barreiras do escritor brasileiro em relação à literatura são as mesmas do homem brasileiro em relação à vida. Ao outro. A si mesmo.

Opinião: Mas então não existem vínculos?

Caio F: O presente é sempre resultante do passado, uma consequência. Ninguém se desvencilha, facilmente, de suas origens, de suas raízes. Mas creio que um escritor deva ser fundalmente um homem de seu tempo. Seria ridículo, irreal e anacrônico escrever, em 1976, como Machado de Assis, por exemplo. Mas para compreender o presente, devemos conhecer o passado, a História. Para nos libertarmos do passado é necessário assumir o presente. E encarar o futuro, se é que ele existe.

Opinião: Parece que predomina, nesses termos, a personalização da obra, não há propriamente um movimento literário, em termos organizados, certo?

Caio F: Eu não sei, não... Dizem que escrever um romance hoje em dia  é procurar a melhor maneira de assassinar o romance. Não acredito nisso. O romance já foi assassinado por Joyce, faz muito tempo. E entre nós, por Oswald e Mario de Andrade. Não gosto dessa diferenciação conto-novela-romance. Existem textos de ficção. A rigidez só pode limitar. A liberdade total de criação é o caminho. Não só em literatura, mas em qualquer forma de arte, e também na vida.

Opinião: E que lugar ocupa o Realismo Mágico na literatura brasileira?

Caio F: O Realismo Mágico tem na literatura brasileira o mesmo lugar que em outros sistemas sociais semelhantes. Na medida em que não se permite ao artista ser claro, ele recorre à metáfora do presente. Mas também existe o pseudo-Realismo Mágico sem vínculo algum com a realidade. Não é nada disso. Trata-se, repito, de assumir o nosso tempo. Aqui e agora.

Opinião: E o autor jovem deve lutar, então, para ser editado?

Caio F: Lutar não só para ser editado, mas também para ser distribuído - o maior problema - divulgado e lido. Lutar sempre. Impor a nossa presença. Não permitir que nos vaporizem ou invisibilizem. Existimos e temos muito para contar, e acreditamos em nossas histórias, em nossas vivências. Se achamos que podemos dar ao outro algo de bom, então vamos lá. Fé cega e faca muito bem amolado. 1976 é o ano de São Jorge. Afiar a lança para matar novamente o dragão
.
Opinião: Mas nós já discutimos os condicionantes, e já falamos a respeito do consumismo que grassa por aí. Lutar, certo, de peito aberto, sim, mas e os riscos que se corre?

Caio F: O risco a que eu me exponho, publicando, é o mesmo que corro estando vivo. Mas, realmente vivo, consciente e participante. Viver é expor-se ao perigo. Escrever também. Sempre tem um Hélio Pólvora nos acusando de plagiar um conto que nunca lemos. Medo? Porquê? Se não somos editados, não somos distribuídos, não somos divulgados, não somos lidos e nem sequer respeitados em nossa integridade, o que temos a perder?

Opinião: E não é nesse contexto que se formam as panelinhas?

Caio F: Existe uma lealdade básica que não deveria ser atraiçoada. As coisas só são fortes se forem grupais. Divisões internas, competiçoezinhas provincianas, panelinhas? Ridículo e inútil. Como diz Nei Duclós, poeta gaúcho, em Outubro: "Confio na solidão que nos une / e na vontade de quebrar tudo / que cresce aos poucos como um fruto".



segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Adivinhe quem vem para roubar



Em 1993, Caio F. escreve sobre a volta dele. De quem? "não digo nem escrevo o nome dele", ele escreve. "E não digo que volte direto por cima (embora seja essa a meta), mas passo a passo. Deputado, senador." Pois, quase 25 anos depois dessa coluna de Caio, o tal anuncia que está na disputa à presidência. Abaixo a coluna

                                         Adivinhe quem vem para roubar

Fiquem atentos, ele quer voltar. Nas últimas semanas, aqui e ali pelos jornais, encontro notas sobre a mudança para São Paulo, sobre o livro que está escrevendo e até mesmo algum artigo estofado de palavras gordas tipo justiça, pátria, dignidade. Em fotos recentes, continua com aquele ar entre o pinguim de geladeira e ator canastrão de melodrama chicano, agora acrescido de certa aura estudadamente humilde. Como se quissesse deixar bem claro que sofreu-e-aprendeu-com-o-sofrimento. Atenção, a cilada está se armando. Como antes, tão lenta que mal se percebe.

Porque ele é espertíssimo. E não digo que volte direto por cima (embora seja essa a meta), mas passo a passo. Deputado, senador. No começo, não recusará os mais insignificantes espaços da mídia - e esta, o que é horrível, lhe dará espaços cada vez maiores, mais nobres. (Se é que se pode usar a palavra "nobre" em situação desse tipo.) Também porque virá o livro, e haverá o pretexto de divulgá-lo e naturalmente vendê-lo. Aos quilos, lógico. Tudo é business, aqui e no Haiti.

Até que, num final de semana, você vai tropeçar na cara dele na capa das principais revistas do país. Humílimo, sofridérrimo, luzes acentuando certas rugas amargas, certas sombras, quase santo. E enquanto rolarem inimagináveis conchavos políticos por trás, a imagem começará a nos bombardear de novo. Já imagino os sentimentos coletivos a serem utilizados em slogans autopunitivos e maquiavélicos: erramos, fomos injustos, nunca é tarde para corrigir um erro. Ele vai declarar que tinha certeza de que não o deixariam só, como pedira, que o povo brasileiro, minha gente, não o trairia, que agora sim vamos retomar o crescimento e a arrancada em direção ao século XXI e patati-patatá, lembram?

Quando chegar o momento, virão votos em penca das regiões mais medonhas do país. Como da outra vez. Haverá fraudes, acidentes providenciais em caminhões que conduziriam eleitores do outro candidato - e isso y otras cositas, jamais será esclarecido. Em seguida, estonteantes viagens internacionais, superjatos, transatlânticos, jet skis, talvez um novo casamento (o anterior, convenhamos, é difícil reabilitar). Sugiro: Lady Di após o divórcio, ou Madonna (já que ela vem aí, não custa tentar. No caso de elas não toparem, quem sabe Sula Miranda (aquela porção sertaneja)? E por que não Xuxa, tão solitária e combalida sob o peso daquela estressante montanha de dólares?

Calma, também não precisa delirar... mas ele quer voltar, do fundo mais lodoso de minha paranóia congênita - acho claríssimo. Ele sabe que, das muitas doenças graves que afligem o país, a mais grave é talvez não suportar a própria cara. Como da outra vez, quando em vez da rude cara operária do outro preferiram a empoada dele, simulacro estúpido dos galãs de TV. Como se votando nele se tornassem ele.

E os caras-pintadas, meu Deus, vão ficar com as caras no chão! Aprenderão na carne aquilo que sempre ouviram dizer: o Brasil, meus filhos, é um país sem memória. Tanto que, até hoje, ainda não percebeu que este horror onde estamos atolados não passa do saldo legado por ele. A impunidade para ele e seus capangas nos deixou uma inversão moral nojenta: se você é honesto, você é trouxa. Não viram ele? Se ainda não, arregalem bem os fatigados olhos: exatamente um ano depois de ter sido corrido, armando todas para voltar.

Não digo nem escrevo o nome dele. Como aquela palavra, o contrário de sorte, cuja carga negativa desaba sobre quem a pronuncia. Pois isso é o que vai acontecer a quem se deixar enganar outra vez. Não digam que não avisei. Só vai ser difícil me achar para dizer qualquer coisa. Porque se isso acontecer mesmo - além da imaginação - peço aos amigos que me joguem num hospício e me deixem lá. Incomunicável.

                     O Estado de S. Paulo, Caderno 2, 3 de outubro de 1993





quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Lamúrias com chantilli

Daí um senhor das Minas Gerais escreve para reclamar das lamúrias de Caio F. e ele, que nunca responde cartas de leitores, responde. A crônica é uma maravilha. Uma espécie de resposta aos haters, antes das redes sociais.


                                      Lamúrias com chantilli

Só mesmo as mães são felizes.
Ou: caretas de Paris e New
York sem mágoas estamos aí

Recebo muitas cartas de leitores. Nem sempre - ou quase nunca -  respondo. Fico contente e grato, mas não tenho tempo.  Também porque a maioria é tão legal que nem pede resposta. Só dizem coisas boas, dão força. Ter leitores me espanta, não consigo acreditar muito nisso. As cartas, alguns telefonemas também, desmentem essa sensação. E é aí que sinto medo, porque vem o peso da responsabilidade sobre o que dizer. Mas se deixo o medo baixar, eu travo e não escrevo nada. Então, quando sento para escrever, é como se não tivesse leitor algum em parte alguma do mundo. Fico só preocupado em dizer alguma coisa que eu mesmo realmente acredite. Que seja verdade dentro de mim, e assim será muito amplo: porque eu sou todo mundo, entende? Quem é da mesma família, entende sem muita explicação. Quem não é, fazer o quê? Dar detalhe cansa.
Mas eis que, semana passada, chegou uma carta irada. Um senhor lá das Minas Gerais dizia-se cansado das minhas "lamúrias". Falava coisas como "pessimismo mórbido e doentio" (oh Deus, estes oito anos de análise e uma alta servem pra quê? e - medo - dizia-se temeroso que eu "influenciasse os jovens a cometer suicídio". Nefasto Caio F.: seria eu tão poderoso e fatal assim? Uma espécie de Jim Jones da crônica.
Isola rápido. Ô, meu senhor, não quero isso não. Queria outro mundo, outra ordem social, outras relações humanas - e me sinto um tanto idiota tentando explicar o que me parece óbvio. Mais carinho, mais beleza, mais justiça, mais alegria. Qualquer coisa que qualquer pessoa razoavelmente normal (mas "de perto ninguém é normal", lembra?) quer. Mesmo um punk, só que o jeito de querer do punk é do avesso. E o avesso é um jeito tão bom quanto qualquer outro. Além disso, não tem só cara e coroa. Tem cara, coroa - e quina também.
E é aí que não entendo certas pessoas. Principalmente essas que chamo de "as trolhas do apocalipse". Sabe aquelas bem-intencionadérrimas? Sabe aquela linha o-que-será-do-futuro-de-nossas-criancinhas? Sabe aquela linha vamos-valorizar-o-sorriso-de-uma-criança-o-voo-de-uma-borboleta-e-o-azul-do-firmamento? Viver é barra, meu senhor, Deus é naja e o amor - com licença de Maria Rita Kehh - é uma droga pesada. E nada tenho contra najas, barras e drogas pesadas. Só não acho que fazer aquele cretiníssimo "jogo-do-contente" de Pollyana seja a melhor maneira de enfrentar e compreender o real. Todo mundo é médico e monstro. A vida também. Você deve ficar ao lado do médico, mas encarar o monstro quando ele pinta. Senão, meu caro, um dia ele te devora.
Acho que todo mundo interessado em situar-se um pouco nestes anos 80 deveria ouvir pelo menos uma vez Só as Mães São Felizes, de Cazuza. Tá tudo lá. Amargura não existe, quando se tenta compreender. E pessimismo, pra mim, é palavra sem sentido quando penso em Chernobyl ou Cubatão. Nem sempre o que é fácil é bom - me dizia um Dragão, naquele domingo de chuva no aeroporto. Auto conhecimento, e por extensão inevitável o conhecimento dos outros e do mundo, não é exatamente um mar de rosas. Mas nunca tive medo de nada - de dentro ou de fora - que pudesse ampliar minha consciência. Acho que esse é o único jeito digno de ser. Por isso mesmo, durmo em paz toda noite. Muitas vezes só, confuso, angustiado, assustado - mas absolutamente certo que sou uma pessoa legal. Ainda não nasceu a trolha do apocalipse capaz de me provar o contrário.
Metade luz, metade treva. E esse fio de navalha entre os dois, corda bamba afiada onde você, sombrinha aberta da mão, pé ante pé se equilibra. Ou tenta. Sem rede de segurança, mas com um sorriso nos lábios, e um grande, sonoro, enorme axé! no coração. Pra todos nós.
 OESP, Caderno 2, quinta-feira, 9 de outubro de 1986