segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

FH continuará sorrindo colorido?

Das lembranças que levarei de 1995, uma certamente permanecerá: o sorriso de Fernando Henrique Cardoso. Muita coisa que ontem parecia importante ou significativa amanhã virará pó no filtro da memória. Mas o sorriso de FH, ah, esse resistirá a todas as ciladas do tempo.
Ficarão terremotos, vulcões, maremotos, incêndios, enchentes dantescas, como se o sistema imunológico da Terra estivesse entrando em pane. O planeta elegante, febril, suarento, explodindo em rumores, chiliques e calafrios naturais de todo o tipo. Um corpo doente avisando aos seus microscópicos vírus predadores (nós, baby) que OK, vocês estão vencendo boys. Façam alguma coisa já. Ou danem-se. Na mesma enfermaria, guardarei as informações alarmantes sobre o rombo na camada de ozônio, talvez o sintoma mais grave da peste que assola Gaia, assunto espantosamente tratado como parte das amenidades da mídia. Diretamente ligadas, ressoarão por muito tempo em nossos ouvidos as explosões abaladas feito soluços lá no fundo do Pacífico Sul, no genocídio ecológico cinicamente perpetrado pelo porco Jacques Chirac. Vem cá, ninguém vai dar um tiro nos cornos dessa anta? Porque o Greenpeace é mais pra Gabeira do que pra Trotsky, meu bem.
Enquanto isso, FH sorri. Policromático feito os cabelos de Esther Grossi. Que ficará, ao lado de Marta Suplicy. E o Ibsen, hein?
Triste, levarei comigo as imagens de Paris imersa no caos. E todo o sangue da Iugoslávia, os horrores do Zaire, da África Central minada pela Aids. Como não sou mazô, levarei também futilidade: Lady Di detonando a família imperial, depois partindo para a Argentina com seu quê de drag queen adolescente. Di é a Jackie O. dos anos 90.

Das grandes alegrias culturais na minha bagagem, a primeira delas é a ressurreição do cinema brasileiro com Guilherme de Almeida Prado, Walter Salles, Ugo Giorgetti, Carla Camuratti, Norma Bengell, Cacá Diegues, Suzana Amaral, Fábio Barreto, o irmão Mainardi e muitos mais – gente que faz (alô, alô Ana Carolina), além da saudade de David Neves, de quem restou a herança de As Meninas. Ninguém percebeu o grande ano que 1995 foi para a literatura nacional. Basta citar Quase Memória, de Carlos Heitor Cony, o melhor romance; Risco de Vida, de Alberto Guzik; A Última Quimera, de Ana Miranda (minimizado pela crítica); o genial Sherlock de Jô Soares; a biografia de Clarice Lispector, de Nádia Batella; Rubem Fonseca em excelente forma. Ivan Ângelo, Ignácio de Loyola, Chico Buarque, Patrícia Mello, Cristóvão Tezza, Bernardo Carvalho, o grande contista gaúcho Sergio Faraco (LPM, procurem Contos Completos urgente). Para coroar o ano, rainha absoluta, Lygia Fagundes Telles e A Noite Escura e Mais Eu, talvez sua obra-prima. E um escândalo: a retirada das livrarias da honestíssima biografia de Garrincha de Ruy Castro, como nos tempos do militarismo. Ninguém faz nada, pô?
A todas essas, FH sorri. Na China, Estados Unidos, Oropa, França e Bahia. Monocromático, em preto-e-branco, tropeçando naquela revista às tropas ao lado de Bill Clinton ou usando aquela estonteante fantasia de Apoteose da Criatura Ocidental em Coimbra. Vixe, como sorri.
Uma novela brasileira, A Próxima Vítima, do trio-maravilha Silvio de Abreu, Maria Adelaide Amaral e Alcides Nogueira; o Brasil Legal, de Regina Casé; delícias de Comédias da Vida Privada, com seu elenco cult – isso ficará. Do pouco que vi em teatro, Três Mulheres Altas, do dilacerante Edward Albee (Maria Adelaide traduziu), direção essencial de José Possi Neto para três atrizes soberbas: Beatriz Segall, Nathalia Timberg e Marisa Orth (superada a fase bobajol), e Como Diria Montaigne, Alcione Araújo dirigido por Luiz Arhur Nunes, com uma estupenda Ivone Hoffmann. Das tardes sonoras, ressoará doce a voz de Caetano sussurrando as cantigas em espanhol de Fina Estampa; a nobreza de Péricles Cavalcanti; a seriedade comovida de Adriana Calcanhotto em A Fábrica do Poema; os tangos e boleros de Cida Moreira em Elogio, Borges by Denise Stoklos. E Mamonas Assassinas mais Skank no rádio, por que não? Ficará um filme como O Padre, também Almodóvar, mas sobretudo Theo Angelopoulos. E tanta, tanta coisa (Romário e Edmundo e Galisteu, não!) que o espaço, sorry acabou.
Pergunto-me em alas se em 1996 FH continuará sorrindo colorido. Bueno, desde que não seja amarelo, né?

                                                   OESP – 31 dezembro 1995

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

A Aids é a minha cara: Anos de Chumbo



No hospital, fiquei amarrado numa maca, nu, sem poder me mover. Dois dias num corredor, com frio, e ninguém me dava um cobertor. Acho que fiquei delirando, acordava e dormia, e só lembrava de filmes, principalmente Frances, com Jessica Lange. O que achei até meio chique. Dois dias depois acordei numa cama. Minha irmã, Cláudia, entrou no quarto, nos abraçamos e choramos. Fiquei dois meses no hospital. Comecei a tomar AZT.

Também me diverti muito. Fiz amizade com muitas enfermeiras – habituadas a lidar com as verdades da vida, são pessoas diretas e sinceras – com todo mundo. O cara que fazia a faxina era pai-de-santo, uma outra enfermeira fazia parte de um grupo que tinha contatos com uma civilização extraterrestre, uma médica era kardecista, uma psicóloga me disse que tinha feito uma masectomia e estava toda ligada em anjos. O médico que me tratava era meu leitor. Ele teve um cuidado especial comigo e fiquei confiando nele. Eu pensava: “Bom, se o Francisco gosta do que escrevo, não vai querer me matar”. Quando saí do hospital , tudo me parecia tão precioso.
Como não escondi, desde o primeiro momento, que estava com Aids, não tive vergonha. Quando a gente não esconde, não há rejeição. Posso contar nos dedos de uma mão as pessoas que pararam de ligar. Nenhum amigo íntimo desapareceu. E tem uns, como a escritora Lygia Fagundes Telles, que ligam toda semana. Talvez eu tenha sorte, meus amigos sejam muito bons. Ou talvez, no meio em que eu circulo, isso já virou meio arroz-de-festa, ninguém mais nota a questão da Aids.
Mas quando entro no avião as pessoas se cutucam, me viram na TV e dizem: “Esse aí é o Caio Fernando Abreu, o escritor que está com Aids”. Recentemente dei um grito no avião. Duas peruas se cutucavam e cochichavam. Fiquei impaciente e disse aos berros: “Sou eu mesmo, o que foi?” Elas ficaram envergonhadas. Na maioria das pessoas senti uma coisa solidária, às vezes um pouco tensa. Elas não sabem muito bem o que fazer comigo.
A Aids mudou a relação das pessoas com o sexo. Deu origem até a coisas não muito boas, como o sexo por telefone, sexo por computador. Nesse sentido, nos deixou muito mais solitários com a nossa libido. Tocar o outro é uma aventura. Há dez anos era uma coisa banal. Isso é manipulado pela sociedade, pela igreja. Eu tenho amigos e amigas que não treparam mais. A camisinha pode rasgar, tem orifícios minúsculos. Eles ficaram paranóicos. O mundo contemporâneo está conduzindo o ser humano a uma grande solidão.
Não fiquei santificado com a doença. De alguma forma, sempre busquei a religiosidadee acreditei que este plano é ilusão. Uma passagem para tentar melhorar nós mesmos. Minha parte são os livros, uma tentativa de ajudar as pessoas a se conhecerem. Sou muito ligado em candomblé, e isso está refletido no trabalho. Meu romance Onde Andará Dulce Veiga? tem a estrutura hierárquica de um jogo de búzios. Todos os orixás são invocados no livro. O primeiro é Exu, que estabelece a ligação entre o humano e o divino.
Em agosto do ano passado, fiquei hospitalizado. Saí em setembro, vim para Porto Alegre, juntei forças e fui, no mês seguinte, à Feira do Livro de Frankfurt, na Alemanha. E retornei definitivamente. É gostoso voltar a morar com os pais, voltar à própria cidade. Descobri que os lugares não existem. Passam a existir quando se olha para eles e se adjetiva o lugar. Meu corpo está aqui. Não tenho a menor necessidade de sair daqui.
Muitos amigos foram embora, outros moram no Rio e Sâo Paulo. Por aqui, vejo o Luciano Alabarse, diretor de teatro gaúcho, falo com a escritora Lya Luft. E tenho um bom amigo, que conheci há uns dois anos, que se chama Léo de Oxalá – é um pai-de-santo. Não vou me relacionar com pessoas que ficam dizendo coisas desagradáveis. Tem os que sumiram por causa da Aids. Compreendo. Eu mesmo, quando alguns amigos ficaram doentes, fugi. Era o medo do espelho, talvez.
Que bom que eu tenho um tempo determinado. Posso me concentrar nas coisas que quero fazer. Posso escrever. Agora publiquei Ovelhas Negras, restos que nunca joguei fora. É o que foi ficando na gaveta desde os 14 anos de idade. Uma tentativa de revisar a mim mesmo. Parece um pouco com um livro póstumo e é uma maneira de fazer isso antes de morrer, revisando eu mesmo minha obra. O livro é uma passagem por momentos meus e do país: a ditadura, o sonho hippie, o exílio, a Aids. Tinha medo de não conseguir terminar o livro. Mas ele está aí, juntei tudo, já que vou morrer.
No livro tem uma história que foi censurada pelo Jornal do Brasil na época da eleição do Collor. O jornal pediu para o Márcio Souza escrever sobre o Lula e eu faria o mesmo com o Collor. Escrevi a história de um menino que sonha com um garoto ruivo e manco. No dia seguinte, vai para as pedras do Arpoador, no Rio, e lá aparece o garoto. Ele pergunta ao menino Collor se quer ser o dono de um país inteiro. Ele diz sim. E o garoto acaba comendo ele – era o demônio. O conto se chama O Escolhido. O José Castello, que era o editor, disse que a cúpula do jornal optou por não publicar. Quando o Collor ganhou, liguei e disse: “Por causa de covardia como a de vocês é que o cara foi eleito”. Tive receio de publicá-lo no livro. Acho que o caso do irmão, Pedro Collor, foi coisa de magia negra.
Tem uma coisa da Aids que é preocupante. Um dia eu estava no Theatro São Pedro, em Porto Alegre, uma mulher atravessou o saguão e disse: “Deixe-me abraçá-lo. Você foi escolhido”. Eu agradeci. Ora, escolhido! Eu desejo saúde. A Aids não é um castigo de Deus. Pode ser um castigo no sentido de que a natureza foi violada demais. Então o homem tem que ser punido. O planeta, Gaia, é um organismo vivo, como uma planta.
Não sei quanto tempo tenho pela frente. O Betinho está aí há sete ou oito anos. Fisicamente não tenho nada. A única coisa grave é o sarcoma de Kaposi, uma forma rara de câncer na pele. Essa mancha no nariz é uma das lesões que eu queimei. O problema é que eu tenho por todo o corpo, e pode dar por dentro do corpo. É uma das infecções oportunistas. No hospital Emílio Ribas, vi um rapaz com esse câncer na boca, do tamanho de uma bola de tênis. Tenho horror da deformação.
Aprendi comigo mesmo a sair do próprio bode. Acho que todas as pessoas deveriam pensar no lado da luz. Está com vontade de se matar? Tudo bem, toma um banho, vai ao cinema, compra umas flores. Ficar trancado no quarto não vai resolver os problemas. Ora, vai na locadora, pega um vídeo da Doris Day e pronto!
Depois que fiquei doente, minha auto-estima não diminuiu. A minha vaidade é que acabou. E a coisa é irônica comigo, a doença me atingiu no rosto. Meus valores passaram a ser outros. A viagem delirante do ego parou de existir. Não preciso provar mais nada. Agora quero ter saúde e continuar meu trabalho. Ultimamente eu respondo assim aos que se queixam pra mim: “Pensa no Zaire”. “

              Depoimento a Fátima Torri - Revista Marie Claire  - Set 1995

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

A Aids é a minha cara: Anos Rebeldes

Não acredito em homossexualidade ou heterossexualidade. Acho que o que chamamos de civilização, e todos os seus condicionamentos culturais e sociais, nos encaminharam para essa camisa-de-força que é a definição de um papel sexual. Durante muito tempo senti que minha sensibilidade era feminina, mas nunca senti vontade de vestir roupa de mulher. Sempre fui um bissexual atípico, tenho horror a bicha gritando em barzinho de gays. Meus amigos são mulheres ou heterossexuais. Entremeei as relações com homens e mulheres. Mas as histórias com homens foram muito complicadas.
Sou PhD em desilusão amorosa. O homossexual masculino é muito galinha, muito sedutor. Fui muito honesto nas relações, não sei jogar. Odeio quando o amor se transforma em violência, competição, morbidez. Eu sou muito jeca afetivamente. Nunca fui uma pessoa promíscua. Aos 46 anos, estou cansado. Quando os amigos falam do amor e das frustrações, eu me sinto tão distante...Acho que Deus, o grande amor, é a procura do conforto original, o útero materno, a tentativa de voltar para essa situação.
Tive várias namoradas, poderia ter dois filhos, que foram abortados de comum acordo. Tive três namoradas sérias. A Cacaia, Maria Clara Jorge, foi a mais séria, durou três anos e com ela eu teria um filho que, agora, deveria ter uns 25 anos. Foi uma época de muita cocaína, durante um carnaval no Rio. Ficamos trancados no apartamento, cheirando pó loucamente. Ela ficou grávida. Aí pensamos que a criança nasceria deformada, nasceria um monstro. Antes dela, tive uma namorada arquiteta, a Pifa, Helena – qual o sobrenome mesmo? – que virou adepta do guru Rajneesh. A Maria Luisa Bender foi outro grande amor, que conheci na Companhia das Letras.
Gostaria muito de ter tido filhos. Aí penso o que faria se os tivesse. Eu, doente, com Aids, e meus filhos lá com as mães – como ia ser isso na cabeça deles? Recentemente fui ao Rio e vi a Cacaia, com quem poderia ter tido um de meus filhos. Ela agora tem uma filhinha, Emília, com cinco anos. Ela me apresentou para a filha e disse: “Vem ver o amigo da mamãe que está com Aids”. É o mundo de hoje.
Desde a primeira vez que ouvi falar em Aids, quando vi na televisão o anúncio da morte do costureiro Markito, em 1983, percebi que tinha a ver comigo. Na época, a Aids dava exclusivamente em homossexuais e era conhecida como câncer gay. Era ainda uma novidade muito grande. No meu arquivo de memórias, as lembranças da Aids são muito boas. O cantor e compositor Cazuza, tão digno até morrer. O dramaturgo Vicente Pereira, que trabalhou até morrer. O ator Carlos Augusto Strazzer, que tomou Daime (chá alucinógeno tomado pelos adeptos da seita religiosa Saanto Daime) até morrer. Tantos outros que encararam com dignidade a doença.
Meu caso mais sério foi um rapaz de São Paulo. Como é uma pessoa conhecida, não posso dizer o nome dele. Era um bailarino, um ator fantástico. Morou na Suécia, nos Estados Unidos. Eram poucas as informações sobre o uso da camisinha. Ficamos juntos alguns anos. Logo depois de nossa história ele teve uma toxoplasmose. Morreu em 1989. E eu fiquei soropositivo, embora a doença tenha se desencadeado só no final de 1994. A partir da morte dele, não me descuidei mais.
Queria fazer o teste de HIV, mas morria de medo. Se fosse positivo, tinha medo de morrer logo – sou fácil de sugestionar: estes dias, só de ler nos jornais, estava com os sintomas do Ebola. Ao saber do resultado positivo, enlouqueci, queria me jogar pela janela. Meus amigos ficaram muito assustados e me levaram para o hospital Emílio Ribas, em São Paulo.
Com o resultado, fiquei com uma sensação de alívio. Nunca tive vergonha ou neguei. Esta doença é a minha cara. Tem tudo a ver, eu sempre fui tão contemporâneo, sempre estive à frente de tanta coisa. Não podia mesmo morrer de outro jeito. Cosmicamente está certo. Em nenhum momento fiquei me culpando ou perguntando a Deus “Por que comigo, ó Senhor? Que desgraça!”.
                                  Breve: A Aids é a minha cara: Anos de Chumbo

                          Depoimento a Fátima Torri - Revista Marie Claire  - Set 1995

domingo, 12 de dezembro de 2010

A Aids é a minha cara: Anos dourados

“Sou o mais velho de cinco irmãos, três homens e duas mulheres. Somos de Santiago do Boqueirão. Meu pai é militar reformado e minha mãe, quando nasci, era professora primária. Depois, foi professora de história, e mais tarde, graduou em filosofia. Minha mãe é uma tirana, uma gauchona. Recentemente foi ao médico porque sentia tonturas. Voltou e disse: “imagina que o médico afirma que eu tive um derrame e deveria estar paralisada do lado esquerdo. Imagina se eu vou ficar paralisada”. Ela fez 70 anos. Controla absolutamente tudo, os sons, os espaços. Já meu pai é muito quieto, reformou-se com 40 e poucos anos e nunca mais trabalhou. Quando ela viaja e ficamos só nos dois, instala-se um completo silêncio. É maravilhoso.

Comecei a escrever aos seis anos. Antes eu já contava histórias. Minhas tias contam que, na horas de dormir, elas iam contar histórias e eu invertia o jogo. Eu é que contava. Aprendi a ler muito cedo, filho e neto de professora, e saí escrevendo. Com 13 ou 14 anos, escrevi um romance que se chamava A Maldição dos Sant-Marie, que incluí em Ovelhas Negras, essa espécie de livro póstumo que lancei.

Cresci muito rápido, com 12 anos tinha mais de 1,80 metro. Via com horror meu corpo crescendo. Eu não queria ser adulto, achava uma besteira, dava muito trabalho. Continuei crescendo e a voz era a de um menino de 12 anos. Eu falava e as pessoas riam. Era ridículo, feio. Quando fui trabalhar na Veja, em São Paulo, com quase 20 anos, minha voz ainda era assim. Procurei um foniatra e ele disse que as cordas vocais provavelmente tinham ficado viciadas e eu tinha de fazer um tratamento caríssimo.

Em 1964, vim para Porto Alegre fazer o curso colegial no Instituto Porto Alegre, em cima do morro de Petrópolis. Era um internato masculino. Eu sempre fui meio selvagem, solitário, não gostava de falar, não tinha uma identidade com os rapazes da minha idade. Eles gostavam de futebol, eu queria ficar lendo. Não conseguia me relacionar bem. Os quartos eram para dois alunos mas, como não me dava bem com quem morava comigo, tinha o privilégio de ter um só para mim.

Minha primeira experiência homossexual aconteceu quando estava no IPA. Está num conto meu, O Sargento Garcia. Só que nessa primeira vez não aconteceu nada, fiquei aterrorizado, me pareceu muito sórdido. Num domingo à noite, fui seguido por um homem. Ele conversou e marcou encontro para três dias depois, no centro da cidade. Eu não sabia bem do que se tratava. Fui – sempre vou – morria de curiosidade. Ele me levou a um lugar horrível, muito feio, com lençóis sujos e um rolo de papel higiênico na cabeceira. Me jogou em cima da cama, completamente sem romantismo. Me fez segurar o pau dele e eu saí correndo. Tinha 16 anos. Sempre ficou na minha cabeça o desejo de que a primeira vez fosse uma coisa romântica.

Já a primeira experiência sexual com uma mulher ocorreu alguns anos depois. Fui estuprado em São Paulo, aos 19 anos. Ainda era virgem. Ocorreu no período em que fui trabalhar na Veja, por uma colega casada, bonita e atormentada, que hoje mora na Itália. Ficamos muito amigos. Num domingo chuvoso, tocou a campainha, abri a porta e era a Márcia, toda molhada. Não me deixou dizer nada. Me jogou na cama e me estuprou. Foi ótimo. Uma coisa que não entendo em amigos homossexuais é que nunca tiveram experiência com mulher. Se não têm parâmetros, como é que podem escolher?

Por esse tempo, fugindo de problemas com o DOPS, fui morar com a escritora Hilda Hilst, em sua fazenda de Campinas. Eu fiquei de secretário, ela escrevia e eu datilografava. Líamos muito, estudávamos astrologia, quiromancia, essas coisas. Aí aconteceu a história da figueira. Tinha uma figueira enorme na fazenda. A Hilda dizia: “Cainho, essa figueira é mágica. Quando a gente tem um problema muito grave, fala com ela e ela resolve”. Meu maior problema era a voz de menino. Uma noite, abracei a figueira e pedi para a voz mudar. Voltei para o quarto, peguei um livro de Fernando Pessoa que estava lendo e no terceiro verso a voz ficou assim, grave. Pedi com tal concentração e fé que, acho, eu mesmo me curei. A partir da mudança da voz fiquei mais seguro. Aí me assumi como adulto. Essa história é verdadeiríssima. A Hilda Hilst é testemunha.

Escrever era o que eu sabia, podia e devia fazer. Até hoje sou um tigre com minha mãe, meus irmãos. Não admito que se metam na minha intimidade em relação à escrita. A porta de meu quarto fica fechada. Odeio quando estou ali na escrivaninha, escrevendo, com uma idéia pela metade e vem um sobrinho bonitinho gritar no meu ouvido. Fico uma fera, sou capaz de matar. Sempre trabalhei em jornal ou revista, mas quando via que começava a prejudicar meu ofício, largava e caía fora. Pegava o FGTS e ia escrever. É uma coisa de determinação mesmo. Em um país como o Brasil, em que nada estimula a isso.

Eu fui seguindo meu instinto, as coisas que tinha vontade de fazer. Só isso. Não vejo nada de excepcional. Lembro de uma noite na fronteira gaúcha, em Itaqui, onde moravam meus avós. Falei para meu avô: “Um dia, quando eu for grande, vou morar na Suécia”. Devia ter uns nove anos e meu avô, que se chamava Aparício Medeiros, um nome bem gauchesco, morreu de rir. E não é que eu fui mesmo morar na Suécia? Desde criança, eu tinha certas intuições. Pelo lugar que nasci, pela minha formação, eu deveria ser advogado ou professor, e teria uma vida banal, com filhos, com a minha bissexualidade sob controle. Isso me parecia muito falso e não era o que eu queria. Paguei um preço alto? Era o meu destino, o que me foi reservado para fazer. Eu precisava cumprir assim. A minha vida sempre me pareceu perfeitamente lógica. Acho que tudo aconteceu do jeito que tinha que acontecer. Está tudo certo. Eu não atraiçoei nenhum dos meus impulsos”.
                             
                                Breve: A Aids é a minha cara: Anos Rebeldes
                                                e
                                           A Aids é a minha cara: Anos de Chumbo

                          Depoimento a Fátima Torri - Revista Marie Claire  - Set 1995

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Meu amigo Cláudia




Maravilha, prodígio, espanto:
No palco e na vida, meu amigo Cláudia é bem assim:

Meu amigo Cláudia é uma das pessoas mais dignas que conheço. E aqui preciso deter-me um pouco para explicar o que significa, para mim, “digno” ou “dignidade”. Nem é tão complicado: dignidade acontece quando se é inteiro. Mas o que quer dizer ser “inteiro”? Talvez, quando se faz exatamente o que se quer fazer, do jeito que se quer fazer, da melhor maneira possível. A opinião alheia, então, torna-se detalhe desimportante. O que pode resultar – e geralmente resulta mesmo – numa enorme solidão. Dignidade é quando a solidão de ter escolhido ser, tão exatamente quanto possível, aquilo que se é dói muito menos do que ter escolhido a falsa não-solidão de ser o que não se é, apenas para não sofrer a rejeição tristíssima dos outros.

Bem, assim é meu amigo Cláudia. Eu não o/a conhecia pessoalmente. Ou melhor: conhecia do palco, onde Cláudia enlouquece cantando, falando e mostrando-se de uma maneira tão atrevidamente escancarada que fica linda, lindo. Só conversamos face a face, pela primeira vez, há três semanas. Parece não ter nada que ver, mas tem tudo: eu adoro Marina Lima. Há três anos, no Rio, conheci Sergio Luz, que atualmente dirige Marina. Éramos amigos de (Ah! Os bordados da vida...) Ana Cristina César, e foi através dela que cruzamos caminhos. Mas isso é outra história. Ou nem tanto. Há três semanas, Sergio me convidou para jantar com ele, Marina, Antonio Cicero e outras pessoas. Lógico que fui. E lá estava também Cláudia, no meio de uma mesa enorme. Não havia lugar para todo mundo. Sentamos numa mesa próxima. Pouco depois, Cláudia veio sentar-se conosco, porque havia um senhor na outra mesa – um senhor poderoso – que não parava de agredir Cláudia. Começamos a conversar. Acabamos no Madame Satã, onde raramente ou nunca, felizmente, existem senhores como aquele, agredindo pessoas como Cláudia. Por não existirem interferências assim no mundo particular do Satã, foi que Cláudia e eu, naquela noite, nos tornamos amigos.
Para aquele senhor, e para a maioria de todos os outros senhores do mundo, a presença de Cláudia deve representar a suprema transgressão, a mais perigosa das ameaças. Tanto que andam matando pessoas como Cláudia, na noite negra e luminosa de Sampa. É que meu amigo Cláudia incorporou, no cotidiano, a mais desafiadora das ambigüidades: ela (ou ele?) movimenta-se o tempo todo naquela fronteira sutilíssima entre o “macho” e a “fêmea”. Isso em uma sociedade em que principalmente o genital é que determina o papel que você vai assumir. Porque se você é homem, você tem de fazer isso e isso e isso – não aquilo. E se você é mulher, deve fazer aquilo e aquilo e aquilo – não isso.

Movendo-se entre isso e aquilo, meu amigo Cláudia conquista o direito interno/subjetivo de fazer isso e também aquilo. Mas perde o direito externo/objetivo de fazer nem isso nem aquilo. Tomamos vodca juntos na madrugada falando de solidão, essa grande amiga em comum de todos nós. Trocamos telefones, nos encontramos outra vez. Gosto tanto de seus olhos muito abertos, atentos a tudo, contemplando diretamente o mais de dentro de cada um.

Agora virei seu fã. Hoje, às 23h, Cláudia apresenta-se no Teatro do Bexiga. Se você quiser, também pode conhecer meu amigo Cláudia. A propósito, ela (ou ele – que importa, afinal, um ‘e’ ou ‘o’ ou ‘a’ no artigo ou pronome que precede o nome de uma pessoa?) autobatizou-se com o sobrenome Wonder, que em inglês quer dizer “milagre”, ou “prodígio”, ou ainda “maravilha”, “surpresa”, “espanto”. Todas essas sensações são justamente as que meu amigo Cláudia Wonder passa, no palco e na vida. E por tudo isso, me sinto muito orgulhoso de ser seu amigo.

                              Caderno 2 - Estadão

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Pedra rolante


“Pedra que muito rola não cria musgo” – dizia minha avó quando falava de um sobrinho, Francisco. Ninguém nunca sabia direito onde ele andava: podia ser Porto Alegre, Rio, São Paulo, Paris ou Alexandria. Não é jeito de dizer, não. Ele passou mesmo vários anos no Egito. O Francisco era um exemplo perfeito do que um bom rapaz não deve nunca fazer: andar por aí assim, mudando de cidade, de trabalho, de vida, com tanta facilidade como quem muda de camisa. Pedra que se preza, para minha avó, devia ficar parada e quietinha no seu lugar, criando embaixo aquela camada grossa de musgo verdinho.

Bom, uns anos depois, já na estrada, conheci o Francisco e achei ele ótimo. Tinha visto uma porção de lugares, conhecido um monte de gente, vivido e sentido coisas que a maioria das pessoas só imagina e não tem coragem de viver. Fiquei encantado: ele era uma pessoa larga. Largueza, para mim, é qualidade muito importante nas pessoas. Foi então que entendi melhor porque sempre tinha achado musgo uma coisa muito chata.

As pessoas vivem me perguntando: “Mas, afinal, onde é mesmo que você está morando?” Nem sempre sei responder. Pode ser aqui, ali, ou um pouco aqui, outro ali. Outro dia alguém se queixou que só de endereços meus tinha umas duas páginas ocupadas (e riscadas) na cadernetinha. Até pouco tempo atrás, confesso, eu mesmo ficava angustiado com essa inquietação toda. Agora estou mais acostumado. Tem coisas da gente que não são defeito nem erro: são só jeito da gente ser. O negócio é acostumar com isso e não sofrer. Aliás, o melhor jeito, em relação a qualquer coisa, é sofrer o mínimo possível. Aquilo que os americanos chamam de relax and enjoy – mais ou menos “relaxe e curta”.

Não sei dizer mais quantas vezes mudei de casa e de cidade. Fui, por exemplo, de Santiago, no interior do Rio Grande do Sul, para Porto Alegre, de lá para São Paulo, depois Campinas, Rio de Janeiro, um tempinho em Florianópolis, na Bahia, em Paris, em Londres, Estocolmo, mais um pouquinho no Rio, e por aí vai. Só em São Paulo já morei quatro vezes, de ir embora jurando nunca mais voltar, e voltando sempre. Só em Sampa, já passei pelo Jardim América, pela Bela Vista, Vila Madalena, Jardim Paulistano, Pinheiros, Sumaré, Centro da cidade – agora estou num lugar entre o Ibirapuera e Vila Nova Conceição, que ainda não consegui descobrir o nome. Sei que tem uma feira bem na minha rua, às terças-feiras.. Estou achando um grande barato ter, pela primeira vez na vida, uma feira aqui na porta de casa. Mas não sei até quando vou achar isso.

Minto. Sei, sim. Não é de repente, é mais aos pouquinhos que acontece. Difícil explicar, mas vai dando uma coisa de você não ver mais direito nem as coisas nem as pessoas que estão à sua volta. Você vai acostumando com elas, assim como acostuma com uma cadeira, uma mesa, um fogão. Quando tudo começa a ficar igual todos os dias e você, sem perceber, começa a se movimentar como quem liga o automático e, feito robô, apenas faz coisas, sem sentir o que está fazendo – bem, para mim é porque está na hora de dar o fora. Aí a gente muda. Se não dá para mudar de cidade, muda de casa, muda de rua, de bairro (cá entre nós: massa mesmo seria poder mudar de planeta). Não há nada mais estimulante do que ver ruas e pessoas pela primeira vez. Você tem que fazer um superexercício para conseguir descobrir os jeitos particulares delas se comunicarem – sim, porque tudo isso tem um jeitinho particular. Você é novo. A maioria das pessoas que conheço vive muito desatenta de estar vivendo: elas parecem tão acostumadas com as coisas que estão em volta que é como se estivessem dormindo.

Não digo que todo mundo deva fazer a mesma coisa, e que isso é o certo. Na minha cabeça, certo é tudo aquilo que dá prazer da gente fazer, desde – claro – que não prejudique ninguém. Depois, também acho que para acordar dessa espécie de sono limoso tem muito jeitos. Pode ser ler um livro ou ver um filme provocante, de vez em quando. Num fim de semana, ir a um bar ou a um bairro onde a gente nunca foi antes. Ou bater um bom papo, daqueles verdadeiros, com uma pessoa nova. O que não pode é começar a achar tudo igual, porque aí a criatura vai engordando por dentro e criando aquele tipo de barriga que eu chamo de “barriga mental”. Umas gordurinhas no cérebro que deixam o pensamento lerdo e tiram o prazer de qualquer coisa.

Claro que viver assim, pulando de galho em galho, também tem suas desvantagens. O que se perde de correspondência, por exemplo, é um absurdo. E tem gente maravilhosa que, de repente, vai ficando longe, difícil de ver – e aí dança. Mas também acho que aquilo que é bom, e de verdade, e forte, e importante – coisa ou pessoa – na sua vida, isso não se perde. E aí lembro de Guimarães Rosa, quando dizia que “o que tem de ser tem muita força”. A gente não tem é que se assustar com as distâncias e os afastamentos que pintam.  Mas, vantagens? Ah, isso também tem. A melhor delas é conhecer gente. Não tem coisa melhor (nem pior) do que gente. E, na minha opinião, não é plantado no mesmo lugar, caminhando sempre pelas mesmas ruas, repetindo ano após ano os mesmos programas, que você vai conhecer pessoas novas.

Se fico por aqui? Vou ficando. A feira na porta de casa me encanta, o dono do bar da esquina já começou a me cumprimentar. Ontem mesmo comecei um trabalho novo, e a casa recente está pegando o jeito que gosto. Mas quando vejo no mapa uma ilha chamada Java, com o porto de Surabaya, nas bandas da Ásia – que dá uma vontade de ir pra lá, ah, isso dá. Questão de paciência. Pelo menos até o dia que eu acordar de manhã e perceber aquela camadinha de verde musguento avançando. Porque, no que depender de mim, e para desgosto de minha avó, enquanto tiver saúde vou rolando até encontrar qualquer coisa (ou pessoa) tão fantástica que me dê vontade de ficar ali para sempre. Cá entre nós, se for só a morte, também não me importo nem um pouco.

                                        Capricho - 1987

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Anos Dourados



Franco Andrei, Michela Roc, Sandro Moretti, Rossana Galli – pouca gente com mais de 30 anos esqueceu desses nomes. Para quem lia fotonovelas, eram tão conhecidos quanto os de Brigitte Bardot ou Alain Delon. Quem os trouxe pra o Brasil – alguém sabe? – foi Micheline Gaggio Frank. Nascida em Paris, ela vivia em Buenos Aires, casada com um austríaco, quando em 1950 conheceu Victor Civita, proprietário da editora Abril. A convite dele, veio para São Paulo editar a Capricho, lançada em junho de 1952 com traduções das famosas fumetti italianas. A revista teve oito edições no tamanho do Pato Donald, mas o sucesso foi tanto que o tamanho e a tiragem aumentaram. Os anos de ouro da fotonovela foram até o fim dos anos 60, quando entraram em cena as telenovelas. Para Micheline, “o romantismo saiu perdendo com isso”. Mas esclarece: “Não sou saudosista. Mas as pessoas atualmente não desfrutam mais o amor como ele é. O coração não dá mais pulos, tudo é materialista”. Quando acabaram as fotonovelas, ela passou a secretária de redação de Claudia e atualmente edita a revista Horóscopo. Parar? Ah, isso não quer de jeito nenhum. Aos 60 anos, viúva, vivendo na companhia apenas do pincher Joca (“um neurótico”, conta). Micheline considera-se uma romântica incorrigível. Sábia anônima, modesta, tem um lema de vida – aliás muito apropriado a este Brasil 88: “Somente as pedras não sobem à tona quando caem no fundo de um poço”.
                                                            
                                                                     (AZ – Maio de 1988)

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Vamo comer Caetano?

                         
                                                    Umbigo do Brasil, cravado no
                                                    Centro da barriga da miséria,
                                                    Vamo comer, vamo comer poesia

“Animal arisco” – eu caminhava pela rua quando ouvi o grito. No meio do barulho, do torpor desse calor viscoso que andou fazendo. Claro, agudo, relâmpago no meio da tarde, aquele gemido. Parei, sem entender. O grito foi sendo levado para longe – “me senti sozinho/ tropeçando em meu caminho/ à procura de ajuda, um lugar, um amigo” - enquanto eu compreendia. Era Caetano Veloso cantando Fera Ferida, de Roberto e Erasmo Carlos, provavelmente num rádio de carro que se afastava.

O gemido rasgou a tarde em duas. Fiquei ali parado no meio da dor, assim (deus, quem disse isso uma vez?) “ferido de mortal beleza”. Provavelmente com aquela “expressão amarga” – como diz o Osmar Freitas Jr. – “de quem tivesse acabado de chupar (?) uma crônica de Caio Fernando de Abreu”. Olhei em volta: ninguém mais tinha ouvido. Estavam todos com uma expressão de... – bom, deixa pra lá. Não consigo entender essa pressa em rotular, carimbar, colocar em prateleira: é assim, doce, amargo, leve, pesado. Idéias feitas, congeladas, mortas. Safári no cemitério, preconceito. Fiquei ali parado, o grito vivo de Caetano na cabeça.

Então pensei: Caetano não dá mais entrevista. Tá certo. Não há nada a dizer, não há nada para explicar. Ou você entende, através da música e até do silêncio, e estamos conversados (e enriquecidos). Ou você não entende nada, porque seu repertório é outro. Então, numa gestalt, também estamos conversados. Ninguém enche o saco de ninguém, você me deixa em paz, eu te deixo em paz – certo? Fica combinado assim: se não te atrapalho, você me dá licença de ser assim do jeito que sou?

Fui pra casa ouvir mais Caetano. Deitei, aquele calor paulistano, de cimento. Peguei o release de Maria Clara Jorge – ela diz “Caetano é o umbigo do Brasil”. Sim, em vários sentidos. Aí li o que diz Renato Costa, coordenador do departamento internacional da Polygram: “Há anos Caetano dá todos os toques sem cobrar nada e o Brasil não saca. Azar do Brasil”. Azarésimo. E azar o seu, se não ouvir.

Pega o disco, tá tudo lá. O Brasil negro, já na foto (linda de Flávio Colker (sobre concepção de Luiz Zerbini) na capa, no candomblé que passeia seus axés por Depois Que o Ilê Passar e Ia Omim Bum, ou em Eu Sou Neguinha? Tá lá o discurso político em Vamo Comer: “Quem vai equacionar as pressões/ do PT, da UDR/ e fazer dessa vergonha uma nação?” Tem o cinema falado de Giulietta Massina – “ah, minha vida sozinha/ ah, tela de uma outra luz” -, tem a solidão das estradas em Noite de Hotel: “Estou a zero, sempre o grande otário”. E aquela que deve ser uma das mais belas letras (e músicas) feitas nos últimos anos neste país, O Ciúme. Numa tarde cheia de luz, no rio São Francisco, sobre toda a paisagem “paira, monstruosa, a sombra do ciúme”. O humano torturado projeta sua imagem interior sobre a paisagem indiferente, alheia à dor individual. Mas de dentro dessa tortura, que nada alivia e ninguém pode perceber, é que o ser olha e suspeita: “Tudo é perda, tudo quer buscar – cadê?”
Porque tem luz e sombra. Uma engendra a outra, uma nasce de dentro da outra. Tem amor e ódio, tem encontro e perda, tem identificação e indiferença. Tem dias em que tudo se encaixa, como no momento das peças finais dos quebra-cabeças, e tem aqueles em que tudo se desencaixa numa aflição tonta de não haver sentido nem paz, amor, futuro ou coisa alguma. Tem dias que nenhum beijo mata a fome enorme de outra coisa que seria mais (e sempre menos) que um beijo. Mas tem aqueles outros, quando um vento súbito e simples entrando pela janela aberta do carro para bater nos teus cabelos parece melhor que o mais demorado e sincero dos beijos. Precisamos dos beijos, precisamos dos ventos. Tem dias de abençoar, dias de amaldiçoar. E cada um é tantos dentro do um só que vê e adjetiva o de fora que escapa, tão completamente só no seu jeito intransferível de ver: “E eu sou só eu só eu só eu”.

A voz e a poesia de Caetano passeiam nesse limiar – Limiar é tão bonito, parece limite, parece ar, um limite no ar? – entre os opostos. Umbigo do Brasil, como diz Maria Clara/ Cacaia. Cravado no centro, origem, raiz, verdade. Vamo comer, vamo comer Caetano: bom apetite.

                                                        CADERNO 2 - OESP - 1987


sábado, 2 de outubro de 2010

Delírio Eleitoral à beira do ridículo


Porto Alegre – Ok, vamos mudar de assunto. A vida é sempre o mais importante. E o mais importante hoje, justamente às vésperas da eleição – mesmo que o papa se mate ou um Ovni atropele à Casa Branca -, é esse luxo de democracia: vamos todos votar amanhã.
Todos, não. Alguns sentirão preguiça, outros estarão doente, outros dementes, outros em trânsito. Faço parte destes últimos. Pegarei todos aqueles papéis e carimbos no correio do Menino Deus para enviar a nunca sei exatamente quem, nem quando, nem onde em São Paulo. Estivesse lá (ou aí), com alegria , orgulho e confiança votaria na honestíssima Luiza Erundina, e também em Marta Suplicy. Os outros, pensaria bem, talvez até me submetesse a uma hora de tortura televisiva assistindo ao HEG (não, não se trata de um novo vírus: é o Horário Eleitoral Gratuito) para escolher certo. Ai, meu Deus, o certo e o errado, e Brasília depois, o poder subindo à cabeça, corrupção, loterias, e os do-bem virando do-mal e os do-mal ficando cada vez mais do-mal, porque nunca que eu saiba aconteceu de um político do-mal virar do-bem...
Nos últimos dias, ocupado em catar poluidores santinhos eleitoreiros jogados na drama recém-cortada do jardim de meu pai, comecei a pensar em algo terrível. Tão terrível que disfarçava, ia tomar um café, andar de bicicleta, ler mais algumas páginas de O Homem da Mão Seca, de Adélia Prado. Só para não pensar naquilo. Assumi o pensamento quando vi Eliakin & Leila no SBT revelando que o mesmo temor atacou também Caetano Veloso, injuriado porque Enéas Carneiro ultrapassou Brizola nas pesquisas. Mais seguro, revelo para vocês aqui e agora o meu maior e mais ridículo medo pré-eleitoral – e se... o Enéas ganhar?
(Pausa longa. A princípio incrédula. Depois, paranóica).
Décadas atrás, o povo chegou a eleger o rinoceronte Cacareco (lembro da marchinha de carnaval: “eu-encontrei-o-Cacareco-tomando-chope-com-salsicha-e-rabanada”); houve também um certo macaco Tião. Houve até – credo em cruz! – Fernando Collor. Por que não Enéas Carneiro? Assim, de sarro. Ou de amargura, porque depois de tanta bobagem, feiúra, denúncias, golpes, cinismos, arrivismo, falsidade (alô, alô FHC), o eleitor poderia muito bem se decidir por aquela opinião que De Gaulle tinha sobre o Brasil – a célebre c’est pás un pays serieux. Oswald de Andrade, ou seu espírito, adoraria. Chacrinha talvez reencarnasse para ser, digamos, ministro da Fazenda. E Mazzaropi ou Oscarito para a Saúde, que tal? Uau, enfim, uma República Palhaça! Assumida, descarada.

Piada? Espero mesmo que não passe disso. Seria perigoso demais, por trás da imbecilidade aparente, Enéas parece tão fascista quanto o porco Berlusconi. Sei o que digo. Eu o conheci no final de 1990, no Aeroanta, quando Grace  Giannoukas, Angela Dip e Marcelo Mansfield (na época o grupo Harpias & Ogros) ofereceram a ele um dos troféus “Créme de la Créme”. Encarregado por Martha Góes de fazer a cobertura para esse mesmo Caderno 2, dividi uma mesa com a poeta Ledusha, a atriz Maria de Moraes e, voilá, o tal Enéas. Este, levando a sério o puro deboche. Constrangedor. E me pergunto, seria tão patética assim a desilusão do povo brasileiro a ponto de cometer esse abasurdo? Razões não faltam, sei. Eu mesmo endureci muito após o affair Ibsen Pinheiro...
Peço então en-ca-re-ci-da-men-te: amanhã votem em quem quiserem, mas NUNCA em Enéas. A comédia pode virar tragédia, gente. Já pensou quatro anos de meu-nome-é – etc, perseguição às minorias e defesa da célula-mater? Posto isso, parto para Frankfurt dia 4. Terei que ler em alguma língua estrangeira sobre o que rolou por aqui. Caso essas minhas torpes fantasias se realizem, juro que nem volto: vou direto morar em Saravejo. Anyway, da estrada, mando notícias. E juízo amanhã, hein?
                     (OESP – Caderno 2 – 2 Outubro 1994)

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Beta, Beta, Bethânia


                          

                                                 Então ela chega e diz: “Dá
                                                 licença, rock and roll, 
                                                 que a tia vai cantar o amor


Os muitos darks que me perdoem, mas Maria Bethânia é fundamental. Sei, vocês vão dizer que ela é brega, careta, exagerada, melodramática. Pode ser. Mas essa coisa chamada vida onde estamos metidos até o pescoço, às vezes não é brega, careta, melodramática? A Vida é mais Nelson Rodrigues ou mais Clarice Lispector? Mais Augusto dos Anjos ou Emily Dickinson? Fassbinder ou Jacques Demy? Philip Glass ou Dead Kennedys? Mais Sex Pistols ou mais Cecília Meireles? Bukowski ou Bergman?

Tudo isso, sim, e muito mais. O engarrafamento às seis da tarde de uma sexta-feira de chuva, na marginal do Tietê, pode ser uma emoção-Titãs (tipo Bichos Escrotos). Transar com a garota prostituta da rua Augusta, de minissaia de couro e correntinha no tornozelo pode ser uma emoção-Dalton Trevisan. Dar um espirro bem na hora de dizer eu-te-amo pode ser uma emoção-Woody Allen. Assim por diante, cada coisa sendo uma coisa diferente. Porque o que vai sendo vivido e sentido por cada um é tão particular que, mesmo lugar comum ou já cantado em prosa e verso, é para sempre também único. Infinitiva e indivisivelmente subjetivo.

Nosa, como estou me dispersando. O que quero dizer é muito simples – adoro Maria Bethânia. Por um tempo, aposentei Eurythmics, The Cure, Talking Heads, Legião Urbana, Sting, Paul Simon – só consigo Bethânia.

Ando tomado por emoções-Bethânia. Essas, que estão morrendo à míngua, poque não é moderno ter emoções. Não é in sentir amor, envolver-se. Ficou out dizer coisas como “quero ficar com você/ e é tão fundo que eu posso dizer/ que o fim do mundo não vai chegar mais” ou “parece bolero/ te quero, te quero/ dizer que não quero/ teus beijos nunca mais” ou “quando os caminhos se separam/ não tem razão que dê mais jeito” ou “é tão difícil ficar sem você/ o teu amor é gostoso demais”. É burro cantar coisas que eu, tu, ele, nós sentimos? É brega ter desejos e carências e dores e suspiros assim, de gente?

Sentir não é brega. Ao contrário: não existe nada mais chique. Emocione-se e seja o rei de sua insensatez. Seja nobre, seja divino no desconcerto das emoções. Maria Bethânia é muito chique, e quase ninguém está vendo isso. Em Dezembros, sem querer fazer nenhuma revolução, ela chega e diz: “Dá licença, rock and roll, que a titia vai cantar o amor”. E eu peço: Crianças, cessem as guitarras, os teclados, os sintetizadores – um minuto só – e prestem atenção na voz quente dessa mulher linda do jeito inverso da beleza, cantando (que ousadia!) o amor.

Sei: a Aids está solta, e o que era possibilidade de amor agora é possibilidade de morte. Nem por isso é possível parar de amar. Você consegue? Eu, não. E não tenho medo. Sem platonismos, nem zen-budismos: quero que pinte o amor-Bethânia, dançar de rosto colado, pegar na mão à meia-luz, desenhar com a ponta dos dedos cada um dos teus traços, ficar de olho molhado só de te ver, de repente e, se for preciso, também virar a mesa, dar tapa na cara, escândalo na esquina, encher a cara de gim, te expulsar de casa e te pedir pra voltar.

Darks, pós-modernos, minimalistas, gliters, apocalípticos, concretistas, skinheads, me perdoem. Na noite de sábado, caminhando sozinho pela avenida Paulista, o quarto-crescente brilhando sobre a torre da TV Globo, uma vontade desesperada de ter alguém – as únicas canções que me vieram à mente para cantar baixinho foram canções de Bethânia. Doía fundo estar perdido na grande cidade, era completamente sem remédio ser só uma pessoazinha machucada. Mas brotou então um orgulho tão grande de ser ainda capaz de sentir o coração cheio de emoções-Bethânia que era quase como uma felicidade. Sangrada, do avesso – que importa? Era real, era vivo. Isso é muito, e Bethânia canta.

                                 (Caderno 2 – O ESP – 1987)

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

A Rosa Púrpura do Cairo


Não consigo lembrar a primeira vez que fui ao cinema. Mas, certamente, faz muitos anos. Acontece que lá em Santiago, interiorzão brabo do Rio Grande do Sul, minha mãe adorava cinema. Meu pai não era muito chegado. Naturalmente, então, eu – o primogênito – era sempre requisitado para acompanhar minha mãe nas sessões do Cine Imperial, o único da cidade. Como ela era muito amiga de Dona Zezé, a mulher do dono, sempre davam um jeitinho para que eu pudesse entrar. Mesmo quando era fita (dizia-se fita, naquele tempo) forte (e dizia-se forte quando tinha um pouco de sexo, algum beijo mais demorado – e de língua).

Daquelas sessões, então, ao lado de minha mãe, misturadas às matinês de domingo, resta uma espécie de colagem louca na minha memória. Onde Flash Gordon espia a saia arregaçada de Silvana Mangano em Arroz Amargo, e os gritos e cipós do Tarzan Johnny Weissmuler fazem fundo às lágrimas de Lana Turner em Imitação da Vida. As caras e bocas tropicais da mexicana Maria Felix convivem em paz tanto com as caras e bocas escandinavas de Ingrid Bergman quanto com o sapateado de Ginger e Fred. Numa cidadezinha onde nada acontecia, as paixões e aventuras aconteciam (porque viver sem elas quem consegue?) na telinha do cinema.

Talvez tenha sido por isso que, mais de 30 anos depois, ao assistir pela primeira vez A Rosa Púrpura do Cairo, de Woody Allen – naquela cena final, quando a imagem congela no esboço de sorriso (tão amargo e iluminado) de Cecilia/Mia Farrow -, não me contive e gritei: “Que filho da puta!” Porque, de repente, tudo o que eu tinha vivido (e acho também que a minha geração inteira) nesses anos todos de cinemania estava ali contado na vidinha de Cecilia. Que vai obsessivamente ao cinema para viver – viver o que a vida não dá, ou dá apenas em doses homeopáticas, simulacros. Qualquer pessoa viciada em cinema (como Cecilia e eu) sabe desse pequeno segredo, tão profundo quanto inconfessável: vai-se ao cinema para viver o que a vida não dá.

Se é uma fuga? Sim – e daí? Só depois de ter visto A Rosa Púrpura compreendi melhor porque nunca consegui gostar muito de Godard, por exemplo. A grande maioria dos filmes dele foram feitos para você refletir sobre eles, para você se distanciar-se e criticá-los. Mas quem vai ao cinema como Cecilia/Mia Farrow ia, não quer refletir sobre nada, não quer distanciar-se, nem critiicar coisa alguma. Quer apenas mergulhar na fantasia, de onde só voltará à tona com certa dificuldade. E algum desgosto pelo sem-gracismo da realidade dita “objetiva”.

Ao final daquela primeira vez que vi A Rosa Púrpura, me voltaram à cabeça uns versos de um poema e de uma música. Um poema de, coincidência, Outra Cecília (a Meireles): “A vida só é possível reinventada”. E uns versos de Mario Lago para um fox muito antigo, de Custódio Mesquita, gravado por Orlando Silva, Nada Além: “Eu não peço nem quero/ para o meu coração/ nada além de uma linda ilusão”. A princípio, não compreendi a relação. Agora, suponho que sim: tanto o filme quanto o poema ou a música falam dessa nossa louca necessidade de ilusão. Porque a imaginação do homem foi feita, acho, para imensamente mais do que aquilo que o cotidiano oferece.

Por tudo isso, em cada vez que revi o filme (perdi a conta), vivi junto com Cecilia a paixão por uma figura que só é possivel no sonho. E sempre compreendi perfeitamente bem quando, ao contar que está apaixonada, Cecilia acrescenta, meio encabulada, como pedindo desculpas: “Ele não é real, mas que se há de fazer? Também não se pode ter tudo”. Por não se poder ter tudo, vai-se ao cinema. Aquela salinha escura onde, por algum tempo, todos os sonhos mais loucos são possíveis. De mentirinha, é claro. Mas que se há de fazer?
                                                           (Revista SET – 1987)

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Para embalar John Cheever


Pode ser o som do Nouvelle
Cuisine, no meio da noite,
repetindo palavras douradas


Mais ou menos um ano atrás, me apaixonei por um disco. Ou melhor: por uma música de um disco: Forgetting, letra de Laurie Anderson para uma melodia de Philip Glass, em Songs From Liquid Days. Uma letra muito simples: com o som da chuva, um homem acorda de repente, no meio da noite, depois de ter sonhado com antigos amores. Sozinho no escuro de seu quarto, lembrando aqueles velhos amores, repete muitas vezes palavras como: Bravura, Gentileza, Claridade, Honestidade. Compaixão, Generosidade, Dignidade.

Um ano depois, agora, me apaixonei por um livro. Fazia tempo que não acontecia. Noutros tempos, já me apaixonei por um livro de J.D. Salinger, me apaixonei por Clarice, por Fome, de Knut Hamsum, Pergunte ao Pó, de John Fante, por Adélia Prado, pela Metamorfose, de Kafka, por A Morte de Ivan Ilitch, de Tolstoi, Belos e Malditos, de Scott Fitzgerald, ou Los Premios, de Cortázar. São livros (mas podem ser canções, filmes, quadros, peças e, antigamente, até pessoas) que você ama tanto que quer ficar morando dentro dele, dela. Quer ver toda hora. Absorve o jeito do outro, e esse jeito absorvido da coisa pela qual você está apaixonado, você fica aplicando no cotidiano, feito você fosse aquela própria coisa apaixonante. Que nos tira de nós, alarga.

Estou perdido de amor por O Mundo das Maçãs, de John Cheever, uma seleção de contos que Sergio Augusto fez, Paulo Henrique Britto traduziu e a Companhia das Letras editou. Leio em algum lugar que Cheever, morto em 82, era alcoólatra, drogado e, além do mais, tinha um caso com um de seus assistentes. O que mais justifica e encendeia minha paixão: felizmente, ele não era “normal”. Não era médio, não tinha medo. Esse não medo de Cheever transparece no que escreve: tudo tem uma grande piedade pelo humano. Seja esse humano bêbado, drogado, homossexual, ou apenas mediamente suburbano, como a maioria de suas personagens, inclusive nós (eu, pelo menos, sou tão suburbano neste cosmopolitismo brega). Você lê e sofre. Você lê e ri. Você lê e engasga. Você lê e tem arrepíos. Você lê, e a sua vida vai-se misturando no que está sendo lido.

Ler Cheever desse jeito, tão tomado de paixão, durante uma semana que comportou umas barras de morte, umas barras de medo, tão pesadas, trouxe também uma força assim: não, Caio F., você vai segurar, porque esse tal de Cheever aí não só segurou como criou sobre. E vamos lá. Então, lendo Uma Visão do Mundo, um dos contos do livro, ao chegar ao fim encontrei – adivinhem – nada menos que aquela letra de Laurie Anderson para Philip Glass. No conto, depois de pensar em seus amores passados, ouvindo a chuva um homem acorda no meio da noite – “então me sento na cama e exclamo bem alto, para mim mesmo: - Bravura! Amor! Virtude! Compaixão! Esplendor! Bondade! Sabedoria! Beleza!”. No disco brasileiro, Laurie não dá o crédito “inspirado em John Cheever”. No original, quem sabe, Mas a canção está lá, para quem quiser conferir, mais que mera coincidência.

Tudo isso só me prova que minhas paixões são semelhantes. Amo tudo que afunda a cara na lama da vida crua e consegue arrancar o belo desse mergulho. Todo temeroso, machucado, denso por dentro e cético por fora, saio de casa no sábado à noite para assistir ao Nouvelle Cuisine, no Espaço Off. E o som absolutamente cool desses cinco meninos de repente é justamente o som que eu escolheria para embalar as histórias de John Cheever. Tudo fecha, então, porque tudo é fechado, não deve haver espanto. Enquanto eles tocam My Funny Valentine, eu penso que continua chovendo. Acordo no meio da noite, assombrado por sonhos com velhos amores, e fico repetindo no escuro palavras como: Gentileza, Perdão, Sabedoria, Bondade, Paciência. O dia começa a amanhecer, quando sento aqui e começo a escrever todas estas coisas que também amanhecem.

Depois abro Adélia Prado e leio: “a vida é tão bonita/ basta um beijo/ e a delicada engrenagem movimenta-se/ uma necessidade cósmica nos protege”. Depois durmo, certo de que ainda há muitas histórias para serem lidas, para serem escritas, para serem lembradas. Até para serem vividas, quem sabe?

                                             (Caderno 2, OESP, 5 de agosto de 1987)


segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Na trilha dos mistérios de Clarice


No último dia 25 de junho o Caderno 2 publicou uma carta de Clarice Lispector que chegara misteriosamente às minhas mãos (a amiga de uma amiga encontrara entre velhos guardados), aparentemente inédita. Na maior boa fé – porque a carta era linda e, por sua sabedoria, poderia fazer bem a muita gente – encaminhei-a para o jornal.
Não era bem assim. Do Rio, o poeta Afonso Romano de Sant’Anna telefonou informando que a carta fora escrita por Clarice à sua irmã Tânia. Affonso tem uma cópia guardada. Mais tarde, a mesma carta (ou trechos dela) foi incluída em Esboço Para Um Possível Retrato, uma espécie de pequena biografia poética escrita por Olga Borelli, grande amiga da escritora nos seus últimos anos de vida. Procurei o livro em várias livrarias para confirmar – está completamente esgotado.

Mas entre telefonemas e informações desencontradas, fui recolhendo algumas informações. Uma ótima: a Editora Ática deve publicar logo uma biografia escrita pela professora Nádia Gotlib, depois de vários anos de pesquisa. Outra nem tanto: segundo Afonso Romano, Tânia, uma das irmãs de Clarice – a outra, Elisa, é também escritora, autora do romance O Muro das Pedras, entre outros – guarda até hoje grande parte da correspondência, mas não quer cedê-la para publicação de jeito nenhum.

A verdade é que Clarice, que viveu muitos anos no exterior, acompanhando o marido diplomata, era uma grande missivista. Lygia Fagundes Telles me informa que havia muitas cartas dela para Erico Verissimo, outro também chegado num bom correios & telégrafos, naqueles tempos sem fax. E há uma história famosa sobre Lucio Cardoso, por quem Clarice teve uma grande paixão. Dois ou três dias depois de receber os originais de um romance escrito por ela na Suiça, Lucio recebeu um telegrama (cito de memória) dizendo algo como: “Favor não considerar vírgula na linha X da página V PT Abraços Clarice”.

A verdade também é que Clarice era deliberadamente misteriosa. Apagava rastros, diluía pistas. Ninguém sabe ao certo o ano de seu nascimento, na Ucrânia. Ela sempre disfarçava, mudava de assunto, confundia. Era ainda uma grande recicladora dos próprios textos. Nos anos 60 e 70, quando foi cronista do Jornal do Brasil, volta e meia republicava trechos de algum conto ou romance como crônica, com outro título. Alguns dos capítulos de Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres foram publicados primeiro na coluna do JB e, mais tarde, também em A Descoberta do Mundo, a coletânea completa de seus escritos disperso (inclusive, imaginem, entrevistas que ela fez para a revista Manchete). Há quem diga até que ela enviava a mesma carta para várias pessoas....

Quem conheceu Clarice sabe: ela não era mesmo muito deste mundo. Até hoje lembro de um encontro que tivemos em Porto Alegre, em 1975. Ela – que quase não falava, fumava muito e suportava pouco as pessoas – me convidou para um café na Rua da Praia. Fomos. Silêncio denso, lispectoriano. No balcão do bar, por trás da fumaça do cigarro e com aquele sotaque estranhíssimo, de repente ela perguntou: “Como é mesmo o nome desta cidade?” E estava em Porto Alegre há três dias...

Na obra, na vida, foram muitas as lendas e mistérios deixados por Clarice Lispector. Hoje, seus livros são cultuadíssimos na Europa. Seu tradutor inglês, Giovanni Pontiero, da Universidade de Manchester, certa vez me disse que tinha certeza que, se ela não vivesse no Brasil, teria ganho o Nobel. Sofreu demais aqui. Lembro até hoje da crítica decretando seu fim quando saiu A Hora da Estrela. Fim? Bem, passaram-se 17 anos desde a sua morte, e continuamos a falar nela. E, sinceramente, se fico um tanto encabulado com a história confusa da carta, fico contente por poder trazê-la um pouco de volta.
                                              Caderno 2 – OESP – Domingo, 7 de agosto de 1994

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Cor e Destino




Tive uma amiga chamada Ana – Ana Maria Scaraboto Asef. Digo tive, infelizmente, e não tenho, porque a Ana morreu, há pouco mais de um ano. Um dia, me contaram, sentou na sala, colocou a mão sobre o coração e disse: “Estou sentindo uma coisa estranha aqui". Fechou os olhos e morreu. Como um passarinho, diria minha avó, e eu sempre achava esquisito: passarinho, pra mim, morria com pedrada de bodoque. Não era nada suave, imagino. Prefiro pensar que Ana morreu como uma fada, se é que as fadas morrem. Mas isso é detalhe. O que importa é que Ana era mesmo meio fada.


Durante anos, ela estudou astrologia, quiromancia, numerologia, cabala, radiestesia, essas coisas. Estudou porque gostava, porque era mesmo meio fada. Não por causa de dinheiro. Ana era uma advogada muito conceituada. Bem, com tanto estudo, ela acabou formulando suas próprias teorias: descobriu as cores do tempo, as cores das horas, as cores dos nomes, as cores dos destinos. Quando nos conhecemos e ficamos amigos à primeira vista, batizei as teorias da Ana de cromologia (ou “conhecimento das cores”). Ela gostou do nome, costumava usá-lo quando começou a dar entrevistas e a ficar muito conhecida. Estava preparando um livro, quando um dia veio a morte e crau! De alguma forma, devia estar certa que fosse naquele dia, daquele jeito – levando a mão no coração, suspirando e fechando os olhos. Como uma fada.

Ana ficou em mim de muitas formas. A mais constante delas é que dei para pensar nas pessoas – não só nas pessoas, mas também nas situações, nas emoções – como tendo cores. Metade por causa das teorias de cromologia, metade por pura piração (ou poesia: quem é capaz de estabelecer a diferença?). Claro, tudo isso misturado com gosto pessoal. Que, você sabe, não se discute.

Então, acordar de manhã bem cedo, sair para a rua antes que as lojas se abram, com poucas pessoas e certa névoa ainda no ar, para mim é indiscutivelmente branco. Como são alaranjadas certas noites de energia solta no ar, na mesa de um bar ou assistindo a algum show. Como são verde bem clarinho certas tardes, principalmente as de inverno, quando há sol e, de repente, as coisas meio que param, infinitamente calmas. Há também momentos marrons: tentar trocar a fita corretiva desta máquina elétrica, coisa que nunca consigo fazer direito, embora consulte sempre as instruções. Esperar horas numa fila de banco, tentar atravessar a avenida Nove de Julho, em São Paulo, para mim, é completamente marrom. Quando surge alguma irritação, então vira marrom riscado de vermelho. Mas, vermelho total, só quando pinta ódio, vontade de gritar e bater. Filme de Stallone ou Schwarzenegger é vermelho – nada a ver com ideologia.

Tem também vozes, caras, pessoas. Suzanne Vega cantando Tom’s Diner é azul bem clarinho, azul-aquarela, meio transparente, quase branco. Já Vida Bandida, com Lobão, pende mais para o bordô. E Billie Holiday será sempre roxo, às vezes mais carregado, com a voz mais rouca das últimas gravações, às vezes suavemente violeta. A cara de Jânio Quadros varia do cinza-chumbo ao negro, mas a de Xuxa é enjoativamente rosa-choque, daquele que Jayne Mansfield adorava.

Destinos também têm cores – não sei até que ponto você escolhe ou as coisas se armam e, quando você se dá conta, a cor já está ali, definitiva. Sarney, por exemplo, acho que escolheu ou foi vítima de um destino marrom. Pelo menos a sensação que ele me dá é a mesma de tentar atravessar aquele corredor de ônibus na Nove de Julho. Aliás, políticos quase sempre são marrons. Elba Ramalho – quer apostar? – é puro amarelo: amarelo-grito, amarelo-estridente. Augusto de Campos me parece mais um destino azul-marinho, todo sóbrio. Caetano Veloso: azul-claro, às vezes vermelho. Lygia Fagundes Telles: puro bege.

E assim fico pensando em Ana. Que tinha um destino não de uma, mas de todas as cores. Quem dera o meu, o seu, o nosso fossem assim também. Que marrom não há de ser, nem cinza-chumbo. Pois, quando eu daqui, você daí, tão vadio quanto eu, pára e lê – deve haver alguma cor nisso. Espero que bem clarinha.

                                                   (HV – Agosto/setembro 1987)

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Pra machucar os corações


Para quem tem mais de 30, 35 anos, este disco pode ser uma tortura. Não, não é que seja um mau disco. Eu explico. Ou tento.
É que fatalmente eu/tu/ele/nós vamos lembrar. E não estou certo se essas lembranças serão boas. Ou se seriam boas, lembradas hoje, você me entende? Porque o tempo passado, filtrado pela memoria e refletido no tempo presente – agora -, parece sempre melhor. E terá mesmo sido?

Apenas, quem sabe, porque não havia fadiga lá. Aquela fadiga que se insinua, persistente, entre o ruído das buzinas e das descargas abertas nos engarrafamentos de trânsito, todo dia. Ou essa, de atravessar mais uma vez qualquer avenida às seis da tarde para, de repente, olhar a multidão também fatigada e preguntar: mas que cidade, afinal, é esta. E que vida? A quase amável, paciente fadiga de contemplar o grande relógio das repartições e escritorios, quase imóvel na sua lentidão, a partir das cinco e a caminho das seis da tarde. Para nos despejar, novamente, nas ruas entupidas de fumaça e desejos bandidos nas esquinas, dentro de carros apertados entre outros carros ou de ônibus apinhados – até o interior dos apartamentos, com seus fantasmas emboscados, uns mortos, outros vivos. E então o acúmulo de contas atrasadas, telefonemas ansiosos, telenovelas chatas, quem sabe algum plano, certas fantasias. Outra cidade, outro país, outro planeta, outra vida que não esta – uma memória de flores no cabelo e pés descalços, pouco antes do ruído do despertador e o do meu/teu/dele/nosso coração serem os únicos audíveis dentro da escuridão onde afundamos na lama de nossos sonhos mortos.

Mas eu falava – tentava – de um disco. De John Lennon.

Ele foi gravado ao vivo, no Madison Square Garden, a 30 de agosto de 1972. Há quase, portanto, 14 anos. Você tinha quantos – 15, 20, 25? E provavelmente também imaginava que, um dia, pudesse não haver mais guerras, nem países, nem ódio entre as pessoas. Um mundo novo, não é isso? Depois houve cinco tiros nas costas, e pouco antes, durante o depois, os muros das cidades pixados com frases como “flower-power is dead”. E então uma invasão de cabelos muito curtos, quase raspados, roupas negras, couro justo: a ridicularização de tudo em que você acreditou durante tanto tempo – e largou faculdade, largou família, caiu em bandos pelas estradas para sonhar com essa coisa que não aconteceu: um mundo novo. O deboche das suas antigas – e perdidas – ilusões. Patrício Bisso só sobe no palco para cantar qualquer coisa como “bolsa peruana? Sandália indiana? Hippie! Mata”. Eu rio, você ri, ele ri – nós rimos todos juntos. E temos um sutil cuidado em evitar, no vocabulário, no vestuário, qualquer detalhe capaz de nos identificar como sobreviventes daquele tempo. Agora somos mais do que modernos: demi-darks. Não temos fé, nem esperança, nem caridade. Bebemos vodca pura, cheiramos umas. Nunca mais compramos uma caixinha de incenso. E a bad-trip pinta sem química.

Tudo isso dói tanto. Eu nunca mais tinha ouvido John Lennon. O tempo corre, a gente vai descobrindo jeitos de se proteger. Elis? Nem pensar: põe aí a Paula Toller. Marc (quem lembra?) Bolan? De jeito nenhum, melhor um Boy George, cara. Let´s Roller. It´s only rock and roll. Só que eu nem sempre sei se gusto. Mas, por trás das defesas, esse vinco no canto esquerdo da boca continua avançando, cada vez mais fundo, cada vez mais longo. Você tenta reagir, sem dizer claramente não, pelo amor de Deus, não me dá esse disco pra ouvir, eu não entendo nada de música, eu não conheço John Lennon e nunca ouvi falar em Yoko Ono. Eu não tenho tempo. Não posso parar, nem pensar, nem sentir. Nem lembrar. Eu preciso ganhar dinheiro. Tenho pressa neste passo alucinado em direção ao buraco-negro do futuro.

Mas você acaba aceitando. Agora somos profissionais. Coloca no toca-discos, como quem não quer nada. Liga a TV, ao mesmo tempo. E no meio dos sons que vêm também da rua e dos outros apartamentos, de repente aquela voz tão antiga e conhecida grita:

- Mother!

Aumente o volume. Ou desligue para sempre, você me entende?

(Publicado no Estadão, Caderno 2, Domingo, 6 de abril de 1986)